Página do Gaúcho
Pintura - Jungbluth: O Vaqueano


O Vaqueano

José de Avençal!

Quem então não o conheceu, não por semelhante nome, mas pelo de Vaqueano, que vinha de profissão?

Era uma natureza admirável, não tanto pelas amplas manifestações dos músculos de ferro, como pela perícia e inteligência com que guiava os exércitos da república farroupilha e a lhaneza e bondade de caráter.

Também jamais houvera riograndense que, como ele, conhecesse a província. Não lhe escapava uma geira de terra, ainda mesmo perdida nos ínvios sertões ou banhados de largo perímetro.

Tinha a memória fiel até para as nugas locais. Era uma verdadeira vocação. Seu calendário de nomes abraçava do capão sumido na campina à restinga do mato ou arroio de exíguos cabedais.

Constituía de per si o mais exato arquivo topográfico, um mapa vivo e pitoresco.

Sempre sorria quando os companheiros, antes a floresta que o taquaruçu crescia unido, atado às árvores gigantes por fortes cipós e entretecido de finas e mimosas enrediças, exclamavam:

- É impossível!

Quando paravam desanimados na presença dos alcantis da cordilheira ou das barrancas de caudaloso ribeirão, e ainda repetiam a frase de desalento.

Sorria. E o sorriso lhe rugava o lábio, era a craveira de sua grandeza e superioridade.

Nos mistérios campeiros ninguém o excedia. Iguais os encontrava, melhores nunca. O homem que nas brenhas brincava com o guará, o tigre e o tapir e os subjugava ao braço com tenra creciuma sob a pressão do vento, que receio teria do potro indômito e bravio e do boi chucro e de pontas aguçadas?

Nos manejos da guerra não fincava somenos. A lança de duas braças de longura vibrava o bote tremendo, o pistolão atravessado na guaiaca poucas vezes errava o tiro na andorinha que cruzava os ares. Mas, quando expandia o rosto, era ao ver a rodilha do laço revoluteiar no espaço e logo como uma jibóia se distender, se enristar, cingir o corpo da vítima, retê-la no ímpeto da carreira, sofreá-la nas contorsões da sanha, envencilhá-la em estreito amplexo e estrangulá-la quase, abatendo-a, vendo-a humilde render-lhe homenagem. (...)

Corria do Prata até a feira de Sorocaba, das courelas do litoral até às faldas dos Andes. Não havia trilha em tão larga área que ele não tivesse pisado, torrão de que na sua memória não guardasse os delineamentos do perfil.

Não tinha pouso certo e nunca acontecera ficar duas noites a eito no mesmo sítio, sendo raramente nos povoados, cujo reboliço a inquietava. A campanha imensa, andeando em coxilhas, sapicada de capões, como oásis do deserto, o cerroenpinado entestando as franjas com os céus, davam alguma trégua à mágoa que o flagelava.

A solidão da natureza consorciava-se à solidão de sua alma, compreendiam-se, talvez.

(O Vaqueano, 1872)



Caldre e Fião é o patriarca da literatura gaúcha e um dos fundadores do romance brasileiro. Consta que já em 1848 teria publicado uma "novela riograndense", intitulada A Divina Pastora, mas não se conhece nenhum exemplar deste livro até hoje. O verdadeiro ingresso do gaúcho na ficção brasileira ficará registrado por sua obra posterior, O Corsário, e ocorre no trecho que aqui se transcreve. Pela primeira vez a literatura erudita traça o perfil do tipo regional, incorporando também o vocabulário local e os termos dialetais na descrição de usos e costumes.

O Rio Grande do Sul de Caldre e Fião não é ainda o espaço dos campos indivisos em que se dá o pastoreio; seu cenário preferencial está localizado na longa e arenosa praia entre a embocadura do Araranguá e a do Rio Grande, habitada por pescadores, náufragos e piratas.

Aí se desenrola o drama passional entre Maria (a donzela pura) e Vanzini (protótipo da vilania), temperado por forte dose de sentimentalismo ao gosto da época e visando a uma finalidade moralista - o triunfo dos bons e dos juntos sobre a ambição e a violência.

Não se poderá dizer que Caldre e Fião tenha sido propriamente um "regionalista" pois, como se vê, seus temas e ambições eram mais amplos. Entretanto, o quadro histórico da ação é a Revolução Farroupilha (da qual ele foi contemporâneo), trazendo à cena seus principais chefes e vultos políticos. Além disso, quando procurou fixar o tipo humano, incluiu no texto o célebre "soneto monarca", sem sombra de dúvida a matriz de todos os que abordaram o assunto daí em diante.

O gaúcho - mitificado como monarca das coxilhas - já pertencia à tradição popular no tempo de Caldre Fião. Através de seu romance adquiriu foros de cidadania na literatura nacional.