Poesia Solo y Libre  

Mano Terra
gentileza de Rodrigo Canani Medeiros

Solo y libre, em campo aberto
e na amplidão sem limite;
nada devo, ando quite;
nunca estou longe, nem perto;
não tenho endereço certo,
a Pampa é minha morada;
nunca trilho a mesma estrada
e miro até onde a vista alcança;
ando só por segurança
e sempre garanto a parada!

Nasci da barriga "bugra"
de semente afro-ibérica.
Sou um pouco Europa e América,
bastardo da raça rubra
e renegado da turba
dentre os próprios da mi'a raça.
Não é diferente a desgraça
quando o branco discrimina.
Sou mestiço filho de "china"
com o desprezo por mordaça.

Me voy na planície infinita
a procura, quiçá, de mim mesmo.
Se pensam que ando a esmo
resignado em desdita,
respondo no tom de quem grita:
sou gaudério changador
na Pampa sem dono e senhor.
Faço parte da memória
daquele que fez a história
do gaúcho precursor.

Não tenho o luxo da corte
e nem mesmo o calor do fogão.
Sou meio bicho, meio não
e nunca confio na sorte.
Caminho entre a vida e a morte,
em tudo aprendendo de tudo.
Falo pouco e não sou mudo,
ouço mais porque é prudente;
entendo a língua da gente
escutando os bichos miúdos.

Fazendo aquilo que faço,
soy libre y dono de mim.
Ninguém me apresilha ao clarim
e nem me manda ao sofrenaço.
Tenho por diante o espaço
da Pampa e do gado orellano.
Nunca sei dia, mês, ano.
Prá mim todo dia é Domingo
e todo o invasor é um gringo,
seja luso ou castelhano.

Solo, libre y suelto de pata,
me voy e às vezes me paro.
Uma tropa pressinto no faro!
E quando preciso de plata
coureio de pronto a la farta
e levo a vida que quero.
Sou sócio do quero-quero
e primo-irmão da coruja.
Tenho o mundo por lambuja
e da riqueza conto os zeros.

Sou o ancestral do gaudério
e do guasca, o tio-avô.
Por supuesto, o "tataravô"
dos gaúchos do hemisfério
e semente de um novo império
de raças, idéias, culturas
de urna das cepas mais duras
que o mundo irá conhecer.
Se tu "sabe" o que eu quero dizer,
beba comigo um "gol" de pura!
Engula com gosto esta pinga,
erguendo os olhos pro céu.
De pronto, tire o chapéu
e, ao canto da jacutinga
- e do tajã - desde a restinga,
saudemos os taitas da raça.
Num brinde ao sabor da cachaça
e, na versão campeira da farra,
passe a mão nesta guitarra
e cante urna milonga machaza!

Neste cantar galponeiro
que nasceu ao descampado,
ouvindo um eco tisnado
pelo vento vanguardeiro,
o gaúcho se planta inteiro
na história deste planeta.
E manda quebrar a proveta
quando o assunto é cultura.
Seu xucro desenho e moldura
não carecem de muleta.

A sua história verdadeira,
bem como ele soube ser,
jamais poderá pertencer
a um só lado da fronteira.
Hoje, com tantas porteiras
e a ânsia de propriedade,
nos obriga a realidade
voltar a um tema surrado:
o gaúcho aqui retratado
tem distinta identidade.

Mistura de ibérico e índio
com cruza de negro africano,
ele nasceu campechano
e foi, pela lei, reprimido.
Para não ser submetido
como soldado ou peão,
esse gaudério varão
"se mandou-se" campo a fora.
E assim foi repontar a aurora
de nossa cultura em ação.

Era o dono da pradera
metido no lombo do pingo.
Entendia ser um gringo
aquele que viesse de a fuera.
Não pode ser só brasileira,
tão pouco só castelhana
a identidade mundana
desse taita cultural.
Então, por questões de moral,
a verdade se faz soberana.

Cidadão do Novo Mundo
e o primeiro emancipado.
Brigou para ser respeitado
no seu pedaço de mundo.
Primeiro ser oriundo
da cruza de raças várias,
cidadania primária
do homem conessulista.
E maior expressão nativista
da América Legendária.

Frente aos quadros de Berega
e dos escritos de Hernandez,
vejo o quanto é muito grande
dizer: "eu sou gaúcho e me chega!"
Sei que quem é não renega
e jamais cantará outro verso.
Que fique, afinal, expresso
sobre esse taita pampeano:
enquanto existir minuano,
haverá gauchos no Universo!