Esta matéria foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 28 de março de 1998.
Textos de
Ricardo Carle, Especial/ZH
José Hernández passou grande parte da vida envolvido nas revoluções que assolaram as províncias argentinas no século passado
Até que fosse publicada A Volta de Martín Fierro, em 1879, a primeira parte do poema, editada em 1872, já havia vendido 72 mil exemplares, sem contar as edições piratas. Os versos caíram no gosto dos argentinos e também atraíram a atenção dos orientais e riograndenses. O livro era tão popular que seu autor, José Hernández, era comumente chamado pelo nome de sua criatura. Contente com a fama, o poeta afirmava: "Sou um pai a quem o filho deu o nome". Homem do pampa, Hernández não foi um autêntico gaúcho, mas conhecia a vida do campo e criticava a injustiça que o atingia. O escritor viveu uma das épocas mais atribuladas da história da Argentina. Por diversas vezes, pegou em armas para defender seus ideais políticos e chegou a trocar de lado algumas vezes, nas confusões típicas de toda a região coberta pelo pampa.
Hernández conheceu a pobreza e a miséria do campo. Chegou a ter de trabalhar pesado para sobreviver, sem nunca esquecer sua inclinação para as letras, embora tenha deixado pouca coisa publicada. Martín Fierro foi seu presente e passaporte para a posteridade. Na juventude, além das três obras publicadas conhecidas, teria escrito alguns poemas românticos em jornais (possivelmente versos aparentados corn os que foram encontrados na caderneta com os primeiros cantos de Martín Fierro). O agora mitológico José Hernández nasceu em 10 de novembro de 1834, no Casario de Perdriel, atualmente na província de Buenos Aires. Era filho de Isabel Pueyrredón, prima do brigadeiro Juan Martín de Pueyrredón (que se distinguiu na luta pela independência), e de Rafael Hernández, filho de um comerciante espanhol.
Aos nove anos, Hernández ficou órfão de mãe. Ainda criança, conheceu o cenário que o tornaria imortal. Levado para a campanha, aprendeu a ginetear e a cumprir as lides campeiras. Treinou o uso das armas cavalgando nas caçadas aos índios pampas. Com 18 anos, começou a percorrer o caminho de sua vocação, participando da guerra civil que derrubou Rosas. Em 1859, juntou-se ao caudilho Urquiza, combatendo nas batalhas de Cepeda e de Pavón, na qual Mitre derrotou o vencedor de Rosas. Depois, emprestou sua pena ao ofício de jornalista, trabalhando no diário La Reforma Pacifica. A falta de recursos obrigou-o a se mudar para Paraná em 1857, onde trabalhou com peão para sobreviver. Quando passou a trabalhar no comércio, em sociedade com Victor Ramón Puig, sogro do caudilho Ricardo López Jordán, as coisas começaram a melhorar. Chegou a ser secretário da presidência, em 1862. Casou-se no ano seguinte na cidade do Paraná, com Carolina Gonzável del Solar.
A atração de Hernández pelo universo gauchesco expressou-se literariamente pela primeira vez com Vida del Chacho, biografia do líder gaúcho Chacho Penãzola. Trocaria a pena pela lança novamente em 1865, quando a província de Corrientes foi invadida pelas forças do ditador paraguaio Solano López. Naquele ano, Hernández havia ingressado na maçonaria, iniciando-se na loja Asilo do Litoral n° 18. Em Corrientes, o escritor exerceu a função de procurador geral do Estado e integrou o Superior Tribunal de Justiça, depois ocupando o cargo de ministro da Fazenda. Nessa província, que faz fronteira com o Brasil, ele editou o jornal El Eco de Corrientes, de curta duração em virtude de desavenças políticas. Mudou-se para Rosario, onde trabalhou na redação do diário La Capital, de Ovidio Lagos.
Por algum tempo, as armas seriam abandonadas em troca de funções oficiais. De 1867 a 1869, desempenhou vários cargos públicos, incluindo o de taquígrafo do Senado. Fundou, nessa época, o jornal Rio de La Plata, de existência efêmera. O presidente Domingo Faustino Sarmiento mandou fechar a publicação em razão das criticas contra a forma como era tratado o homem do campo pelo governo. Os escritórios voltariam a ser deixados para trás em 1870. Hernández não se reuniu aos revoltosos liderados por López Jordán na primeira hora. Só em novembro (Urquiza foi assassinado em abril, quando Jordán assumiu o governo de Entre Rios) é que se incorporou ao movimento cujo breve futuro estava destinado ao fracasso. No mês seguinte, ele começaria o que seria uma vida desditosa de exilado, mas que, afirma-se, acabou por lhe dar a vida eterna como autor do mais importante livro da literatura gauchesca.
O escritor retornou ao seu país em 1872. Em dezembro daquele ano, imprimiu a primeira parte do poema El Gaucho Martín Fierro na gráfica La Pampa, na Rua Victória, em Buenos Aires. Conhecida como La Ida, essa primeira parte atravessou o Oceano Atlântico no ano seguinte, quando foi publicada na íntegra no jornal Correio de Ultramar. Pouco tempo depois, Hernández adquiriu a Livraria del Plata, na Rua Taquara, número 1, na capital argentina. Foi aí, em 1879, que imprimiu a segunda parte, La Vuelta de Martín Fierro. As atribuições guerreiras que haviam consumido a maior parte de sua vida estavam definitivamente terminadas.
No período de 1879 a 1881, Hernández foi deputado e vice-presidente da Câmara. Seu prestígio popular foi comprovado em 1881, quando se elegeu senador provincial. Instalou-se definitivamente em Belgrano, hoje um bairro de Buenos Aires. Em seus anos derradeiros, foi membro do Conselho Geral de Educação e escreveu um folheto entitulado Instrucción del Estanciero. Morreu em Belgrano, em 21 de outubro de 1886. (Ricardo Carle, Especial/ZH).