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Eu sou um quebra largado - Por Deus e um patacão! E, se duvidam, perguntem À moçada do rincão. Sou valente como as armas, Sou guapo como um leão! Índio velho sem governo, Minha lei é o coração! Quando ato a cola do pinto, E ponho o chapéu do lado, e boto o láco nos tentos!... Por Deus, que sou respeitado! Ser monarca da coxilha, Foi sempre o meu galardão E quando alguém me duvida, Descasco logo o facão! Não tenho mancha nem medo, Não temo inverno ou verão; Meu culto é o das raparigas E do mate-chimarrão. Quando me ausento dos pagos, - Isto por curto intervalo - Reconhecem minha volta Pelo tranco do cavalo. Ninguém me pise no poncho!... Pardo velho abarbarado, Tenho chilenas de prata E pala branco bordado. Gosto da vida do campo, Governo com honra e brio; Co'um par de bolas no cinto Não tenho medo nem frio. Sou livre como a seriema, E nem reconheço tirano: Criei-me nas esc'ramuças, Ao sopro do minuano! Sou valente como as armas, Sou guapo como um leão! Índio velho sem governo, Minha lei é o coração! (Do Cancioneiro Guasca, recolhido e compilado por J.S. Lopes Neto em 1910) |
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Devemos observar o gaúcho num espaço social cujas origens se perdem na era colonial e apresenta dois traços decisivos: a formação da estância e a militarização do pampa. Augusto Meyer demonstrou que ele entra na história como resultante do complexo cultural representado pelo cavalo, o gado alçado, a valorização do couro, movendo-se num meio de pampas abertas onde as raias avançam e recuam. De fato, a vida da antiga Província de São Pedro está inteiramente relacionada à atividade pastoril, desde à simples caça aos rebanhos selvagens até à implantação das grandes charqueadas. Mas também será marcada, simultaneamente, pela sucessão quase ininterrupta das guerras de fronteira diante do invasor platino; ou, então, pelas insurreições internas, dentre as quais avulta a Revolução Farroupilha de 1835, acentuando o sentimento regionalista. Assim, a própria história forneceu os elementos essenciais que, abrigados na imaginação popular, convergiram para a idealização do gaúcho como um ser bifronte: campeador e guerreiro. A tradição recolheu e conservou precisamente esta imagem, inserindo-a num privilegiado território épico onde os atributos de coragem, virilidade, argúcia e mobilidade são exigidos a todo momento, recobrindo o tipo humano duma aura heróica que já a transporta ao plano do mito. No curso do tempo, o cancioneiro popular gerou um precioso acervo folclórico, quase sempre anônimo e transmitido por recitação - quadras, trovas, desafios, danças e poesias históricas. Em qualquer caso, invariavelmente, predomina o "herói" gaúcho, senhor absoluto dos campos que percorre inseparável de seu cavalo. |