Galpão

Autoria: José Hilário Retamozo

Emponchados acorrem aos galpões
e o calor que se transmitem
explode em lavaredas no fogão.

Há timidez de gestos escondidos
no amargo chimarrão que vai e vem
e abraços nunca dados, recolhidos,
no medo sem razão de querer bem...
Corre o mate — verde amargo,
essência da solidão
e o verde do campo fora
funde aos campos do interior.

A távola redonda que conhecem
é o raso dos fins de tarde
ao redor das chamas claras
do fogo a brotar do chão.

As palavras — poucas e contidas,
chamas acrescidas ao fogo a crepitar,
engarupam-se nos gestos quentes
da expressão rudimentar.

Vale mais a confiança adquirida
no diário labutar contra os
perigos do que palavras, para se entenderem.

Arquipélagos de humanas solidões!

A bomba, agulha de prata, costura
seus destinos invisíveis
com o fio invisível
do amargo e mesmo fim.

Origem: Livro "Tentos e loncas", coletânea organizada por Rui Cardoso Nunes, Zeno Cardoso Nunes e José Hilário Retamozo. AGE Editora. 1993.

Publicado por Roberto Cohen em 15/01/2006.