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Chimarrão da Madrugada

Texto de Aureliano de Figueiredo

Não sei porque nesta noite
o sono velho cebruno
ergueu a clina e se foi!
E eu que arrelie ou me zangue

Tenho olhos de ave da noite,
ouvidos de quero-quero,
cordas de viola nos nervos
e uma secura no sangue.

(...)

A estrela d'alva trabalha
na imensidão da hora morta:
- ou num perfil de medalha
ou a maiúscula inicial
sobre a prata de um punhal
que ainda há de sangrar o dia.

E a "Nova" ao largo se corta,
magra, esquilada, arredia,
empurrando a guampa torta
contra o ventito do Sul,
como num campo de azul
a ovelha chamando a cria.

Sólito, perto do fogo,
como um bugre imaginando,
escuto o Tempo rondando
sem descobrir o seu jogo.

O perro Baio-coleira
faz que cochila... E abre os olhos,
a espaços, regularmente.
E me fixa os olhos claros
como um amigo, dos raros,
cuidando do amigo doente.

É um gosto olhar os brasinos
e os luxos das lavaredas
dançando rendas e sedas
para a ilusão dos sentidos.
E entre o amargo e a tragada
tranqueiam na madrugada
tantos recuerdos perdidos.

E o chimarrão macanudo
vai entrando pelo sangue!
Vai melhorando as macetas,
curando as juntas doloridas
como água arisca de sanga
sobre loncas ressequidas.

O peito avoluma e arqueia
como cogote de potro.
E as ventas se abrem gulosas
por cheiro de madrugada.
- Potrilhos em disparada
num setembro de alvoroto.

Ah! sangue velho... Descubro
porque estás hoje de vigília:
- Dois séculos de Fronteiras,
de madrugadas campeiras,
de velhas guargas guerreiras
bombeando pampa e coxilha!

Por isso é que hoje não dormes!
Ouviste a voz de ancestrais:
- "O chimarrão principia!
Alerta! O campo vigia!
Da meia-noite para o dia
um taura não dorme mais..."

(Romances de Estância e Querência, 1959)

Aureliano de Figueiredo Pinto

Aureliano de Figueiredo Pinto escreveu no isolamento das pequenas cidades do interior, afastado dos grupos literários, e permaneceu desconhecido em sua época. Foi lido só no círculo restrito de amigos entre os quais os escritos passavam de mão em mão. Apenas em 1959, ano de sua morte, a poesia surgiu impressa num livro - Romances de Estância e Querência. Verificou-se depois a importância para o regionalismo gaúcho, pois é um dos seus representantes mais autênticos.

Num certo sentido, os poemas gauchescos de Aureliano podem ser aparentados aos de Vargas Neto: o mundo que aí transparece está solidamente ancorado na realidade campeira, nasceu da observação imediata. Em geral se relaciona à experiência biográfica do próprio autor, referindo episódios e impressões de que ele pode dar testemunho pessoal e nisto reside precisamente a força de convicção.

Noutras passagens ele também elabora literariamente os casos recolhidos na tradição anônima dos tropeiros, assumindo então uma tonalidade fortemente coloquial.

Tudo concorre par a naturalidade da expressão, livre de qualquer beletrismo, mais próxima à oralidade do cancioneiro popular.

Só em 1973 publicaram-se os originais do romance que escrevera ainda nos anos "30" - Memórias do Coronel Falcão. Também aí sua contribuição é significativa. Trata-se duma crítica corrosiva aos hábitos políticos da Primeira República, desmaascarando a corrupção da máquina partidária. Esta narrativa completa, assim, a perspectiva inaugurada por Amaro Juvenal no Antonio Chimango.

Se publicado na sua época, a obra de Aureliano de Figueiredo Pinto certamente teria execido uma benéfica influência nos rumos do regionalismo.