Confira os principais títulos publicads por Dante de Laytano:
- 1931 - Uma Mulher e Outras Fatalidades
- 1936 - História da República Rio-grandense
- 1937 - Notas de Linguagem Sul-Rio-Grandense, a Fala do Gaúcho (tese apresentada no 1o Congresso de Língua Nacional Cantada)
- 1940 - Os Portugueses dos Açores - A Consolidação Moral do Domínio Lusitano no Extremo Sul do Brasil (tema exposto no 3o Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense)
- 1945 - Bibliografia do Rio Grande do Sul - Obras de Literatura, Poesia
- 1961 - Pequeno Esboço de um Estudo do Linguajar Gaúcho-Brasileiro
- 1979 - Manual de Fontes Bibliográficas para Estudo da História do Rio Grande do Sul
- 1981 - A Cozinha Gaúcha na História do Rio Grande
- 1981 - O Linguajar do Gaúcho Brasileiro
- 1983 - Origem da Propriedade Privada no Rio Grande do Sul - séculos 18 e 19
- 1984 - Foclore do Rio Grande do Sul
- 1986 - Mar Absoluto das Memórias
- 1987 - Arquipélago dos Açores
- 1988 - Presença Calabresa - Projeção Histórica de Morano Cálabro
Entre inúmeros cargos, o foclorista, historiador e professor
porto-alegrense foi presidente de honra da Academia Rio-Grandense de Letras
banco de dados/ZH
Um mestre generoso
Dante de Laytano mostrava-se invariavelmente simpático
e disponível na ajuda a pesquisadores
Antonio Hohfeldt
Coordenador do programa de
Pós-Graduação da Famecos/PUCRS
Natural de Porto Alegre, formado em Direito, tendo desempenhado inúmeras funções administrativas no âmbito estadual e federal, Dante de Laytano foi, antes e acima de tudo, professor e pesquisador.
Dificilmente aqueles que passaram pelo Instituto de Filosofia da UFRGS, aqueles que se dedicaram à História, em especial do Rio Grande do Sul, os que desenvolvem pesquisas em campos tão variados quanto o folclore, a historiografia, a literatura ou a confecção de dicionários deixam de ter uma dívida com o grande mestre. Acima de tudo, Dante de Laytano soube esbanjar e repartir simpatia e disponibilidade, sobretudo para os jovens que se iniciavam naqueles campos em que atuava.
Presidente de Honra da Academia Rio-Grandense de Letras, membro honorário do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, cronista, historiador, sociólogo, crítico literário, dramaturgo e genealogista, Laytano se desdobrava por um número quase infinito de áreas.
Não há como se pensar os estudos sul-rio-grandenses sem referir sua contribuição fundamental e às vezes genial. Basta lembrar obras como Os Africanismos do Dialeto Gaúcho, O Negro e o Espirito Guerreiro nas Origens do Rio Grande do Sul, A Fala do Gaúcho, Os Portugueses de Açores na Consolidação do Domínio Lusitano no Extremo Sul do Brasil, para citar alguns de seus trabalhos pioneiros, abrindo campos de pesquisa que, se hoje em dia são comuns, nas décadas em que foram desenvolvidos por ele eram absolutamente inéditos.
Especificamente no campo da história, seus livros como História da República Rio-Grandense, História da Propriedade das Primeiras Fazendas do Rio Grande do Sul, O Folclore no RIo Grande do Sul, dentre outros, são atuais ainda hoje.
Dante de Laytano atuou, além do mais, como tradutor, por exemplo, da Viagem ao Rio Grande do Sul, de Arsène Isabelle, ou Antes do Almoço, monólogo de Eugene O'Neill, tendo descoberto ainda textos originais inéditos de escritores do século 19, como a novela Patuá, de Carlos Jansen, sobre a qual, na ocasião, desenvolveu extenso estudo.
Não deixou ele de experimentar a produção literária, com um livro de contos, em 1931, além de uma comédia estreada pelo Grêmio de Amadores Teatrais do Colégio São Luís, de Porto Alegre, no distante ano de 1926, ecrevendo ainda para o teatro, naquela época, Por Causa do Retrato, Nos Jardins da Vida e Crisântemus.
Responsável pelo Gabinete Português de Leitura ao longo de muitos anos, publicando a Revista do Museu e Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, respondendo pelo Boletim Bibliogr´fico da Biblioteca Central da UFRGS, Laytano era um estupendo causeur, sempre pronto a uma história e a uma piada, com espírito extremamente crítico mas, ao mesmo tempo, uma imensa empatia para com as coisas da cultura e os seres em geral.
Por tudo isso, sobem a centenas os textos ainda não reunidos - porque dispersos em revistas, páginas de jornais e anotações de seus arquivos pessoais - que aguardam publicação. A morte física de Dante de Laytano, enorme perda para o Rio Grande, compensa-se, de certo modo, pela certeza de que tudo o que produziu não estará perdido.
Sua família, aliás, tem plena consciência disso, e é de se esperar que, em breve, possa-se dar conhecimento de todo esse conjunto magnifíco de dedicação à causa do Rio Grande, que esse descendente de italianos, tão identificado com o universo açoriano e
gauchesco, nos deixou como herança.
Feito de uma cepa cordial
Paulo Hecker Filho
Escritor
Simpatizei de cara com ele, e quem não?
Tinha o sorriso aceitador e o papo aproximativo dos gordos, embora não exagerasse no peso.
Um dia lhe citei Simões Lopes Neto e ele confundiu que o punha acima do grande contista. Pois não é que lhe escrevi que se enganara feio... E quando dizem que sou imperdoável, ainda me queixo... A vaidade é universal, e na exposição do eu pela literatura, facilmente se torna obsessiva.
E afastamentos na província tendem a durar toda a vida. Mas, monstrando a cepa cordial com que Dante estava feito, depois de uns 15 a 20 anos, é verdade, soube receber a minha constante simpatia e conversa.
A simpatia crescia quando Guilhermino César e outros professores da faculdade, seus colegas, por razões lá deles, passaram a gozar do seu lado aproximativo. Ele não ficava assistindo não. Lembro de uma defesa sua numa festa:
- E a rainha da Holanda, o que é que acha?
Generoso, mas já se vê que sabendo ser dureza como qualquer outro.
Literariamente, foi levado em consideração no início nada menos que pela cabeça das letras nacionais da época, Mário de Andrade. E bem que eu gostaria de conhecer Uma Mulher e Outras Fatalidades, de 1931, em que já o título é um acerto, ou a crítica de Colecionador de Emoções, de 1934, comentada por Mário. Tirei disso até a idéia de Dante ser provavelmente um exemplo do que ocorre na província: começar bem e a falta de ressonância e diálogo ir reduzindo as ambições e o talento. Quando há público, esse instiga o escritor, que escreve cada vez melhor, como ao menos excepcionalmente é possível em Porto Alegre, e é o caso dos dois Verissimos e do Moacyr Scliar.
Dante de Laytano continou publicando bastante, mas o pouco que tive oportunidade de ler não me levou a prosseguir. Se bem que há de ter páginas boas em tantas editadas, inclusive pela lei das probabilidades. Por ora, fico com o falso gordo que conheci e apreciava as mulheres e instituia prêmios literários com o nome da esposa e ria, embora verde, diante das restrições, e se abria a quem se aproximasse e conversava comigo além da literatura e mesmo da vaidade.
(Nota do Cohen: Oigalê, texto xucro este último... contudo, não me cabe censurar ou despedaçar matérias, de tal forma que permanece).