Poesia Pequeno Engraxate  

Moacir D'Avila Severo
gentileza de Jorge Mondin

A praça é pomposa, tem caros adornos.
Uma estátua de bronze enaltece um herói.
Contrastando, um menino de pele judiada
Com a caixa no ombro seu mundo constrói.

Um pequeno engraxate a vagar inocente
Com roupas farrapas que alguém lhe deu
Em calçados alheios capricha num brilho
Que a ele a vida tão cedo tolheu.

Em batuque de samba o vai-e-vem do pano
Retrata a gangorra que sua vida é.
Balanço que embala a triste incerteza
Se um dia, o que lustra, terá em seu pé.

O quiosque exala um cheiro de lanche
Que vem, impiedoso, com a fome mexer.
Prá que poupe os pilas, cochicha a consciência:
- Lá em casa não tem prá comer.

Uma senhora exibe seu cão bem cuidado
Que escava na grama sem que alguém reclame.
E o pobre menino, coparando a sorte,
Até sente inveja do cão da madame.

A praça é pomposa, tem caros adornos,
Uma estátua de bronze enaltece um herói.
De tantos não-feitos restaram os efeitos
Mas dor de consciência no bronze não dói.