Personagens Rafael Pinto Bandeira  

Walter Spalding
Construtores do Rio Grande

Foi do Valongo, bispado do Pôrto, Portugal, que veio para o Brasil a família Pinto Bandeira, com José Pinto Bandeira que se radicou em Laguna, fundada em 1684. Aí organizou uma "fazenda de criar". Aí casou com dona Catarina de Brito, neta de Domingos de Brito Peixoto, a qual lhe deu os seguintes filhos: Bernardo, nascido em 1700, Francisco, em 1701 (que seria o pai do grande fronteiro Rafael Pinto Bandeira). - Manoel; Salvador; José. Raimundo e Maximiano foram gerados pela segunda espôsa, dona Inocência Ramires, natural de Paranaguá.

Francisco Pinto Bandeira, o segundo filho de José Pinto Bandeira, e dona Catarina de Brito Peixoto, acompanhou o pai na descida para o sul, rumo à barra de São Pedro do Rio Grande, na legião de Cristóvão Pereira de Abreu, a fim de fundar, por ordem do Brigadeiro José da Silva Pais o nôvo núcleo povoantista que se deveria formar em volta da fortaleza de Jesus-Maria-José. Aliás, Francisco Pinto Bandeira e seu pai, desde o ano de 1725 conheciam a região sulina, percorrendo-a em busca de gado, com Francisco de Brito Peixoto a princípio e, depois, com o genro dêste, João de Magalhães, que ai fundaria a "Estância Magalhães", em 1741, nas proximidades do Povo Nôvo, fronteira à ilha de Torotama, no Rio Grande (lagoa dos Patos).

Ao ser organizado por Silva Pais o Regimento de Dragões do Rio Grande, em 1738, a êle incorporou, como tenente do 1.' corpo, a Francisco Pinto Bandeira, que casaria, no mesmo ano de 1738, na capelinha do Rio Grande junto ao Forte de Jesus-Maria-José, com dona Clara Maria de Oliveira. E em 1740 nasceria seu primogênito - Rafael -, que foi batizado na mesma capela em que casaram os pais, conforme consta do Livro de Batismos (N.' 1, fls. l5v.), a 17 de novembro de 1740, tendo nascido a 16.

Com a fundação do forte de Jesus-Maria-José do Rio Pardo, por Gomes Freire de Andrade, em 1754, uma parte dos Dragões do Rio Grande para lá seguiu, e fundou o depois famoso corpo de Dragões do Rio Pardo. Nêle foi incorporado Francisco Pinto Bandeira, bem como o filho, Rafael, apesar de sua tenra idade. E começou a vida gloriosa do famoso fronteiro-mor do Rio Grande do Sul - Rafael Pinto Bandeira, - o defensor máximo dos lindos, extremos do Brasil-sul.

Mas seu inicio real nas guerras do sul foi a denominada "guerra guaranítica", durante a qual se formou na "arte de guerra". Dominou, entretanto, e se salientou sobremodo durante a invasão espanhola, em 1763. Foi durante essa campanha de quatorze anos que Rafael Pinto Bandeira, o modesto auxiliar paterno de 1754 a 1763, se transformou no imortal fronteira glorificando a estirpe dos Pinto Bandeira.

Foi o grande vaqueiro, conhecedor como nenhum de todos os acidentes geográficos do Rio Grande do Sul. Viajando e combatendo por tôda a parte, de leste a oeste, de norte a sul, em especial do rio Jacuí para o sul, onde sua presença era essencial, tornou-se famoso por suas guerrilhas e surpresas.

Em 1773,o "nativismo" do gaúcho que, por assim dizer nascera na luta contra os invasores espanhóis em 1763 (se bem já desde antes existia com a formação do núcleo rio-grandino, centro irradiador das conquistas do território ambicionado por Castela e sua gente no Prata), se inflamara sobremodo e coube a Rafael Pinto Bandeira, o ardoroso nativista, a vanguarda de todos os embates contra os homens que Espanha, através do Rio do Prata, enviara ao Rio Grande do Sul, invadindo-o com pretensões de ficar.

Vertiz y Salcedo, invadindo a zona de Bagé, ali fundara o forte de Santa Tecla, com intenção de se apoderar de Rio Pardo e do resto do território que fôra entregue à vigilância de outro grande - o Brigadeiro José Marcelino de Figueiredo.

Surge o combate de Tabatinga, no qual Rafael se salientou, dando provas de extraordinária tática militar que fôra precedido do de Santa Bárbara. No combate de São Martinho ficou famosa a arremetida com a destruição do Forte de Santa Tecla que, foi, em última instância, o fim da invasão castelhana no Rio Grande do Sul.

Aliás, Rafael Pinto Bandeira, durante aquelas árduas lutas, estava em tôda parte e tal fama granjeou que o próprio José Marcelino de Figueiredo, homem de valor e de brio, ficara em segundo plano, apesar de Governador da Capitania de São Pedro, o que muito o aborreceu. E de tal forma que, tomado de certo despeito, procurou desfazer a personalidade ímpar de Rafael Pinto Bandeira que vinha, de certo modo, pelo seu prestígio, obscurecendo os atos governamentais. Qualquer ordem do governador só era executada depois de consultado Rafael Pinto Bandeira, o experiente guerreiro, o maior conhecedor do território.

Diz Alcides Cruz ("Vida de Rafael Pinto Bandeira" - Tipografia da Livraria Americana, Pôrto Alegre, 1906) que o "êrro de José Marcelino foi o de não ter sabido ser magnânimo e tolerante, como a prudência e o espírito conciliatório mandavam-no, devendo esquecer as leves faltas os pequenos senões dos grandes cabos de guerra, mormente se do tomo dos Pinto Bandeira... "

Tomando por base essas pequenas faltas que lhe eram comunicadas, José Marcelino de Figueiredo começou a reunir denúncias e, sem maiores exames da situação, imputou-lhe até o delito de ter escondido dinheiro público e, então, denunciou o grande cabo de guerra. O fato correu e a Câmara Municipal de Pôrto Alegre não se conformou com a denúncia. Mas ela seguiu seu ritmo normal e Rafael Pinto Bandeira, após prolongado inquérito, seguiu prêso para Lisboa. Mas Marcelino de Figueiredo deixaria, em breve, a comandância do Rio Grande do Sul e lá, onde a fama do grande guerreiro Pinto Bandeira era popular, sua prisão --e transformou, realmente, num passeio para a glória, voltando para o Rio Grande do Sul, por Decreto de Dona Maria I, de 8 de janeiro de 17801, e ordem para que o processo fôsse arquivado sem mais nêle se falar.

A 31 de maio de 1780 assumia o govêrno do Rio Grande do Sul o Brigadeiro Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Câmara; o Viee-Rei do Brasil, D. Luís de Vasconcelos, em ofício de 21 de janeiro de 1783, ordenava que Veiga Cabral da Câmara que deveria estar constantemente ausente por ser, também, Comissário da Partida Portuguêsa da Demarcação de Limites, fôsse substituído sempre, nos impedimentos, por Rafael Pinto Bandeira e igualmente ordenou a Cabral da Câmara que mandasse para o Rio de Janeiro, hnediatamente, o bravo fronteira, "por haver absoluta necessidade de ser ouvida a sua opinião em assuntos. de alta importância para o Rio Grande".

De volta, meses depois, ora em Pôrto Alegre, ora no Rio Grande, assumia a governança, tendo sido sua posse real a 25 de janeiro de 1784. Onze anos manteve-se à testa dessa governança de São Pedro do Rio Grande do Sul, isto é: até 9 de abril de 1795, quando, doente, na cidade do Rio Grande, que também fôra seu bêrço, entregava a alma ao Criador, enlutando o Continente que tivera nêle a mais famosa espada a cavalo e que, com as mesmas patas dêsse seu cavalo e a ponta dessa sua espada acompanhada das pontas de lança de sua gente, delineara, fortalecendo-a, a fronteira do Rio Grande, afinal solidificada definitivamente em 1801, com Borges do Canto a seus companheiros.

Rafael Pinto Bandeira que o Marquês de Lavradio dissera ter, na cabeça, o verdadeiro mapa do Rio Grande, foi um homem bastante volúvel em questão de mulheres. Casou pela primeira vez em Rio Pardo a 15 de outubro de 1773, com dona Maria Magdalena Pereira, nascida e batizada na Missão de São Lourenço, viúva de Santiago Costa e filha legítima de Cândido Pereira e de dona Benedita Madalena da Costa. Dêste matrimônio não houve filhos. Falecendo dona Maria Magdalena, casou pela segunda vez a 2 de abril de 1788, já com 47 anos de idade, com dona Josefa Eulália de Azevedo e Souza, natural da Colônia do Sacramento, que viera com seus pais José de Azevedo e Souza e dona Bernardina do Espírito Santo Duarte e mais onze irmãos, para a vila do Rio Grande em virtude do tratado de 1777. Dêsse segundo matrimônio houve o casal uma filha - dona Rafaela (que passou à História com o apelido de "Brigadeira") - que foi casada com o Coronel Vieente Ferrer da Silva Freire, um dos primeiros habitantes do atual município de Canoas e proprietário de uma chácara em Pôrto Alegre, na zona ocupada pela Praça D. Feliciano e ruas Pinto Bandeira e Coronel Vicente, até a Voluntários da Pátria. O local era conhecido por "Chácara da Brigadeira", pois ali residiu após a morte do marido.

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