Esta matéria foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 28 de março de 1998.

Textos de
Ricardo Carle, Especial/ZH

Guerra marca alma gaúcha de Livramento

Município foi palco de conflitos que percorrem a história dos povos do sul do Brasil e do Prata

Para José Hernández, autor de Martín Fierro, Santana do Livramento foi um refúgio pacífico, onde pode deixar fluir sua inspiração poética. Mas antes de se tornar vila pacata, a cidade passou por estrépitos sangrentos. Em sua história latejam as cicatrizes formadoras do espírito rio-grandense, impingidas pela violência da fronteira meridional. Um elemento trágico da cultura sulista que foi comungado por gaúchos dos países do Rio da Prata. Antes, no silêncio e na ausência de almas, havia calma. O pampa corcoveia com capricho na região onde se instala o município. Entre essas pródigas coxilhas e cerros dominantes, viveram no passado minuanos e charruas, a indiada se espalhava livre por todo o sul e sudoeste do Rio Grande. Com fama de caborteiros, os bugres se adestraram na arte da equitação, do que se valiam para assaltar os redutos dos brancos e resistir às expedições punitivas. Foram caçados com inclemência, dizimados por vontade dos homens, sob a proteção de Deus e a bênção da Igreja.

Sem índios para abrigar, essa imensa faixa da Campanha parecia destinada a cumprir uma vocação de deserto. Ao homem branco, que presumivelmente deitou olhos sobre seu tortuoso horizonte no começo do século 17, nada havia de atraente naquela paisagem selvagem. A mando do padre Roque González, os jesuítas teriam sido os primeiros europeus a cruzar tais paragens, depois mais freqüentemente pisoteadas pelas mulas dos religiosos e índios mansos dos Sete Povos das Missões. Mandava o Tratado de Tordesilhas que tudo ali, naquela desolação, pertencesse à coroa espanhola. Com o Tratado de Madri, de 1750, a mesma condição era mantida.

Aos interesses dos pioneiros, porém, pouco importam os papéis assinados em distantes capitais do Velho Mundo. Seus movimentos obedecem às ambições. Depois do desbaratamento das reduções missioneiras pelos bandeirantes, por volta de 1634, produziu-se um fato que acendeu a cobiça de homens audaciosos dos reinoos ibéricos. As missões à beira do Ururugai tinham grande quantidade de cabeças de gado. O rebanho ficou solto na campanha durante meio século, até que aventureiros mais atilados percebessem a mina de ouro esparramada pelos pampas.

"Indio", Alberto Güiraldes, reprodução/ZH

Tinha que dar briga. Em 1762, os espanhóis invadiram a região do Rio Grande do Sul. O estado de guerra constante impediu por longos anos a colonização da fronteira. As coisas mudaram quando as colônias espanholas se rebelaram contra Madri e o rei português Dom João VI vislumbrou a concretização de um velho sonho: subjugar a Cisplatina. Mas orientais estavam dispostos a azedar o vinho de Sua Majestade. Sob a liderança de Artigas, impuseram encarniçada resistência às tropas de Lisboa. A essas escaramuças pode-se atribuir o surgimento de Santana do Livramento.

Onde as armas falam mais alto, os acontecimentos não vêm de mão beijada. Primeiro, os portugueses, comandados pelo capitão Alexandre Luiz de Queiroz, tomaram o solo santanense em 22 de setembro de 1816. A situação reverteu em seguida, quando 800 castelhanos fizeram carga sobre os 300 lusitanos, obrigando-os a retroceder. Bom tempo de luta ainda se seguiria, apesar da acachapante derrota imposta a Artigas ainda em 1816 pelos lanceiros chefiados pelo brigadeiro Joaquim de Oliveira Alvarez. Em meio às refregas, em 1818, foram concedidas as primeiras sesmarias em Livramento. Mas em dezembro daquele ano, considerou-se pacificada a região. A primeira aglomeração foi edificada na Coxilha Grande. Para fins oficiais, entretanto, a data de fundação de Santana do Livramento é 30 de julho de 1823, quando foi concedida licença para a construção da capela de Nossa Senhora do Livramento. Mas a guerra, desdita da gente gaúcha, que forjou o espírito guerreiro dos heróis decantados em epopéias, amaldiçoada por José Hernández nos cantos de Martín Fierro, voltaria a cobrar tributo.

Lavalleja decretou a libertação da Cisplatina em 1825. Os anseios de independência dos orientais mais uma vez adubariam com sangue as pradarias gaudérias. Um erro estratégico deu maior dimensão ao pesadelo. Francisco de Paula Massena Rosado, comandante das armas da Província e do Exército do Sul, decidiu concentrar as tropas em Livramento, desguarnecendo o restante da fronteira. Os soldados e a população sofreram e morreram com a falta de víveres e medicamentos, até que o Visconde de Barbacena desfez o equívoco, deslocando o acampamento, em 1827. Santana do Livramento escapara da morte por inanição.

Mais oito anos de bonança se passariam antes de os campos sul-rio-grandenses voltarem a tremer sob os cascos dos corcéis dos lanceiros e o troar dos canhões. Embora os santanenses tenham se declarado aliados dos rebelados farroupilhas em 1835, o povoado só foi tocado pelo conflito em 30 de março de 1843, quando o rebelde Jacinto Guedes da Luz, que se baseava em Livramento, foi obrigado a abalar-se para o Uruguai, perseguido pelas colunas imperiais de João Propício Menna Barreto. Os confrontos se estenderam, intermitentes (contando com a participação do então Barão de Caxias), até novembro de 1844, quando enfim o Império impôs sua ordem na região.

Sob a República, Livramento também foi palco de guerras civis entre riograndenses. Em 1895, houve os mais sangrentos combates da Revolução Federalista, no arroio do Carcávio e no Campo da Sociedade. Em junho de 1818, foram concedidas as primeiras 1895, foi lanceado mortalmente, em sesmarias em Livramento. Nas terras de Campo Osório, o almirante Saldanha da um dos sesmeiros, Luciano Pinheiro da Gama, um dos líderes federalistas. O último banho de ferro e fogo seria acompanhado pela cidade em 10 de dezembro de 1925, quando os homens do coronel Júlio César de Barros foram rechaçados pelo 6o Corpo Provisório. Desde então, reina relativa paz em Santana do Livramento (Ricardo Carle, Especial/ZH).