Poesia Bombacha Branca  

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gentileza de Ney Gastal

O processo de criação de um épico gauchesco

Ney Gastal

O ano é 1959, mas pode ter sido em 1960.
A cidade, Cachoeira do Sul.

Está em pleno andamento mais um Congresso Tradicionalista.
As sessões plenárias, chatas como em qualquer congresso, arrancam bocejos dos participantes.

Em uma delas um jovem, quase garoto, mata o tempo rabiscando versos em um papel. Seu apelido é Nico, e escreve:

"Deixei, faz tempo, a punheta,
que há muito não tinha trégua
e me amiguei com uma égua
bragada, lerda e maceta,
com um rasgão na bureta
que media mais de légua".

Nico sorri. Olha em volta, pelo auditório sonolento, e vê, quase a seu lado, o Magro. Passa-lhe o papel e sussurra: "Continua". Estava nascendo ali uma das mais conhecidas peças da poesia chula do Rio Grande do Sul, "Comendo égua e outros bichos" (ou "Bombacha branca").

Magro não se faz de rogado. Escreve ali mesmo outras duas estrofes, e passa o manuscrito ao Chimango, que também ali mesmo cria outras duas. A sessão termina, e o papel volta às mãos de Nico. Mas este já havia se desinteressado. Ia por a folha no lixo quando o Magro se adiantou:

"Que é isso, tchê, vamos guardar de lembrança!"

Guardaram.

Alguns até hoje se arrependem, e negam participação na gênese de "Comendo Égua".

Explica-se: apesar de ser um hábito muito difundido no interior, a zoorastia, ou hábito de manter relações sexuais com animais, é assunto de galpão, para ser discutido a portas fechadas entre homens amigos, longe dos ouvidos femininos e de curiosos em geral.

O sucesso do poema, e sua difusão pelo país inteiro, criou situações de constrangimento para seus autores, alguns intelectuais "sérios", outros autoridades constituídas, alguns apenas gaúchos bem humorados, que nunca esconderam sua participação na gestação do poema bastardo, filho de seis pais e nenhuma mãe.

O Congresso terminou, os amigos seguiram rumos diferentes. Nico, ou Antonio Augusto Fagundes, e Chimango, apelido de Jayme Caetano Braun, voltaram a Porto Alegre. Magro, moleque, voltou para São Borja levando na bagagem os primeiros versos do poema. E nem bem chegou em casa, Apparicio Silva Rillo, mostrou o poema ao amigo Cláudio Oraindi Rodrigues, que escreveu dois versos sob o pseudônimo de Manduca. Rillo tentou então organizar o material, ordenando os versos já escritos.

Estava neste trabalho quando chegou à cidade outro poeta. O próprio Rillo me contou:

- Foi então que apareceu-nos o Telmo de Lima Freitas, que na época nem sonhava com a Polícia Federal e vivia cruzando o Uruguai. Leu os versos e resolveu entrar na suruba eqüina. São dele os dois do Chibeiro. Tempos após, chegou-nos o Glaucus Saraiva em São Borja, que conheceu os versos e, a meu pedido, escreveu o final.

O próprio Glaucus, em depoimento obtido em 1976, comentava o fato de ter feito quase que uma ode. São dele as seis estrofes finais, as melhores de todo o poema. Rillo o apelidou de Moralista, ainda que este não seja exatamente um adjetivo apropriado. "Comendo Égua" estava completo, mas era conhecido apenas pelos autores e alguns poucos amigos.

Rillo e Cláudio, no entanto, não pretendiam deixar a situação assim.

Integrantes de uma comissão para a construção da capela de Nhú-Porã, descobriram uma forma prática de arrecadar recursos: imprimiram mil folhetos com o poema, vendendo-os em prol da "obra meritória". Lembrava Rillo: "Arrumamos alguns bons pilas com o material. A capela lá está de pé, e pelo menos alguns metros quadrados de suas paredes foram custeados com o dinheiro que arrecadamos com os folhetos".

O folclore do poema não termina aí: na manhã de um domingo, em plena praça central de São Borja, ao final da missa, o cego da praça anunciava em altos brados a venda de um folheto com versos de "grandes poetas da terra", ainda em benefício das obras da capela. Muita gente foi comprar. Alguns acharam graça.

Outros ficaram brabos. Pelo sim, pelo não, Cláudio, responsável pela brincadeira, recolheu o poema e mandou o cego para casa, antes que a polícia chegasse. Até hoje não se sabe se o cego alguma vez soube o que estava vendendo, perto das respeitáveis senhoras do local.

Foi a partir destes folhetos que "Comendo Égua" correu o Brasil e conquistou o mundo. Há quem jure que existe uma versão em inglês, popular dos Estados Unidos até a Austrália.

Pode ser. No Brasil, seus versos são conhecidos do Oiapoque ao Chuí.

Com o tempo foram adulterados, transformados, desfigurados. O texto que publico a seguir é a versão original, transcrição fiel do folheto que ajudou a construir a capela e fez o sucesso do cego.

Tomei conhecimento dele primeiro em uma gravação, que Glaucus Saraiva concedeu registrar em 1976. Depois, Rillo mandou-me cópia do folheto. Uma das mais populares e conhecidas peças da poesia gaúcha, que você finalmente vai poder aprender na íntegra.

COMENDO ÉGUA e outros bichos...

Peça dramática em 2 Atos.

Personagens: Os "tarados''. Um Moralista.

Cenário: Fundos de potreiros, costas de arroio, socavões de sanga
(conforme predileção do espectador).

1 ATO

Em Cena: "Os tarados" (opinando sobre assunto de alta transcendência crioula)

NICO:
Deixei, faz tempo, a punheta,
que há muito não tinha trégua
e me amiguei com uma égua
bragada, lerda e maceta
com um rasgão na buceta
que media mais de légua. . .

O MAGRO:
Tudo depende de gosto
neste mundão sem fronteira.
Quanta china tafuleira,
saiúda e de boa anca
- segredo que não se explica -
não tem o gosto da crica
de um recavém de potranca!

Quanta vez, quando piazote,
só pra vé o fundo da toca
socava meia mandioca
na racha desta bragada,
e ali no maís, sem delonga,
socava também a chonga
prá não perder a bolada.

CHIMANGO:
Lá no fundo do potreiro,
contra um angico caído,
é assim que tenho fodido
quase até que diariamente,
e às vezes fico temente
que dessa fodologia
me surja lá um belo dia
um potrilho meio gente. . .

O MAGRO:
Tem aìnda um outro jeito,
les digo sincero e franco
- procuro um meio barranco
e encosto a égua de ré.
E empurro a piça - segura! -
mais enristada e mais dura
do que a lança de Sepé!

CHIMANGO:
Até na beira da estrada
eu já fodi, me bombeando,
e quanta vez, acabando,
já sentindo a comichão
num último estremeção
qualquer fungo de cachorro
me viu com cara de sorro
saltar de chonga na mão!

MANDUCA:
Abandonei a bragada
pois todo o pago sabia,
do cambicho o povo ria
e a bragada se gabava. . .

Cola erguida, relinchando,
vinha ao trote, me chamando,
quando "lejos" me avistava. . .

Mas de todas essas éguas
que ergui na ponta da piça,
foi a tordilha petiça
que maior gozo me deu.
Pois a diaba se deitava
e relinchando acabava
no mesmo sonho que eu. . .

O MAGRO:
Faz bem pouco - e bem me lembro
quando tocava prá um chicho,
me veio o diário capricho
de barranquear a potranca.

Mas quando empurrei-lhe o cacho
me largou um churrio macho
na velha bombacha branca. . .

Mas eu não vi o desastre
e assim, no baile chegando,
só vi china se espiando
e um velho, meio arreliado,
que me atacava e dizia!
- Em baile onde tem "famia"
não se aceita homem cagado!

O CHIBEIRO:
(Paciente de um mesmo caso)

Eu fiquei desenxavido
quando me senti cagado.
Fiquei meio encabulado,
tive que me desculpar.

- O senhor não vá pensar
que vim assim prá deboche,
mas tava tão bom o "coche"
que não vi ela cagar...
- Senão eu nem tinha vindo
neste baile familiar.

Mas a égua vai pagar
o fiasco que cometi.
Lá no Passo do Butuhy,
no primeiro tacurú
vou foder ela no cu
prá nunca mais se exibi...

2 ATO

Em Cena: Os "tarados", a um canto, sestrosos com a chegada de um novo personagem: o "Moralista" :

O MORALISTA:
Oh, poetas que cantais
velhas cópulas eqüinas,
olvidando outras vaginas,
que numa escala ascendente,
vos deram gozos candentes
no lupanar das campinas!
Eu que venero o passado
não cometo esta injustiça.

Consulto, pois, minha piça
cuja cabeça se anima
e bem melhor que a de cima
inda canta e não enguiça.

Lembro as primeiras punhetas
que findavam em "cosquinha"
calientes cus de galinhas
que eu fodi a valer
e o inigualável prazer,
- pelando a piça travessa -
de destapar a cabeça
prá um guaipeca lamber.

E as cadelas que eu comia
no meu tempo de menino!
Verdadeiro harém canino
que eu mantinha no galpão.

Só uma cachorra bandida
certa vez de uma mordìda,
quase me deixa capão!
Depois passei para ovelha
a quem não dava quartel.

Mas a eterna lua de mel
que com uma porca mantive
é lembrança que ainda vive
do meu campeiro bordel...

(Nesta altura os "tarados" mudam o nome
do "Moralista". . . para "Especialista")

Por fim a revelação
do prazer de comer égua,
quando a orgânica régua
de cabeça colorada
se transfìgurava na espada
de arremetida mui macha
- piça criada em bombacha,
pau do tempo do barato!

(Se o teu passado retrato
minha lembrança se alonga,
pois por ti, velha pichonga,
passou uma fauna tão vasta
que a memória se desgasta
em mental masturbação...)

E para a ejaculação
desta foda no passado,
vos digo, oh poetas tarados,
para concluir a lista,
que já fodi angolista,
pato, marreco e peru,
e pra se sincero e cru
- verdade que não escondo
só não fodi marimbondo
porque tem ferrão no cu!

Cai o pano