Poesia Gauderiando  

Paulo Sérgio Boita

E um carancho lá no mato
E pra iniciar o redato
Desta andança baguala
Não dispenso a velha fala
De um trabuco enferrujado
Que deixou ensangüentado
O chão batido da sala

Ouço lá dentro a chorona
No canto esquerdo da sala
É o gaiteiro, que embala
Os caprichos da cordeona
Judia nos dedos, a redomona
Entonando um vanerão
E eu, escutando a canção
Mesmo sem ser convidado
Fui chegando, aporreado
Neste baile, redomão

Cheguei faceiro na farra
Fui entrando sem cultura
Pedindo um liso de pura
E um dedilhar de guitarra
Uma milonga, na marra
Pra uma maula brasina
E entre poeira e brilhantina
E fumaça de candeeiro
Eu fui indo, altaneiro
Pacholear aquela china

Dei de mão, com alegria
Naquela prenda faceira
E chegou levantar poeira
Quando caí na folia
Ainda lembro desse dia
Desse entreveiro largado
Um bochincho, bem armado
Que me pegou, de relancina
Pois os amores da china
Já tinha, um índio, pealado

A sorte me abandonou
Foi o que eu pensei, no instante
E o perigo, sempre distante
De repente se aproximou
O índio me emparedou
Já de adaga na mão
E eu, mesmo sem munição
Convidei ele pra cancha
Pra disputar a pinguancha
Mais linda, deste rincão

Eu fui puxando dos "ferro"
Já ouvindo zunido de bala
E lá dentro daquela sala
Só se ouvia grito e berro
Não tinha mamãe não quero
Ali naquele espaço
E eu, na força do braço
Fui levando tudo no peito
Por causa do desrespeito
Já em meio ao fogonaço

Pinguanchas, chinocas, meninas
Gaudérios a la farta
Até índio que não descarta
De pelear por uma china
Tauras que em sua sina
Eram galos, no terreiro
Fazendo de poleiro
Qualquer rusga ou intriga
Se perderam, na corrida
Para fugir do entreveiro

Quando se deu o embate
Foi uma "briga de touro"
O que se ouviu foi um estouro
E um grito de não me mate
Não sou índio que desacate
A súplica dum alheio
Mas quando estou no meio
Duma peleia por china
Nem o diacho me domina
Em dias de tempo feio

Naquela peleia brasina
O combate foi desparelho
Dei-lhe uma tunda de relho
Na frente da correntina
Depois, dei um beijo na china
Linda flor de primavera
E minh'alma , que tapera
Andejava tão vazia
Corcoveou de alegria
Naquele ambiente de guerra

Depois de tudo acabado
Eu bradei à barra-do-dia
Vou levar esta guria
Para sestear do meu lado
Mas naquilo, no meu costado
Já se armava outro entreveiro
Era o pai dela, que matreiro
Vinha fervendo de fato
Por causa do desacato
Na frente dos seus parceiros

E vendo a situação brasina
Que armei ali no meio
Só taura me olhando feio
Eu saí sem o adeus da china
Boleei a perna por cima
Do zaino, andarengo parceiro
Da china ficou o tempero
E o gosto de temporona
E ao longe ficou a cordeona
Sorrindo do entreveiro

A galope, saí bem ligeiro
Sentindo saudades da prenda
Mas me lembrei da xerenga
Na cinta do bolicheiro
Rebenqueei sem dó, meu parceiro
Que se mandou a lo léo
O vento tapeou meu chapéu
E fui levando tudo por diante
Deixando pra trás, bem distante
Os rumos do beleléu