David Canabarro

"Glória se colhe ao silvo das metralhas por entre o horror de ríspidas batalhas, em meio da carnagem!"

escreveu Bernardo Guimarães, o grande poeta e romancista mineiro, em seu poemeto "A Campanha do Paraguai" (Heróides Brasileiras), § V - Uruguaiana e Canabarro. ("Novas Poesias" B. L. Garnier, livreiro-editor do Instituto Histórico, Rio de Janeiro, 1876; - "Poesias Completas, de Bernardo Guimarães" - Organização, introdução, cronologia e notas por Alphonsus de Guimarães Filho, - MEC - Instituto Nacional do Livro, (Emprêsa Gráfica "Revista dos Tribunais" S.A., São Paulo), Rio de Janeiro, 1959, págs. 250 a 289).

Na realidade, porém, a glória não é somente colhida "ao silvo das metralhas por entre o horror de ríspida batalha, em meio da carnagem", mas também no trabalho útil e fecundo, em plena paz, e atitudes nobilitantes e patrióticas, além de muitos motivos mais que podem dar ao homem grandeza tal que o eleve ao cume da glória sem jamais ter entrado em campo de batalha.

Mas no caso de David Canabarro - David José Martins - a glória o conquistou na guerra mas não somente "ao silvo das metralhas". Cooperaram, talvez mais do que os feitos de guerra para a glória de Canabarro, seu grande gesto ao responder aleivosa proposta de D. Juan Manoel de Rosas, e sua atitude quando Bento Gonçalves, após o duelo com Onofre Pires e a morte dêste se lhe apresentou prêso por ter contrariado as leis e morto um homem que fôra, além de tudo, grande amigo e companheiro de lutas.

Só êstes dois gestos bastariam para dar a David Canabarro um lugar especial na História do Rio Grande do Sul.

Tipo excepcional das campanhas do Rio Grande do Sul, de pouca cultura, mas, grande discernimento, David Canabarro se fêz por si. Subiu aos poucos, com vagar, mas segurança, começa sua vida ascencional aos 15 anos de idade.

Descendente de açorianos, David Canabarro é neto de José Martins Faleiros e dona Jaeinta Rosa, naturais da Ilha Terceira. Instalados em Pôrto Alegre, aí lhes nascia o filho homem que seria José Martins Coelho. Dona Mariana Inácia de Jesus, natural da Ilha de Santa Catarina, que, com seus pais Manoel Teodósio Ferreira e dona Perpétua de Jesus, se instalaria em Bom Jesus do Triunfo pelo ano de 1778, aí conheceu o futuro marido, José Martins Coelho que com a família também para ali se havia transferido.

Casados, mudaram-se logo para Taquari onde lhes nasceu, a 22 de agôsto de 1796, o menino David José, no lugar denominado Pinheiros, uma légua além da freguesia-sede, em terrenos que adquirira José Martins Coelho, fundando uma estância d ' e criar.

Foi ai, nessa estância, que transcorreu a vida inicial do futuro David Canabarro até aos 15 anos. Em velho manuscrito conservado na Biblioteca do Instituto Histórico Brasileiro, no Rio de Janeiro, segundo nos informa H. Canabarro Reichardt ("David Canabarro - Estudo biográfico ", Edição do Centenário Farroupilha, Papelaria Velho, Rio de Janeiro, 1934), encontramos a razão pela qual o jovem David José Martins passou a assinar-se, depois de 1836, "David Canabarro". Diz o documento:

Quando regressava da campanha, em 1814 (deve haver equívoco no ano, pois o Marquês de Alegrete somente foi empossado na governança da Província a 13 de novembro de 1814, regressando da campanha em princípios de 1818, ou fins de 1817), o Marquês de Alegrete, encontrava-se em Rio Pardo o avô materno de David, Manoel Teodósio Ferreira. Este, ao vê-lo passar na sua carruagem, foi cumprimentar, na portinhola, o Governador que já o conhecia, ao que parece.

- Oh! senhor Canabarro, V. Excia. por aqui? Folgo muito de o ver, - retorquiu o Marquês.
Em seguida falaram em segrêdo, por muito tempo.

Manoel Teodósio Ferreira, dai por diante passou a ser cognominado, na família e fora dela, por Canabarro, nome que, afinal, adotou e transmitiu aos filhos, dos quais Antônio Ferreira Canabarro, que se tornou estancieiro na fronteira, faria David também firmar-se Canabarro.

Davi José Martins iniciou sua vida de militar na campanha de 1811/1812 - Campanha da Cisplatina. Para essa campanha deveria seguir o irmão mais velho, Silvério, já então com 18 anos. Entretanto, auxiliar precioso do pai nas lides campeiras, iria fazer muita falta. E David, contando 15 anos de idade, reconhecendo o fato, solicitou ao pai licença para seguir em lugar do irmão.

Patriota como todo proprietário rural do Rio Grande do Sul daqueles tempos (e até hoje), José Martins Coelho não vacilou, e David se apresentou às fôrças do nobre Dom Diogo de Sousa. Terminada a campanha, regressa ao lar, mas em seguida volta para combater Artigas (l8l6/20). Anos mais tarde vemo-lo tenente das fôrças de Bento Gonçalves da Silva na campanha de 1825/1828, que culminou com o tratado de paz de agôsto de 1828 e a independência do Uruguai.

Salientando-se em todos os recontros, teve papel preponderante no combate de Rincón de las Gallinas, salvando o exército brasileiro de completo desbarato (24-9-1825), o que lhe valeu os galões de tenente efetivo do Exército Nacional.

Na 21 Brigada de Cavalaria Ligeira comandada por Bento Gonçalves da Silva, assistiu à indecisa batalha de Passo do Rosário, obrando prodígios de valor e de. audácia, diz um cronista.

Cessada a guerra, volta ao lar, à vida do campo, mas desta vez associado ao tio Antônio Ferreira Canabarro, na estância fronteiriça de Santana do Livramento. Tornou-se aí, por insistência do tio, David Canabarro.

A Revolução Farroupilha, iniciada a 20 de setembro de 1835, pôs novamente a Província de São Pedro em agitação. Deveria ter sido provisória, até a expulsão do Presidente Rodrigues Braga e posse do nôvo. O nôvo, porém, reiniciou, por atos impolíticos, a revolução.

Foi então que David Canabarro, que oficialmente continuava David José Martins, entrou para a luta ao lado de seu velho amigo e companheiro, ex-comandante, Bento Gonçalves. E ainda ai, pelo menos até fins de 1836, continuou a firmar seu nome oficial (ainda na convenção da capitulação de Silva Tavares, 17 de dezembro de 1836,1 assinava David José Martins). Mas a partir de 1837, por todos conhecido por David Canabarro, passou a oficializar êste nome com o qual passou à História.

A Revolução Farroupilha, que o recebeu, de início como tenente, logo depois o promovia a general pela sua estratégia e qualidades excepcionais de comando. E chegou a Comandante em Chefe das Fôrças da República Rio-Grandense, pôsto em que assinou o Tratado de Paz de Poncho Verde, a 25 de fevereiro de 1845 e lançou a sua proclamação dando a província por pacificada (28-2-1845). Voltando à luta, nas campanhas contra Rosas e Aguirre, recebeu o título de General Honorário do Exército Brasileiro, com o qual batalhou contra os paraguaios invasores, em 1864 e, enfim, faleceu miseravelmente caluniado, na estância de São Gregório, a 12 de abril de 1867.

Jamais vencido na Revolução Farroupilha, mas apenas com um pequeno desastre por mal entendido, já no final, quando se tratava da pacificação, em "Porongos", David Canabarro era o assombro dos contrários. Por isso, o ódio que lhe votavam e a intriga e a calúnia que deveria levá-lo às barras de um tribunal militar, não fosse o grande espírito cívico e o culto à verdade do General Osório, que fez com que o processo fosse arquivado sem ter sido concluído, em 1866. Mas o velho e heróico Canabarro não resistiu ao violento golpe e depois falecia.

A causa da única "derrota" de Canabarro durante a Revolução Farroupilha, foi um descuido por mal entendido. Estava sua força acampada no Cêrro de Porongos, tranquilamente, de vez que se estava tratando da pacificação. Mas seu grande inimigo, articulador de todas as calúnias contra Canabarro, o depois Barão do jacuí, Francisco Pedro de Abreu, o Chico Pedro ou Moringue das cronicas guerreiras do Rio Grande do Sul, resolveu apanhá-lo de surpresa. Havia jurado e tudo fez para atingir sua finalidade, inclusive escrevendo uma carta como se fosse de Caxias, para, caso vencesse, desmoralizar Canabarro. E realmente o pegou distraído. Canabarro, que era solteiro, estava em sua barraca, naquele acampamento, acompanhado de "Papagaia", apelido de sua amante que era esposa do "cirurgião" da força. E, dizem, foi por causa desta mulher que se distraíra e fora pego de surpresa pelo Moringue, aliás guerreiro terrível, mas sempre derrotado por David Canabarro.

Pouco antes havia chegado aos ouvidos de Caxias, comandante das forças imperiais contra os farroupilhas e Presidente da Província, a resposta de Canabarro ao emissário de Rosas - "Senhor - o primeiro de vossos soldados que transpuser a fronteira, fornecerá o sangue com que assinaremos a paz com os imperiais. Acima de nosso amor à República está nosso brio de brasileiros. Quisemos, ontem, a separação de nossa pátria, hoje almejamos a sua integridade. Vossos homens, se ousarem invadir nosso país, encontrarão, ombro a ombro os republicanos de Piratini e os monarquistas do senhor D. Pedro II".

E mandara convidá-lo para uma entrevista. Canabarro foi. Recebido cavalheirescamente pelo nobre Conde de Caxias, este, em meio da conversa, antes de entrar no assunto que desejava tratar, teria dito a Canabarro "que a revolução tendia a desaparecer pela falta de elementos para prosseguir".

E Canabarro, de imediato, lhe respondeu: - "Engana-se, general. Ainda temos elementos próprios para sustentá-la por muito tempo. Se quiséssemos vencer a todo transe, poderíamos fazê-lo. Leia esta carta e se convencerá. Mas, note, que não aceitamos o concurso estrangeiro, porque primeiro de tudo, somos brasileiros e em caso algum admitimos o auxílio da castelhanada".

Caxias o compreendeu logo, como, aliás, já Canabarro compreendera a Caxias. E tornaram-se amigos.

Canabarro, entretanto, antes de assumir o compromisso com Caxias, de tratar da pacificação da Província, escrevera a Te6filo Benedito Ottoni, o chefe revolucionário mineiro de 1842, a quem Canabarro havia mandado oferecer auxilio, infelizmente (ou felizmente) chegado tarde. Ottoni respondeu-lhe aconselhando-o a tratar da pacificação. E a paz foi feita, honrosamente, sem vencidos nem vencedores.

O outro episódio dignificante - a par muitos mais, - foi o que se verificou por ocasião de se apresentar prêso Bento Gonçalves, em março de 1844.

Atacado, difamado, caluniado, Bento Gonçalves, que já tudo havia abandonado, menos a República Rio-Grandense, passando a presidência a José Gomes de Vasconcelos Jardim e a chefia suprema das fôrças ao General David Canabarro, teve que bater-se em duelo com seu companheiro das primeiras horas, Coronel Onofre Pires da Sílveira Canto. Foi, para êle, um ato doloroso, mas não o podia evitar. Onofre, grande guerreiro, mas inculto, deixou-se seduzir por inimigos de Bento Gonçalves e começou a criticá-lo violentamente, chegando às mais infames calúnias. Bento Gonçalves revidou e tiveram que bater-se. Onofre, ferido, morreu dias depois em conseqüência de gangrena. Acusado de assassino e violador das leis, apresentou-se a David Canabarro, chefe supremo das fôrça,-- da República Rio-Grandense, e lhe contou o sucedido, entregando-se prisioneiro.

É realmente grave, muito grave, respondera Canabarro. Mas, quando o chefe farroupilha de 1835 ia tirar a espada da cinta para a entregar a Canabarro, êste lhe diz:

- General. Para sustentar a espada de Bento Gonçalves, só conheço um homem - Bento Gonçalves da Silva. - E o conservou em sua barraca, até o final da revolução, como seu primeiro auxiliar, chefe de seu Estado Maior, logo que a grita cessou.

Sua carta a Teófilo Ottoni é outro grito de patriotismo, que, após a pacificação, lhe sai do mais íntimo do peito, agradecendo ao chefe mineiro "êsse tão relevante serviço prestado em favor do bem geral e da liberdade". (Veja-se: "A 'Circular' de Teófilo Ottoni" reeditada por Basilio de Magalhães na "Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro", tomo 78, vol. 132, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1915 - pág. 342).

Entretanto, apesar de provadas. as calúnias contra David Canabarro, o historiador Alfredo Varela em suas obras sôbre a Revolução Farroupilha, de nada tomou conhecimento, continuando a afirmar as calúnias levantadas contra êle pelo Barão de Jacuí que, aliás, em suas "Memórias" ("Revista do Inst. Hist. e Geogr. do RGS", Ano de 1921, ns. l e 2), não repete e nem referências faz a David Canabarro, tratando-o, pois, como se não existisse, como se jamais tivesse se defrontado com êle.

Entretanto, na realidade, Canabarro sempre estêve presente: na Revolução Farroupilha, combatendo-o e derrotando-o inúmeras vêzes; nas guerras contra Rosas, na campanha contra Aguirre (l864) e na Guerra do Paraguai, durante o cêrco aos paraguaios invasores do Rio Grande do Sul (São Borja e Uruguaiana), salvando a então Província de ser talada de oeste a leste pelas fôrças de Solano Lopez comandadas pelo General Estigarríbia, enquanto êle, Barão do Jacuí, nada mais fêz que acercar-se do Ministro da Guerra e tramar intrigas, caluniar o grande soldado David Canabarro, querido e admirado por homens do valor e prestígio de Caxias, Osório, Pôrto Alegre, Teófilo Ottoni e muitos mais que põem, acima de tudo, a dignidade e a verdade histórica.

Origem: Material recolhido do livro Construtores do Rio Grande, autoria de Walter Spalding. Livraria Sulina Editora, 1969.

Publicado por Roberto Cohen em 29/05/2001.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.