Poesia Meu Galo  

Paulo Zenni Araujo
Deus no Pago - Ed. Sulina
gentileza de Marcel H. Figueiredo

Eu tive um galo de rinha
puro sangue, cor prateada,
com uma mancha rajada
cobrindo-lhe todo o espinhaço.
Bico mais forte que o aço,
galo do tiro certeiro,
que nunca deixou rinhedeiro
amargurando fracasso.

Me foi dado já maduro,
calejado de peleias
mas corria em suas veias,
sempre um sangue efervescente,
igual a do tipo valente
que despeito de arrogância,
sempre pronto em vigilância,
para um combate iminente.

Por não ter com quem pelear,
serviu na reprodução,
pra deixa uma geração
que seguisse a sua trilha
qual cerna de coronilha
que não se dobra por nada
e permanece encrustada
no topo de uma coxilha.
Da cruza com uma jacu
preta forte elegante,
nasceu uma pinto gigante,
cor da mãe, sangue do pai.
No lote se sobressai
aquele preto graúdo,
com um porte macanudo
de peledor que cai.

Tornau-se logo um franguito,
cantava batendo as asas,
e, em seguida ensaiava
um avançar impetuoso,
e no correr sinuoso,
via um galo corpulento,
arrojado, violento,
seria também, vitorioso.

Do pai, herdou valentia;
da mãe a serenidade.
Esbanjava agilidade
e altivez permanente.
E eu deduzi, claramente,
que todo o índio agressivo
tem um lado positivo:
é o reagir prontamente.

Bastava estalar os dedos,
pra merecer atenção.
E se lhe estendesse a mão,
ficava mui submisso;
parecia um compromisso
a sua total obediência.
Fazia até referência,
e eu me orgulhava disso.

Foi criado em liberdade
como dono do terreiro,
havia um branco, de raça,
que não queria trapaça
por pretensa hegemonia.
E pra demonstrar valentia,
fazia grande arruaça.

Por entre ripas da cerca,
os dois galos se toreavam.
E se nunca se puavam.
foi por não ter condição.
Mas numa desatenção,
o pacato galinheiro
transformou-se em rinhadeiro,
e resolveu-se a questão.

Meu galo agüentara muito
deboche, provocação.
Fiel a mim seu patrão,
mostrava nada entender.
Mas chega um dia que o ser
perde a calma, vira bicho,
esquece norma e capricho,
nem que tenha que morrer.

Foi tal a carnificina.
Meu frango com menos peso,
batoque, sem pua, mas teso,
largou o branco correndo.
E depois cantou dezendo:
- foi só pra te ensinar!
Eu sei, não devo matar
quem está quase morrendo.

Que te sirva de lição,
de um modo de ensinamento;
grave bem no pensamento
que minha raça tem brio,
tem fibra; jamais caiu.
Por isso de hoje em diante,
neste terreiro não cantes,
nem quero que dês mais um pio.

Meu pai me dera o direito,
mas me fora sentenciado.
Ele havia concordado
que o frango fino eu criasse.
Mas que também eu cuidasse,
pois mandaria matá-lo
se algum dia este meu galo
com o seu branco brigasse.

Cumpriu-se então a sentença,
o pacto foi encerrado.
Meu galo sacrificado
por ter vencido sua rinha.
A tradição se mantinha,
milenar, inflexível,
desta estirpe imbatível
que desde a origem vinha.

Foste a página virada
do livro da minha vida.
A sentença foi cumprida
em toda a sua versão.
Se manteve a tradição,
só um galo, companheiro!
cantou no nosso terreiro,
foi meu pai Velho João.