Poesia Faca  

Vargas Neto

Faca - amiga de todos os momentos,
de tantas utilidades e misteres
e também dos mistérios da campanha...
Instrumento banal do cotidiano,
fonte das alegrias e tormentos...

Com o bambu que cortaste foste lança,
atada à sua ponta com bom tento,
que tiraste do costilhar de um couro bem!
Instrumento selvagem da degola
quando chega a hora cruel de ajustar conta!

Usada para coçar o fio do lombo,
pra palitar os dentes do teu dono,
depois de ter limpado outros lugares,
de servir de ferramenta de trabalho
e completo talher - colher e garfo...

Eras como um cabide na cintura,
onde o farrapo pendurava o mango,
até as esporas e buçal com o cabresto,
como te fez de gaucho para a honra
em ti pendurou a vida muitas vezes...

Não eras provocante como a adaga!
Mais modesta afinal, trabalhadeira,
não pravas na lida o dia inteiro,
pra corear, pra carnear, pra fazer lonca,
tinha glória na mão de um bom guasqueiro...

Mesmo os guris não te deixavam nunca,
embora aí tu fosses apenas a xerenga....
Cortaste desde a alvorada até o sol pôr.
E em muito tronco de ombu e cinamomo
Misturaste marcas de gado e as de amor.