Poesia Porque os Padres Não Casam  

Padre Paulo Aripe ("Potrilho")
gentileza de F. R. Cezar

Muitas vezes na campanha,
Eu ouvi da gauchada
Esta pergunta curiosa,
Caborteira, enluarada:
Mas porque os padres não casam?
Não tem mulher? Filharada?

Esta pergunta merece
Uma resposta completa
Que enfrene a curiosidade
Num galope cancha reta.
Pois vou responder em versos,
Sem pretensão de ser poeta

Se o padre não se acolhera,
(é solterito no más)
Não é por ter aversão
Ao prazer que a vida trás,
Ou por pensar que as mulheres
São crias do satanás.

O sacerdote não sofre
Nenhuma anormalidade,
Não é por ser "inocente"
Que ele abraça a castidade;
O padre é um homem completo,
BEM HOMEM, barbaridade!...

Nem Cristo, eterno tropeiro.
Proibiu esposa aos padres:
São Pedro seu capataz,
Pois tinha sogra e comadres...
Até hoje, lá no Oriente,
Inda se casam os frades.

A lei do padre solteiro
Veio do Papa somente
Exigindo o celibato
Para o clero do Ocidente
E por razões bombachudas,
De fato é mais conveniente:

A família é uma paróquia
Que exige amor e atenções,
Exige o tempo do esposo
E o padre se vê aos tirões.
Pra ter família e paróquia
Só tendo dois corações.

Se o padre atende a família
Deixa a paróquia de lado.
Não pode estar sempre as ordens
Nem pronto a qualquer chamado:
Um dia a mulher faz anos...
No outro, é um filho pesteado...

E se a família do Padre
Rebenta o freio e bucal?
Um filho sai calaveira?
A mulher perde a moral?
Ou a filhinha do Padre
Foge com um lindo bagual?...

Admito que no futuro
Se ordene homens casados
Que dediquem certo tempo
Para o trabalho sagrado
Enquanto o padre solteiro
Dê o tempo integralizado

Se o povo truca e retruca
Sustentar padre solteiro,
Gritaria vale quatro
Contra as despezas, parceiro,
Dos filhos, mulher e netos
Escola, fogão, roupeiro...

Mais as receitas do médico,
Festança, jóias, retovo,
Casamentos, aniversários,
Viagens, brindes do ano novo...
Se a mulher do padre é fina,
Adeus guaiaca do povo...

O padre é um baú repleto
De problemas (coisa louca!...)
O povo, na confissão,
Despeja tudo em voz rouca,
Pois tem certeza que o padre
Bota cadeado na boca.

E o Padre "flocha" omatambre,
Mas não destampa um segredo,
Mas ele tendo mulher,
Já deixa o povo com medo.
Não foi assim que Dalila
Colocou Sansão no enredo?...

Um outro "baita" motivo
Do padre viver solito,
É que ele tem alma grande,
Suspira pelo infinito,
Não pode se contentar
Com a mulher e um ranchito

Coração sacerdotal
Não tem fronteira no amor,
Não tem cerca nem mangueira,
É campo sem corredor.
Ama a Deus e o mundo inteiro,
Ama o santo e o pecador.

Ama a criança, ama o velho,
O peão e seu senhor;
Ama o feio, ama o bonito,
Não despreza raça ou cor;
Ama os homens e as mulheres
Num único e santo amor.

Ama pois o mundo inteiro
Com ternura paternal.
Não tem exclusividade,
Não se amarra a um ser mortal,
Para se dar de corpo e alma
Neste amor universal.

Padre não é mais dono
De seu próprio coração
Renuncia ao matrimônio,
Mas por livre decisão,
Para se dar totalmente
A Deus, eterno patrão.

Se esta tropa de razões,
Parceiro, não lhe bastou,
Respondo mais um brazino
Que do lote se apartou:
é bom que o padre não case:

JESUS TAMBÉM NÃO CASOU.