|
'Stá vendo aquele lugar, (Tropilha Ciroula, 1925) |
|
Na concepção literária de Vargas Neto o rodeio se dá na "fazenda da vida". Esta imagem serve como exemplo paradigmático dos poemas publicados em Tropilha Gaúcha (1925) e Gado Xucro (1928); serve, ainda mais, para ilustrar sua aguda intuição. Há uma base sólida que parece residir no próprio chão da campanha onde nada escapa à observação e ao registro objetivo. O leitor interessado na arqueologia da sociedade rural encontrará farto material de investigação e um dos painéis mais exatos já produzidos pela literatura gaúcha. E, apesar disto, o ponto de chegada está bem distante daí: é a sequência verdadeiramente prodigiosa de referências simbólicas que Vargas Neto logra instaurar no desenvolvimento da sua expressão telúrica. Assim, ele anuncia uma vertente moderna do regionalismo que, depois de 1920, passou por extensas modificações, uma vez esgotados os modelos tradicionais. Embora ainda seja possível reconhecer, no texto, a intensa preocupação descritiva, seus recursos poéticos buscam ampliar psicologicamente o cenário dos pagos. Os traços característicos da paisagem são evidenciados porque valem como um "sinal" da universalidade. Tal é, invariavelmente, o sentido do processo metafórico empregado por Vargas Neto - pandilha de saudades, égua madrinha da tristeza, o rasto do sol que se sangrou... A transposição dos significados nos sugere o ingresso num território metafísico, abrindo horizontes mais largos do que faria supor inicialmente a atitude descritiva. Eis a qualidade surpreendente da sua poesia regionalista: foi urdida na matéria bruta da vida campeira; talvez por isso tão autêntica, extraindo daí a força de comunicação.
|