Lagoa

Autoria: Apparicio Silva Rillo

As estrelas pediram,
pediram um espelho
pra Nosso Senhor.

O Senhor, surpreendido,
estranhando o pedido
chamou por Maria.

As estrelas pediram
pediram um espelho
pra Virgem Maria.

Maria, tão boa!
cortou do infinito um pedaço de céu,
de um pedaço de céu
Ela fez a lagoa.

Ficou um buraco no forro do céu.
Chamando Maria, lhe disse o Senhor:
Remenda o meu céu, que a idéia foi tua.
Maria, sorrindo, rasgou o seu manto
e pregou no infinito o remendo da lua.

Lagoa!
Sesmaria de águas claras
deitada nos pedregulhos.
Espelho grande onde as estrelas tolas
vêm ajeitar o véu de lantejoulas.
durante a longa procissão noturna.

Quando ao sol da manhã tu te incendeias,
uma orgia de penas te enfeita as areias
e o silêncio se quebra a um concerto de pios.

A quietude das águas
nas praias mais rasas,
se encrespa de gozo ao bulício das asas
fazendo tremer os teus juncos esguios.
Gamela onde bebem os bichos do campo
nas praias sombreadas por salsos-chorões.

Gamela de barro,
de pedra e areia,
tão cheia de água,
tão cheia de juncos,
tão cheia de flores
azuis de aguapés...

Lagoa noturna, salão das estrelas,
Lagoa de luz, várzea grande de sol.
Lagoa dos salsos e das corticeiras,
lagoa onde mora
o martim-pescador.

Lagoa das lontras e das ariranhas,
lagoa dos peixes e dos jacarés
que brutos e rudes armando as carrancas,
espreitam as garças tão tristes, tão brancas!
que cismam em silêncio sobre os aguapés.
Lagoa do campo, pedaço de céu!

Origem: Livro "Tentos e loncas", coletânea organizada por Rui Cardoso Nunes, Zeno Cardoso Nunes e José Hilário Retamozo. AGE Editora. 1993.

Publicado por Roberto Cohen em 15/01/2006.