A matéria abaixo foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 07 de julho de 2007.

Textos de Renato Mendonça
Algumas fotos de Emílio Pedroso

De modelo a toda terra

O folclorista santanense Paixão Côrtes completa 80 anos na próxima quinta-feira. Em entrevista para o Cultura, ele revisa sua trajetória de vida e de pesquisa - um percurso que chegou a consagrá-lo como símbolo identitário: personagem-síntese do tradicionalismo gaúcho - RENATO MENDONÇA

- Hoje em dia, todo mundo quer ser O Laçador.

Quem afirma tem autoridade para tal. É João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, que nos anos 1940 serviu de modelo para que o escultor pelotense Antônio Caringi (1905 - 1981) criasse a estátua d'O Laçador.

Arquivo Pessoal/ZH

Em setembro de 1948, o primeiro piquete de cavaleiros do 35 CTG saia às ruas de Porto Alegre para conduzir a Chama Crioula. Paixão Côrtes (D) está acompanhado de José Laerte Vieira Simch (E) e de Antônio Cândido da Silva Neto (C).

Não foi essa a única façanha de Paixão Côrtes. Em 5 de setembro de 1947, ao lado de sete colegas do Colégio Júlio de Castilhos, o santanense galopou pelas ruas de Porto Alegre portando a Chama Crioula e acendendo a auto-estima e a tradição gaúchas, que estavam sob ataque dos modismos norte-americanos pós-II Guerra Mundial. Outras batalhas vieram: aliado com o amigo Barbosa Lessa (1929 - 2002), Paixão pesquisou e registrou jeitos, sapateios, músicas, danças, roupas, gírias e histórias para recuperar o modo de ser gaúcho. Ao lado de Lessa, garimpou folclore na América Latina, às vezes se alimentando apenas de água, bolachas e idealismo. Sozinho, armado de um gravador de rolo, depois cassete, no início apenas da memória, perambulou por bolichos, biroscas e grotões do Interior gaúcho, ouvindo gente simples cantar e contar coisas.

Mais façanhas que servem de exemplo. Em 1º de maio de 1955, criou o programa Grande Rodeio Coringa, uma espécie de Fantástico da época, que por anos parava boa parte do Estado entre 20h e 21h de domingo. Em 1948, foi um dos organizadores do primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o 35 CTG. Em 1956, publicou, ao lado de Lessa, o Manual de Danças Gaúchas, revivendo o balaio, o xote e a rancheira. Em 1958, liderando o grupo de música e dança Os Gaudérios, se arranchou no Olympia, de Paris, entre outros teatros da Europa. Nos anos 70, gravou elepês que tiveram reconhecimento nacional, popularizando ritmos que provocaram nós nos dedos do virtuose Baden Powell (leia mais na contracapa deste caderno).

Arquivo Pessoal/ZH

Paixão Côrtes registra em seu gravador de rolo informações sobre a Dança dos Facões. O ano é 1957 e o local é o CTG Paixão Côrtes, em Caxias do Sul

A maior façanha de Paixão Côrtes, entretanto, ele a faz em si mesmo. A poucos dias de se tornar octogenário, cabelo, suíças e bigodes brancos, ele não perde o prazer da peleia, do chiste e da independência.

- Uma noite dessas, foram me homenagear em uma loja maçônica. Olhei para um amigo que estava me elogiando, e observei que o nó do laço que ele trazia no pescoço tinha sido inventado por mim há 60 anos. Ele ficou com os olhos marejados. Vê só: já deram mil nomes para aquele nó, já disseram até que ele é o nó da lança que se usava na Guerra dos Farrapos.

Para quem gosta de coincidências, o apartamento em que Paixão mora com sua mulher, Marina, está atualmente em reformas. O único aposento que sobrevive às demãos de pintura e reboco é o escritório do folclorista. É que, nisso, ele não muda. Espalhadas pelo sofá e pela mesa, anotações que darão estofo ao próximo livro de Paixão, uma publicação de 558 páginas que virá complementar o Manual de Danças Gaúchas com mais 80 temas coreográficos.

Arquivo Pessoal/ZH

Em 1962, Paixão Côrtes (E) foi premiado no teatro Municipal do Rio por ter lançado o melhor elepê folclórico daquele ano. Ao lado dele, Pixinguinha

Em volta de Paixão, está a prova de que ainda há muito trabalho a ser feito, e que, aparentemente, as parcerias estão escasseando. Em sacos plásticos, e em uma série de caixas de papel, resistem centenas de gravações, em fitas de rolo e cassete, à espera de serem digitalizadas e sistematizadas.

- Sempre viajei e coletei material às minhas expensas (Paixão foi funcionário da Secretaria da Agricultura do Estado) e com a ajuda de amigos. Só no ano passado, tive enfim o meu primeiro livro publicado com o apoio do governo do Estado.

Paixão se orgulha de ter caminhado junto com o renascimento da tradição gaúcha. Lembra que o piquete começou com oito pessoas e que agora existem mais de 4 milhões de pessoas ligadas ao movimento.

Arquivo Pessoal/ZH

Em 1958, durante a temporada que passou em Paris, Paixão (de chapéu) e Zé Gomes (E) participaram de programa na televisão francesa

- Nos anos 40, não havia nem sequer churrascarias, agora elas funcionam até nos Estados Unidos. Tínhamos um repertório de três ou quatro músicas, hoje elas são milhares. Me preocupo com o que ainda não fiz, e não com o que fiz.

Nesta última frase, parece estar contido um ressentimento de Paixão, que o próprio não confessa. Ele prefere arriscar alguma teoria:

- Os tradicionalistas de hoje se preocupam em regular a vivência na tradição, tem uma ação normativa, às vezes, inclusive, sem fundamento. Isso é importante, mas falta a preocupação em progredir, em avançar a pesquisa. Claro que é indispensável combater modismos, mas não adianta se contentar em definir o que pode e o que não pode, mas encontrar as razões disso.

Arquivo Pessoal/ZH

Depois da liberalização do Concílio Vaticano 2, Paixão viajou a Belo Horizonte para ensinar folclore a padres e freiras. O ano é 1959.

Paixão, que preenche sua agenda atualmente com cursos que ministra no Paraguai, Paraná, Santa Catarina e raríssimas vezes no Rio Grande do Sul, diz que nunca foi chamado pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) para opinar em nada. Mas, logo em seguida, Paixão conta mais uma de suas histórias e, sem querer, ensina como se deve lidar com a amargura. Ele diz que, no final dos anos 1940, ele e Barbosa Lessa foram experimentar a tal de Coca-Cola num bar do Centro de Porto Alegre. No primeiro gole, o xarope mais conhecido do mundo tinha gosto mais amargo que chimarrão. Paixão não hesitou: colocou açúcar e bebeu.

Com outra piada, ele sugere qual seria a melhor homenagem que poderia receber nos seus 80 anos:

- Querem me homenagear? Então me dêem trabalho. Editem meus livros.

Arquivo Pessoal/ZH

Barbosa Lessa fotografou Paixão Côrtes ao lado de duas índias, durante pesquisa nas Missões paraguaias