Poesia O Meu Cavalo Crioulo  

Dirceu Pires Terres
Pseud.: Guasca Velho

Gaúcho velho largado
pede aqui um intervalo
para decantar seu cavalo,
seu pingaço de renome,
que não teme lobisome,
nem de cucharra pealo.

Agora vou decantá-lo:
passo a faca no rebolo,
manuseio o fumo em rolo,
vou soltando a versalhada
inda que meio estropiada
pra elogiar o Crioulo.

É cavalo pra peão,
de resistência e alento,
mui barato o seu sustento,
servindo para soldado,
sabe dormir no molhado,
agüenta firme o relento.

É de pêlo bem variado:
gateado, baio, lobuno,
zaino, rosilho, cebruno,
mouro, chita, também é,
e às vezes sai pangaré,
buenaço mesmo reiúno.

Tordilho salino é Crioulo
de muita lei pra nadar,
bicho bueno pra apartar...
não quero pêlo tostado
nem tordilho apatacado...
Tobiano só pra olhar...

Um e quarenta de alçada
é o tamanho especial,
com mais de cinco é o ideal.
Um e cincoenta é grandão,
dando um tipo almanjarrão
só pra cruzar banhadal.

Gosto de "Peito de pomba"
com costela bem arqueada:
agüenta bem na tropeada,
porque tem pulmão de ferro.
Se o guasca le dá o "berro",
tem o "folgo" pra arrancada.

Cavalo de muita "massa"
com muito pêlo na pata,
pisando em cima ns mata:
não agüenta o dia inteiro
só serve para pipeiro
e ao guasca sempre maltrata.

Esse nunca foi Crioulo...
Na certa que é de tração,
não vale mais que um tostão:
é matungo bem sotreta,
não se mete de paleta,
chora pra ser dormilão.

Crioulo com muito "osso"
não pode pular em valo
precisa muito esporeá-lo
para isso poder fazer
e o mango firme meter,
para conseguir passá-lo.

Para que serve o güesudo?
Mesmo assim ao batizá-lo,
cabe sempre rechaçá-lo,
padrillo não deve ser -
e ninguém irá comer
um caracu de cavalo!

Para escolher o bom pingo
aqui les dou instrução:
olhe bem o seu garrão,
busque a corda destacada,
que a pata seja aprumada,
e bem à mostra o tendão.

"Cáalo" de bom movimento
olho vivo se requer,
boa anca se faz mister.
O gaúcho e tarimbeiro,
que se sai sempre folheiro
pra escolher pingo e mulher!

Não serve a canela fina,
com muito pouco tendão:
falta força no garrão,
quase sempre anda caindo,
pior que vaca parindo
por cima de qualquer chão.

Prefere o "casco de copo",
nunca o casco de panela:
falta força na canela,
é um chaira pra tropeçar,
se não sabe sair dela.

A cabeça do Crioulo
deve ser piramidal,
se ajusta bem ao boçal,
é mui linda de se ver
e sempre de requerer
num cavalo especial.

Orelha de burro - não!
"Cabano" de desprezar:
abana, mesmo ao trotear...
Prefiro orelha em tesoura
cavalo que não desdoura
e sabe se destacar.

A crina deve ser larga...
Cola fina: suspeitar!
Somente buena pra atar,
para "iludir o freguês",
que é do Árabe ou Inglês
que pode se originar.

Foi esse cavalo bueno,
trazido por espanhóis
e, depois de muitos sóis,
por aqui se reproduziu
e o continente invadiu
qual praga de caracóis.

E a pastar sempre ao léu,
caçado pela indiada,
para servir de montada,
por vezes carne les deu,
pois o índio é mui "judeu"
e aos outros nem deixa nada!

Tendo o número aumentado,
foi virando chimarrão...
Cola arrastando no chão,
procriou ao "Deus dará",
junto à onça e ao guará,
a correr pelo rincão...

Agüentando as intempéries,
muita chuva, muito frio,
minuano, sede no estio,
foi formando o seu valor:
pra domar "dava calor"
e afrouxar nunca se viu!

Foi assim que ele venceu
as forças da Natureza,
pela sua fortaleza
pra dar vida ao Continente,
que tudo deve ao valente,
que é ardor, força e beleza!

A liberdade que tenho
- eu e todo o bom gaúcho -
despidos de qualquer luxo,
devemos toda ao Crioulo,
que foi o nosso consolo,
para "ag%uentá o repuxo"!

Nas cruas guerras passadas,
tão bela parte tomou
que o guasca as glórias ligou
ao valor dessa montada,
pois até de madrugada
o pingo, firme, agüentou.

Foi assim em "Trinta e Cinco",
na campanha Farroupilha:
o Crioulo na coxilha,
só tendo capim no bucho.
Foi comparsa do gaúcho
da argola até a presilha.

O mesmo em "Noventa e Três"
ou em "Trinta" ou noutra data.
O gaúcho não maltrata
mas, se querem maltratá-lo,
se tentarem "esporeá-lo",
ele logo se "desata"!

Em "Vinte e Três" também foi
um companheiro ideal.
Na serra, no pajonal,
ele só se agüentou:
muito mestiço afrouxou,
por não ter valor igual!

Poderia ir muito longe,
descrevendo o meu cavalo...
Mas deixo aqui de exaltá-lo,
como pingo do gaúcho,
que sabe "aguëntá repuxo",
de coração adorá-lo.

Por isso remato a "trança",
antes que saia algum "bolo",
embora fique o consolo
de tê-lo cantado assim:
um pingo que não tem fim
- O meu cavalo Crioulo!