Poesia Pedaços de Todos Nós  

Valter Nunes Portalete

- I -

Montei no lombo do tempo,
pra recordar o passado
e ver de perto o legado
que nos deixaram de herança.
Dei rédeas para a lembrança
e adentrei nos rincões.
Vi de perto revoluções
que marcaram nossa história
e enxerguei tempos de glória
dos Sete Povos das Missões.

- II -

Cruzei com Francisco Garcia de Prada
que chegava de São Tomé.
Impregnado de fé,
trazia junto uma corja.
Pra fundar São Francisco de Borja
neste meu Sul Brasileiro,
e catequizar os guerreiros,
sob a imagem da Cruz,
era a Companhia de Jesus
voltando ao chão Missioneiro.

- III -

Cheguei em São Nicolau,
e vi a reconstrução
pois um grande furacão,
incêndio e até granizo
trouxeram grande prejuízo
destruindo, casas e plantas.
Mas a fé e coragem eram tantas
que sob os escombros do templo,
São Nicolau dá exemplo
e de novo se levanta.

- IV -

Me disse um jesuíta,
a nossa idéia se expande
veja Padre Miguel Fernandes
fundando São Luiz Gonzaga.
A todos ele afaga,
com ternura e paciência
pois tem muita eloquência,
a até merece um diploma
por saber todo idioma
dos índios desta querência.

-V -

Encontrei João Batista Primoli
o mais famoso arquiteto,
apresentando um projeto
da Igreja de São Miguel.
Desenhava num papel
anotando as dimensões
e eu senti suas emoções
brotarem naquele momento
pois criava um monumento
da saga das reduções.

- VI -

Avistei Bernardo de La Vega,
Pe. de grande consenso,
fundador de São Lourenço
que era terra de escultores.
Também de músicos e pintores
de influência nas Missões.
Ali, no calor dos fogões,
pra Santo Isidório dar guarida,
os índios ergueram uma ermida,
ao protetor das plantações.

- VII -

Segui Pe. Antonio Sepp,
o grande "Gênio das Missões",
incentivou plantações
do cultivo do algodão
e a primeira fundição
de ferro estava na lista.
E por ser nobre artista
juntou a terra vermelha
pra fazer tijolo e telha
e cobrir São João Batista.

- VIII -

Conversei com Diogo Haze,
na margem esquerda do Ijuí,
estava nascendo ali
a sétima redução.
Fazia sua oração,
sobre o rigor das aragens
pedindo a Deus a coragem
pra suportar dor e ódio,
e fundar Santo Ângelo Custódio
no outro lado da margem.

- IX -

Era idéia do Padre Diogo,
fazer de Santo Ângelo um guardião
pra zelar por este chão
como um soldado fiel.
Voltado pra São Miguel
tinha que ser muito forte,
para encarar a morte
debaixo de um céu azul,
ficaria voltado pro Sul
e os outros seis para o norte.

- X -

Mas depois de visitar
todas sete reduções
vi desfilarem canhões
e o sangue dos guaranís
O tratado de Madri
destruiu um tempo de fé
e nas margens do Caiboaté
vi o confronto final
contra Espanha e Portugal
tombava o índio Sepé.

- XI -

Tudo calou de repente
e vieram só destruições,
acabaram as plantações
e brotaram miséria e dor.
A herança do conquistador
foi somente a desgraça
e o final de uma raça,
de cujo o sangue herdamos,
e a quem hoje reverenciamos
nos monumentos da Praça.

- XII -

Após rever tudo isso,
voltei a realidade
não vi mais a sociedade
dos Padres de antigamente.
Não vi mais aquela gente
nem canto nem construções,
só resquícios das reduções
dentro do solo nativo
que a terra guardou como arquivo
pras futuras gerações.

- XIII -

Cada pedra, vaso ou telha,
ou mesmo uma ponta de lança
é o passado que se alcança
nas profundezas do chão.
É a própria redução
voltando tempos após.
São histórias dos avós,
que nós fomos esquecendo.
É a terra devolvendo,
pedaços de todos nós.