Poesia
 

Extraído de Almanaque do Tchê
Tchê! Editora Jornalística Ltda
1984

autoria de Apparicio Silva Rillo


Milonga para puta Rosaura

Nana, Rosaura, nos teus braços fofos
condecorados por medalhas roxas,
o corpo sujo dos campeiros pobres
com mãos de calo a te arranhar as coxas.

Abre pra eles teu sexo insensível
- romã cortada em rubro desbotado -,
dá-lhes os seios flácidos e brancos
e a voz a lhes mentir: meu bem-amado...

Deixa que mordam com seus dentes podres
teus beiços carminados de batom.
Remexe as nádegas. Rosaura, tu que sabes
vender por pouco o que eles acham bom.

Suga-lhes, Rosaura, língua e lábios
com sarros de conhaque e Colomy.
Recebe a seiva que lhes desce dos escrotos
para o escuro dos esgotos que há em ti.

No faz-de-conta desse amor comprado
pelo preço de miséria de alguns cobres,
mente o que possas - que o mentir conforta
o sonho escasso dos campeiros pobres.

Os que te buscam nos quilombos tristes
te dão em troca o que sonhaste ser:
menina e noiva, esposa e companheira
- que assim te vêem os que não sabem ver.