A matéria abaixo foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 07 de julho de 2007.

Textos de Renato Mendonça
Algumas fotos de Emílio Pedroso

Uma escultura em carne e osso

Adriana Franciosi, Banco de Dados/ZH - 09/08/2004

O tradicionalismo sempre presente

Paixão Côrtes achava que já tinha sentido tudo. O encantamento de sapatear no palco do Teatro Olimpya, em Paris. O prazer solitário de descobrir uma dança ou canto na voz de um gaúcho desconhecido. O orgulho de cavalgar levando na mão a Chama Crioula e reavivar uma tradição esquecida. Mas, no dia 31 de março de 2007, ele confessa que não sabe bem o que sentiu.

Este dia marcou a transferência da estátua O Laçador para a frente do terminal 2 do Aeroporto Salgado Filho, distante uns 600 metros do pedestal original, na entrada da cidade, onde a estátua repousava desde 1958, resistindo a depredações e até a impactos de caminhões desgovernados. Paixão Côrtes, que há mais de 50 anos servira de modelo para que o escultor Antônio Caringi criasse O Laçador, foi convidado especial do evento. Mas as homenagens que mais tocaram o folclorista começaram antes da cerimônia, quando ele foi visitar o pedestal ainda vazio.

- Os trabalhadores na obra me reconheceram e me cercaram. Diziam "O Laçador está aqui" e me abraçavam, choravam compulsivamente, se ajoelhavam. Senti uma coisa esquisita, parecia que eu era um santo.

Sioma Breitman, divulgação/ZH

Imagem de Paixão feita pelo fotógrafo Sioma Breitman, em 1954, época em que o folclorista posou para ´O Laçador`

Houve quem sugerisse que Paixão subisse ao pedestal e simulasse a pose original. Não precisou falar duas vezes. O modelo, entretanto, confessa que sentiu algo estranho, como se fosse passageiro de uma viagem inédita:

- Me lembrei direitinho de estar lá em casa, e o Caringi desenhando. E era aquilo: os aviões passando por cima, o pessoal buzinando, os trabalhadores gritando. À esquerda, o verde do gramado do aeroporto. Ao fundo, a cidade. Do lado, Guaíba. Não deu jeito, o corpo velho não agüentou. No dia seguinte, baixei hospital com hipertensão.

Foto(s): Arquivo Pessoal/ZH

Paixão Côrtes não sabe precisar se em 1980 ou em 1981, mas a foto registra a última vez que ele encontrou o escultor Antônio Caringi, em Pelotas

Foto(s): Arquivo Pessoal/ZH

Flagrante do auditório da Rádio Gaúcha, em 1958, mostrando Paixão Côrtes (D) e concorrentes de um festival de Ternos de Reis