Poesia Cavalo Picaço  

Lauro Rodrigues

Foi bem ali, nas Figueiras
que sombranceiam as coxilhas,
sentindo das mancenilhas
o cheiro bom do rincão,
que um grupo de carreteiros
desabotoando os tamoeiros,
charlando cousas ligeiras,
chegaram lenha ao fogão...
Vinha tarde descambando
e a bugiama gritando
nos brejos do pinheiral
punha queixumes de dor
na tarde cheirando a flor
de juncos e lamaçal...

O velho Deco Madona,
picando charque à carona
falava como ninguém;
contando, sem embaraços,
a história de um tal "Picaço",
crioulo de Xenxerém.

Dizia o velho andarengo,
num tom de voz tão molengo
de quem ao falar pensava:
- O "Picaço" inda era potro
fogoso que qualquer outro
diante de si matungueava
por esses campos de além...
Era crioulo da estância
da velha Chica Venância,
do sítio da "Mamangava",
dos campos de Xenxerém!

Crescera sobre a querência
guapo e sadio como quê!
Quando rompia a alvorada,
o Picaço em disparada,
corcoveava, cabriolava,
coiceando na maçaroca
e relinchando à tropilha
que, ao fundo, lá da coxilha
pastava pelo rincão,
sobre a terra umedecida
por esse orvalho que é vida
às gramas frescas do chão...

Sem nunca ter tido o laço,
pelo pescoço, o Picaço
gozava de liberdade.
Era o senhor da coxilha!
Tinha por cama a flexilha e
por carona o infinito...
Dormia sob as estrelas,
sonhando, talvez, por vê-las
no espaço azul tão bonito,
esparramadas ao léu,
que a lua fosse a madrinha
da tropa que à noite vinha
pras invernadas do céu ...

E assim viveu muitos anos!
Mas um dia os desenganos
chegaram tão sorrateiros
que o velho bagual Picaço
caiu na armada de um laço
que lhe fizeram os tropeiros!

Quando sentiu-se golpeado,
pela ilhapa dominado
à cincha vil de um matungo,
corcoveou, deu manotaços...
Vieram, depois, mais laços
cinchados por mais pilungos
que soltos não lhe alcançavam
Enfim: bufando de xucro,
pensando, talvez, no lucro
de se deixar dominar,
foi se chegando à mangueira
d'onde a peonada faceira
mateava a lhe contemplar...
Pois quando viram quebrado
o seu corincho afamado
de puava já madurão,
discutiram às gargalhadas,
em frases e patacoadas,
as lides da domação!

Foi, então, que começaram
ao velho pingo altaneiro
as dores da nova vida!
Numa manhã de janeiro,
toda coberta de luz,
um tal de Quininho Cruz,
quebrando o chapéu à testa,
num alvoroço de festa,
foi se chegando pra encilha
enquanto o velho Picaço
olhava longe a coxilha,
onde tremia o mormaço,
pensando, talvez, consigo
n'algum corcovo cabreiro,
quando chegou-se um campeiro
que lhe passou o pé-de-amigo
enquanto as loncas caíam
de uma a uma no lombo
arcado que nem porongo
que dá em cerca de arame!

"Como o gaúcho é infame!"
- Pensava, talvez, o potro!
E nisso chegou mais outro
indiote mal apessoado
com queixo de china velha
embora a cara barbada
dissesse que ele era homem!

"A mágoa que me consome,
- dizia ele altaneiro!
é como velho campeiro
fazer somente a orelha
desse Picaço atrevido!
Quem dera pudesse eu,
erguendo o mango comprido,
correr-lhe as minhas rosetas
desde a virilha à paleta,
desde a paleta ao focinho..."

E nisso veio um padrinho
e sem demora, no mais,
o tal de Quininho Cruz,
aos gritos do capataz,
alçou a perna, seguro
no Santo Antônio de pratas.
E já o potro bufando,
relinchando, corcoveando,
tentou esconder o quengo
no meio das duas patas...
Mas qual o quê! O Quininho
deu-lhe um laçaço ao focinho
e lá se foram peleando
num entrevero de cascos,
de gritos e de dichotes!

E sempre, sempre aos pinotes
se esconderam na coxilha
aonde a vista não alcança
e o céu se junta com a serra...
Depois... A velha esperança
do potro caiu por terra!
O Quininho era que nem grampo
de campo bem alambrado!
Depois que estava esganchado
nem rodada lhe tirava
se não quisesse sair...

Era um gaúcho tão forte
que nunca domou a Morte
porque a Morte não se encilha...
Mesmo assim ainda acredito
que se a engrenasse um pouquito
a Morte deixava a Vida
vadeando pelas coxilhas
pra se abrigar na resteva
de um caponete qualquer ...

A Morte é guexa! É mulher
que tem respeito da gente
quando se topa de frente
com um índio de garrão duro ...

A Morte é coisa simplória!
Pra mim é o fim de uma história!
É sesteada no futuro!...
Mas, isso não vai ao causo!

Vamos voltar ao Picaço que,
no primeiro laçaço,
já se aplastou pra o Quininho!
Voltou de queixo quebrado,
sovaco todo cortado
mostrando a carne e o toucinho...

Ficou manso para a encilha!
Bom de boca e de virilha,
ligeiro que nem preá...
Atendia a qualquer upa!
Dava lugar na garupa...
Sabia até cabrestear!...
E um dia, numas carreiras
lá na cancha das Figueiras,
fez reboliço outra vez,
quando correu, por chalaça,
com um puro-sangue de raça
da fina cria de inglês!

No partidor já se viu
que era carreira ganhada!

Olhando a cancha pelada,
mascando o freio, escarceando,
nervosamente, aguardava
pelo sinal da largada!

Um tiro estourou na tarde!
E sob os gritos de alarde
da gauchada a jogar,
já se vieram na cancha,
num rufo forte de patas,
se entreverando parelhos,
numa toada de relhos,
linda de ver como quê!

No cruzar a quadra-e-meia
já era a brecha tão grande
que um laço não lhe alcançava,
e o velho Quininho Cruz
de satisfeito gritava
dobrando o jogo na luz...

Foi carreira de petiço
com cavalo parelheiro...

No fim do tiro o Picaço
crioulo aqui da querência,
matungo de pêlo duro,
tinha dobrado o estrangeiro,
cavalo só de aparência
famoso porque era puro ...

Mudou-lhe a vida, esse dia!
Teve trato, estrebaria,
compositor cuidadoso,
ficou de pêlo lustroso,
adelgaçado e leviano
como pandorga de pano
ao sopro da ventania ...

Ganhou carreira a la farta!

Das duas quadras à quarta
topava qualquer parada!
Dava luz! Dobrava peso!
Ganhava no partidor!
Não respeitava largada...

Mas veio um dia o destino,
tropeiro mui teatino,
modificar-lhe a vivência:
foi quando ecoou na serra
um grito forte de guerra
que reboou na querência...

De cada canto dos pampas,
como um rodeio de guampas,
se ergueram pontas de lanças
festivas como esperanças
e agudas como a consciência...

Tropel de cascos no chão!
Toques de alarme no ar!
Mil palas soltos ao vento...
Chapéus quebrados à testa,
num reboliço de festa,
tornavam os veteranos
das epopéias passadas
a reviver arrancadas
que nos cobriam de glórias...
Lá estavam Curuzú,
Curupaití, Humaitá,
pedindo entradas na História!

Veio Osório; Porto Alegre,
a recrutar a indiada
por toda e extensão do pago...

Houve um silêncio no campo!

E os noivos deixando as noivas
acenavam nas coxilhas...
Os velhos rasgavam pranto
no coração de suas filhas,
e as mães trancavam soluços,
como a brisa nas flexilhas
à hora em que o sol descai...
Mas, todos, sem um receio
mostravam, cheios de anseio,
os campos do Paraguai!...

Quem soubesse tirar couro,
manejar a boleadeira,
tivesse pulso de homem
e alma bem brasileira,
que não levasse lembranças,
deixasse aqui seus amores!...

Quem quer brigar que se esqueça
das próprias mágoas que tem!...

E o velho Quininho Cruz,
valente como ninguém,
vendo que os outros partiam
tratou de partir, também!
Tocou as garras ao lombo
do seu garboso Picaço,
e, sem um beijo, um abraço,
um adeus, uma saudade,
largou-se, cheio de fé,
direito a Tujucuté,
peleando por liberdade...

Brigamos juntos - me lembro!
no dia três de novembro
do ano sessenta e sete...
Eu era ainda um guri,
mas, juntos, em Tuiuti,
cruzamos ferro e fiorete ...

Também, lhes digo: - caramba! -
se brasileiro eu nasci
mais brasileiro voltei,
porque, quem viu Tuiuti,
Itororó, Curupaiti,
Serro Corá, Monte Caseros,
voltou da guerra mais homem,
voltou bem mais brasileiro!

Foi ali! Foi nesse dia
em meio da gritaria dos homens
trançando espadas
que eu vi e guardo na memória
a melhor história da História
de todas as arrancadas...

Havia cinzas no ar
e corpos soltos ao chão;
clarins tocando avançar
num estranho turbilhão
de mãos crispadas de dor
em entrechoques fatais,
quando uma bala, certeira,
ferindo a nossa Bandeira,
matou o baio encerado
que Porto Alegre montava
nessas plagas infernais...

O Conde era guapo e rijo
que nem golpe de cutijo
em cerne de grapiapunha!
Mas de a pé, não tinha jeito
de comandar peito a peito
aquele lote de bravos
enfurecidos na luta...
Mesmo assim, já se dispunha,
numa coragem impoluta,
a morrer livre e senhor
do que viver sendo escravo...

Foi quando o Quininho Cruz,
mais ágil que a luz da luz,
mais destorcido que um laço,
boleou a perna, altaneiro,
e ao Conde entregou ligeiro
o velho pingo Picaço!

A peleia cresceu de ardor!

Brigava o Conde montado!...
Mas o Quininho a seu lado
lhe acompanhava na glória ...
Parece que o seu cavalo
sentia em tudo o regalo
de quem escreve uma história...

Naquele rodeio rubro
que se parava com a morte;
naquela estranha epopéia
do forte enfrentando o forte
só se salvou para a vida
quem na vida teve sorte ...

Ficou o campo coalhado
de corpos amortalhados
pela tristeza dos vivos...
E em meio daquela glória,
ferido por um lançaço
dormia o velho Picaço
como um herói sem história...

Ao lado, rubro de sangue,
desfalecido e exangue,
jazia o Quininho Cruz,
de adaga desembainhada
com a lâmina bem colorada,
reverberando na luz...
Mais adiante, a poucos passos,
da carniça do Picaço
e do corpo do gaúcho,
um paraguaio dormia,
mostrando ao sol esse dia
todas as dobras do bucho...

Fora ele quem lanceara
o sangrador do Picaço
quando o Conde comandara
a luta de braço a braço!

Fora infeliz, todavia,
na sua selvageria,
na sua sede de vingança!
Nem bem lanceara o Picaço,
o Quininho num trompaço
quebrou-lhe a haste da lança.

Um grito horrendo de dor,
de desespero, de amor,
nasceu da boca dos qüeras
que se golpeavam incessantes...
E com os sóis rutilantes
as adagas - duas feras!
duas terríveis panteras! -
se cruzavam retinindo
num ronco surdo de golpes...

Mas, pra vencer o Quininho,
precisava ser bem homem,
não era um guacho de fome
que lhe ia abarbarar!

De repente! - companheiros! -
Três talhos fundos, ligeiros,
racharam com o Paraguai
que, sem um grito, um suspiro,
morreu sem queimar um tiro,
morreu sem soltar um ai!

Tombaram juntos no campo!

(Dois patriotas caídos
cumprindo o mesmo destino,
sonhando com a mesma causa...)

Tiveram todos sua história!

E a nossa Pátria, em memória,
fez estátuas que são glórias,
para aqueles que morreram;
eternizou para sempre,
em bronze, o civismo ardente
dos que lutaram e venceram!

Mas esqueceu - que desgraça!
de levantar numa praça
um monumento de ouro,
por onde a alma da raça
prestasse um culto de graça
para o cavalo crioulo!
Porque, quem viu Tuiuti,
Itororó, Curupaiti,
Serro Corá, Monte Caseros,
merece um lugar na História!
Merece um bronze em memória
na alma dos brasileiros...