Personagens Luciana de Abreu  

Walter Spalding
Construtores do Rio Grande

Houve, em todos os tempos, a luta pelas aparências sociais, principalmente quando a frágil carne do homem se manifestava produzindo frutos estranhos à ordem estabelecida socialmente. E essas aparências, no geral, não recuavam diante de crimes, ora praticando o infanticídio abjeto e vil, ora criando situações que somente a caridade pública podia socorrer, ou aliviar ou remediar.

Encontramos, assim, constantemente nas atas das Câmaras Municipais, principalmente nas de Pôrto Alegre, referências a tais situações a que a mal entendida "pureza social" obrigava os "desvairados do amor", expondo em casas particulares, tardias horas da noite, nas portas, os frutos dêsses amôres ilícitos, que as atas registravam como "enjeitados".

E porque era constante o aparecimento de tais "pacotes" quer nas ombreiras dos solares das casas nobres, quer nas dos humildes moradores da Capital, criou a Câmara Municipal, aliás por lei nacional de Portugal nos tempos coloniais e do Brasil após a independência, um fundo especial para garantir a sustentação de tais "enjeitados". Mais tarde, em 1842, por um convênio especial tomou a si a Santa Casa de Misericórdia a sustentação dos filhos abandonados, criando a "Roda dos Expostos" regulamentando-a pelo "Regimento da Casa dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia da Cidade de Pôrto Alegre" - Mesa da Santa Casa, Pôrto Alegre, 1842, devidamente aprovado pelo Presidente da Província, de conformi-dade com o parecer da Assembléia Legislativa Provincial.

Era o meio de evitar os crimes abjetos de infanticídio a que a miséria social, de grandes e pequenos, "obrigava" àqueles que os pecados da carne desviavam do bom caminho e não tinham a coragem de apresentar em público os frutos de suas faltas ou desvarios.

Mas quantas e quantas vêzes, antes. da "Roda dos Expostos", homens casados recebiam em seu lar, clandestinamente, pela colocação de um "enjeitado" na soleira de sua porta, um filho conseqüência de amôres proibidos!

Por essa maneira, julgavam êles tranqüilizar a consciência entregando à própria espôsa legitimamente recebida aos pés do altar, o fruto extraconjugal exposto sorrateiramente, à noite, na porta de sua moradia.

O "Regulamento" da Roda dos Expostos dizia em um de seus artigos, que sempre que um "enjeitado" era ali colocado, devia quem o colocasse tocar a sineta a fim de chamar o guardião noturno e evitar que a criança ficasse, como nos tempos anteriores quando colocada na soleira das portas, exposta a noite inteira ao frio e à umidade e, não raro, ao perigo dos cães vadios. Em outro artigo, permitia que as crianças assim abandonadas, fôssem criadas por famílias, ou à sua custa ou a expensas da Santa Casa que para tal fim possuía verbas especiais, decretadas pelo próprio Estado.

Um dia, na frigida noite de 11 de julho de 1847, tiniu violentamente a sineta da Roda dos Expostos. O guardião, minutos depois,, retirava dela, bem agasalhada, uma menina recém-nascida, rechonchuda que, como as demais, foi colocada no berçário após ser examinada, pois podia acontecer, como já acontecera, que em suas roupinhas existisse algum documento dizendo que já fôra batizada, ou algum pacotinho com dinheiro para ser entregue ao enjeitado quando casasse ou quando maior.

Na roupinhas dessa menina, entretanto, nada havia. Viera sem um vestígio de carinho outro do que as roupas bem cuidadas e limpas. Deram-lhe na pia batismal o nome de Luciana.

Dias depois, percorrendo o berçário, foi a menina Luciana escolhida pela caritativa espôsa do modesto Guarda-Livros da casa comercial de Pôrto Irmãos, Sr. Gaspar Pereira Viana, que se propôs criá-la e educá-la.

Casal virtuoso, modesto mas ativo, foi a menina crescendo educada e inteligente, tanto que, sem dificuldade alguma estudou as primeiras letras, destacando-se pela vivacidade e pronta solução aos problemas que lhe eram apresentados. Possuía um gôsto especial no trato de crianças, na direção de brinquedos, - o que hoje chamaríamos de vocação para líder, - e dedicação extrema aos estudos e para as letras, rabiscando historietas logo que terminou os estudos primários e, dizem, até um "romance" começara a escrever. Isso levou os pais adotivos da menina Luciana a mais e mais se interessarem por ela que era, na realidade, uma menina encantadora, inteligente, cheia de bondade e até mimada não só pelos pais adotivos como pelas famílias vizinhas que muito a estimavam. Apesar dêsses mimos, das referências constantes à sua inteligência, jamais Luciana modificou seus hábitos modestos e bondosos. Foi sempre a mesma até a morte.

Quando estava com dez anos, mais ou menos, foi crismada pela espôsa do Comendador Israel Soares de Paiva que tinha encantos pela menina.Terminados os estudos primários, primeiro com a Professôra dona Miguelina Ferrugem e, ao final, com a Professôra dona Henriqueta de Andrade, dedicou-se com acendrado amor à leitura com o fim de aprofundar seus conhecimentos. Lia. Lia muito e seus pais adotivos que a adoravam, tudo faziam para conseguir-lhe, principalmente por empréstimo, bons livros. E assim no remanso da famllía que a adotara e tão carinhosamente a vinha tratando, Luciana se fêz môça, e môça prendada, pois que não apenas sabia muito em matéria de educação literária e artística, mas também tudo quanto se referisse às prendas domésticas, desde a costura à arrumação da casa e à cozinha.

Mas um dia, mal completara vinte anos, vencida pelo amor, foi solicitada em casamento. O pretendente, môço trabalhador e dedicado, foi de logo aceito e a 28 de setembro de 1867 casava com João José Gomes de Abreu, que desde menino vinha rondando a encantadora Luciana, tão meiga, tão dedicada, tão inteligente.

E foram felizes. Ainda não se completava um ano de casada quando a Providência a agraciou com uma filha a que deu o nome de Maria Pia.

Entretanto, o aparecimento de sua primeira filha trouxe-lhe, também, o desejo ardente de se dedicar ao professorado não só porque gostava e tinha, realmente, vocação, como para auxiliar as finanças familiares.

Entrou, por isso para a Escola Normal criada em 1869 e, concluído o curso, após algumas dificuldades, conseguiu ingressar no magistério provincial.

Em 1868 fôra criado o Partenon Literário pelo Dr. José Antônio do Vale Caldre e Fião e um grupo de companheiros, entre os quais Apolinário José Gomes Pôrto Alegre, uma das grandes culturas de seu tempo, e José Bernardino dos Santos, poeta, romancista e dramaturgo.

Luciana de Abreu, que se vinha distinguindo nos meios culturais e nos saraus literários, que se realizavam seguidamente em casas particulares, foi de logo convidada, sendo a primeira mulher a entrar, no Brasil, para uma sociedade literária. Mas não só isso: manifestou-se oradora de grandes dotes, mas, infelizmente, de seus discursos poucos se salvaram, pois a maioria dêles eram feitos de improviso e somente uma que outra de suas brilhantes dissertações ficaram registradas em pequeníssimos e inexpressivos resumos. Apenas três foram publicados na íntegra nas páginas da Revista Trimestral da Sociedade Partenon Literário.

Foi, assim, também a primeira mulher que subiu à tribuna para expor suas idéias, entre as quais a da emancipação da mulher. Das suas preleções neste sentido, salvou-se uma pronunciada em 1875, por ocasião do 7 aniversário do Partenon Literário, e publicada na Revista em seu 4 ano, junho de 1875. Outro que se salvou foi o pronunciado em 1873 e publicado na referida Revista em seu n 12 - 21 série - 2 ano - dezembro de 1873. O primeiro citado trata exclusivamente da emancipação da mulher, e o segundo é um bonito trabalho sôbre a educação das mães de família. O terceiro recolhido na íntegra, foi pronunciado por ela como oradora do Partenon Literário na sessão comemorativa do ll.' aniversário da sociedade, publicado na respectiva revista em seu n.' 3, da 4" série, em junho de 1879.

Nesse discurso, confirmando suas idéias emancipacionistas da mulher, dizia ela:

"E vós, senhoras brasileiras, que reunis à beleza plástica uma vasta inteligência e um terno coração, não quereis que pulse êle ao amor das letras e da glória nacional? - Ontem, proscritas da ciência e consideradas apenas meros ornatos dos salões, deu-vos o Partenon um lugar de honra no banquete do progresso. Hoje, que a voz autorizada de Andrada se elevou no parlamento nacional em prol de vossos foros, estreai no Partenon o uso de vossos direitos".

Já por êsse tempo, além de Maria Pia, mais um filho lhe nascera - Teófilo, e já a consagração de todo o Partenon Literário a aureolara de louros, numa sessão consagrada especialmente a ela, em 1874, quando se fizeram ouvir as vozes de José Antônio do Vale Caldre e Fião e a de José Bernardino dos Santos e um poema de Maria José Coelho que termina com esta quadra:

"0 que disse Luciana altiva, no pátrio seio recolher-se irá, aberta a porta para nós das letras, a mulher livre entre nós será".

Professôra emérita, consagrada por mestres e discípulos, teve vida muito breve: aos trinta e três anos de idade, cheia ainda de esperanças, de projetos e anseios, fechava os olhos para o mundo, vítima de insidiosa tuberculose, conforme consta do atestado de óbito, a 13 de junho de 1880.

Pôrto Alegre consagrou-a dando seu nome a uma rua e a Secretaria da Educação e Cultura a uma escola, o G. E. Luciana de Abreu, sito à avenida João Pessoa, esquina da rua Venâncio Aires.

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