Esta matéria foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 28 de março de 1998.

Textos de
Ricardo Carle, Especial/ZH

Ressurgem originais de Hernández

Empresário doa manuscrito de "Martín Fierro" ao Museu Nacional da Argentina

Num prosaico caderninho de bolicho nasceu o mito primal do imaginário gauchesco. Essa caderneta, preenchida com os oito primeiros cantos do poema Martn Fierro, que se acreditava desaparecida, foi entregue semana passada ao presidente argentino Carlos Menem, numa cerimônia na Casa Rosada, em Buenos Aires. Os versos da obra fundadora teriam sido escritos (os indícios são relevantes) pelo escritor argentino José Hernández durante seu exílio em Santana do Livramento, entre abril de 1871 e fevereiro de 1872.

O manuscrito de páginas amareladas foi doado ao Museu Histórico Nacional pelo empresário Pedro Simoncini. Num assomo de generosidade patriótica, Simoncini decidiu comprar a caderneta de um certo Hugo Castello, que pretendia vendê-la a uma universidade americana. O texto, escrito à mão por Hernández, chegou às mãos da família Castello depois de percorrer um longo e obscuro caminho em que, acredita-se, escapou milagrosamente do desaparecimento. Sabe-se que, ainda no século passado, Hernández deu o caderninho de presente a uma dama de sobrenome Delgado (possivelmente a mulher do capitão oriental Juan Gallego, que tinha residência em Livramento). Ela teria conservado a relíquia durante muitos anos dentro de um baú.

"La ida", Rodolfo Ramos, reprodução/ZH

Além de oito dos 13 cantos iniciais da primeira parte de Martín Fierro, o manuscrito revela uma preciosidade até então virtualmente desconhecida. Em suas primeiras páginas, Hernández escreveu uma série de poemas de amor, comprovando o comportamento romântico descrito nos raros depoimentos sobre sua presença em Livramento. Numa reportagem publicada em 6 de outubro de 1940, no jornal portenho La Prensa, J. M. Fernández Saldara assegura que o filho de Pedro Garcia, o espanhol que hospedou Hernández, lembrava-se do "ar apaixonado" do poeta. Também chamado Pedro, o filho de Garcia, octogenário na época, recordava-se de muitas vezes havê-lo escutado "cantar com versos acompanhando-se ao violão, matizando seus cantos com versos de filosofia".

"Espero que esta valiosa recuperação pública sirva para nos aproximarmos mais da filosofia tão argentina desta obra máxima da literatura internacional", declarou o sempre hiperbólico (desta vez com propriedade) Menem. No tom adequado ao Mercosul, o presidente argentino aproveitou para mencionar a militância política de Hernández e sua passagem pelo Brasil. Um fato, que, segundo ele, demonstra ter sido o escritor "um visionário total no processo de integração do continente americano".

"Conhecer nossos valores é conhecer-mo-nos como argentinos, e conhecer-mo-nos autenticamente como argentinos é a melhor maneira de construir a pátria, é a verdadeira e autêntica soberania. Assim entendia José Hernández", discursou Menem. E acrescentou: "O Martín Fierro é uma autêntica fonte de filosofia popular. Este manuscrito é uma importante peça histórica e literária que se integra ao patrimônio nacional".

A recuperação do manuscrito pode infundir ânimo na desmaiada campanha pelo tombamento da casa em que Hernández teria composto os primeiros versos de Martín Fierro. Atualmente, o movimento se resume às investidas isoladas do incansável historiador e jornalista santanense Ivo Caggiani. Em seu escritório, uma espécie de central da memória da cidade, Caggiani conserva, em arquivos de aço, uma extensa papelada sobre o poema, o poeta e sua residência em solo gaúcho. Mas, para a maioria dos habitantes, Hernández está inserido na paisagem, camuflado. Ninguém pára diante de seu imponente busto (doado pelo parlamento argentino em 1960, só inaugurado em 1966) na Praça General Osório, para reverenciá-lo. As placas alusivas encravadas na parede do histórico prédio têm aspecto ruinoso de uma resistência muda à devastação imposta pelo tempo e pelo esquecimento.

Caggiani diz que o solar está ameaçado. Duas vitrinas de lojas rasgam a fachada (ver texto abaixo). "Como não é patrimônio histórico, nem propriedade pública, o dono pode fazer o que quiser com a casa, inclusive demoli-la", adverte. A luta pelo tombamento do prédio esbarra no fato de não haver provas cabais de que Hernández tenha escrito os versos ali. Diante dessa recusa, Caggiani resolveu tentar um lance maior: entrou com requerimentos nos ministérios das Relações Exteriores do Brasil e da Argentina, pedindo a aquisição do imóvel por um dos governos. "O processo está emperrado", lamenta.

O relato de Pedro Garcia a Fernández Saldara é um dos argumentos empregados por Caggiani para sustentar que Hernández compôs os primeiros cantos de Martín Fierro em Livramento. "O importante das declarações de Belmira (irmã de Pedro, também citada pelo jornalista) e don Pedro ao argentino Fernández Saldara é que Hernández embaralhava as cartas de truco com versos de filosofia, que não são outra coisa que Martín Fierro, um livro de verdadeira filosofia".

Patrimônio ameaçado

A maioria dos transeuntes que passa pela esquina das ruas Rivadávia Correa e Uruguai, em Santana do Livramento, não levanta o pescoço para espiar três escurecidas placas metálicas presas à parede centenária da casa ali existente (fotos). Observadores mais atentos, porém, verão que os caracteres ensombrecidos prestam muda homenagem a um lugar histórico. Assinadas pela Sociedad Criolla de Rivera, pela administração municipal e pela embaixada argentina, elas assinalam o local onde ficou hospedado José Hernández durante a maior parte de 1871. Os outorgantes das honrarias compartilham a tese de que os primeiros cantos de Martín Fierro foram escritos num dos quartos do solar, que pertencia a um comerciante de gado chamado Pedro Garcia. A casa está hoje desfigurada. Na fachada, duas vitrinas foram abertas por butiques. No porão, funciona uma oficina de ventiladores.

Sergio Gonzales, especial/ZH