Esta matéria foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 28 de março de 1998.
Textos de
Ricardo Carle, Especial/ZH
Ficção do Cone Sul não consegue escapar da onipresença do poema escrito no final do século passado por José Hernández
Haroldo Bloom poderia ter se detido sobre o fenômeno Martín Fierro quando desenvolveu sua teoria da angústia da influência. O gaúcho emblemático criado por José Hernández é o fantasma onipresente na literatura argentina e seu ectoplasma contamina as letras afins no chamado Cone Sul. Era inevitável que muitos se revoltassem contra o domínio deste índio vago sobre o vasto universo literário pampeano. Vozes prestigiadas se levantaram. Como sempre, vamos a Jorge Luis Borges: "Algum panegirista devoto da mera multiplicação quis que a biografia desse gaúcho fosse a de todos os gaúchos, e pretendeu comprimir neste faquista individual de 1870 o processo completo de nossa história. Nessa pretensão, espreitam dois equívocos irmãos. Em primeiro lugar a simples concepção de um país habitado unicamente por desertores domiciliados nas vizcacheras (tocas de uma espécie de lebre – Borges se refere ao modo de vida andarilho) é inimaginável; e, em segundo, o gaúcho da campanha de Buenos Aires contou muito pouco no decurso da história argentina".
Permita-se dizer que Borges está equivocado. Em sua própria obra, a presença de Martín Fierro pesa. Por exemplo, o especialíssimo romance Dom Segundo Sombra, do também argentino Ricardo Güiraldes, uma citação proeminente do velho patriarca cego, ecoa fortemente os sons e os temas encontrados em Martín Fierro. O gaúcho imaginado e reinventado pelos tradicionalistas do Rio Grande do Sul é um legatário tremendo do gaucho idealizado por Hernández. Romântico e estereotipado, Martín Fierro, entretanto, tem sua potência maior na amargura e na revolta. Esse cuchillero, como o classifica Borges, escapa do realismo porque tem o evidente propósito de denunciar a realidade. Homem moderadamente cultivado, mais polido do que a maioria de seus contemporâneos nessas plagas, o autor de Martín Fierro tentou retratar um sentimento popular e fabricou um monumento literário.
No dizer de Guilhermino Cesar, "manipulando elementos simples, ao gosto do povo, Hernández construiu efetivamente para a eternidade". Hernández, que caçou índios pampas na juventude, juntou a suas experiências a observação dos costumes gaudérios. Da participação no levante contra Urquiza deve ter percebido a contrariedade de peões e andarilhos Levados às armas pelos interesses dos caudilhos. Seu gaúcho existiu de fato, como comprovaram vários estudos. Martín Fierro faz o discurso deste descontentamento.
Martín Fierro é fiel aos sentimentos da gente pampeana. Hernández não negaceou nem mesmo o lado mais feio, ainda que para ele talvez nem fosse tão feio. Seu guasca falastrão é violento, machista e cheio de ódio contra índios e gringos. Ao narrar os maus bocados que passou nas mãos dos bugres, Martín oferece sua peculiar visão antropológica: "Os índios não sabem rir, / e pretendê-lo é em vão, / nem quando à festa se dão / do triunfo nas correrias; / o riso, nas alegrias, / é próprio só do cristão".
As estrofes de seis versos de Martín Fierro favorecem os que defendem a teoria de que o poema nasceu em rodadas de truco em Santana do Livramento. Mais notável, por sua evidente elaboração dirigida, é a linguagem utilizada pelo escritor. Citada por José Salgado Martíns, a Biblioteca de Dialectologia Hispanoamericana classifica e limita: "Martín Fierro está escrito em língua rústica, mistura de arcaísmo espanhol e de vozes indígenas americanas. Esse modo de falar, primitiva herança dos colonizadores, se conservou nos campos argentinos e se transmitiu de pais a filhos até o desaparecimento do gaúcho".
O exagero é evidente. Hernández tentou capturar o linguajar gaúcho e o fez à sua moda. Além disso, muitos termos empregados no poema perduram nas vozes do pampa. Mas simplicidade não significa facilidade. João Otávio Nogueira Leiria levou 20 anos para verter os 33 cantos do Martín Fierro com maior fidelidade possível para o português. (Ricardo Carle, Especial/ZH)
"No me hago al lao de la güeya aunque vengan degollando; con los blandos yo soy blando y soy duro con los duros, y ninguno en un apuro me ha visto andar tutubiando. |
"Não saio fora dos trilhos nem que venham degolando; c'os brandos sou sempre brando, e sou duro com os duros, e ninguém, noutros apuros, me viu andar titubeando. |
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En el peligro qué Cristo! El corazón se me enancha. pues toda la tierra es cancha, y de esto naides se asombre: el que si tiene por hombre donde quiera hace pata hancha |
Ante o perigo — por Cristo! —, meu coração não remancha: qualquer chão p 'ra mim é cancha; e nisso sentido tomem: quem se tenha por bem homem faz pé firme e não se plancha. |
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Soe gaucho, y entiéndanló Como mi lengua lo esplica: para mi la tierra es chica y pudiera ser mayor; ni la víbora me pica ni quema mi frente el sol. |
Sou gaúcho! — Entendam bem como meu canto o explica: a terra ante mim se achica e pudera ser maior; nem a víbora me pica, nem me queima a fronte o sol. |
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Nací como nace el peje en el fundo de la mar: naides puede quitar aquello que Dios me dió: lo que al mundo truje yo del mundo lo he de llevar." |
Nasci como nasce o peixe nas profundezas do mar; ninguém me pode tirar aquilo que Deus me deu: o que aqui tenho de meu, do mundo o hei de levar." |
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(Extraído de Martín Fierro, de José Hernández, tradução de J. O. Nogueira Leiria, Martíns Livreiro, 1991) |
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