Décio Freitas

A morte do lobo solitário

Décio Freitas, um dos maiores intelectuais gaúchos, há tempos havia deixado para trás essa limitação, a de ser um intelectual "gaúcho". Era um defensor das minorias, profundo conhecedor da história do Brasil, de norte a sul, literalmente. Publicou livros seminais, deixando uma obra de valor inestimável tanto para o jornalismo como para a pesquisa histórica - apesar de nunca ter sido um acadêmico e de enfrentar resistências na universidade por ser um historiador autodidata. Sua morte, na madrugada de 9 de março, deixou saudades nos amigos e um vácuo no pensamento da história do Brasil

Em Montevidéu, as conversas atravessavam a galope as longas noites do exílio, cruzando fronteiras imaginárias e dando saltos no tempo, para desafogar a saudade do Brasil. Os principais líderes do antigo PTB, como João Goulart e Leonel Brizola, debatiam todas as formas possíveis de lutar contra o regime militar. Em uma reunião, surgiu a idéia de que era preciso descobrir um verdadeiro herói nacional, para neutralizar a invasão de símbolos estrangeiros, principalmente dos EUA. Para a roda de exilados brasileiros na capital uruguaia, na década de 60, a figura de Tiradentes não cumpria o papel desejado. Buscavam mitos ainda mais enraizados na cultura popular, que poderiam se transformar em verdadeiros heróis, se alguém provasse que eles, de fato, existiram como criaturas de carne e osso, e não apenas como lendas.

Coube a Décio Freitas - historiador, escritor, militante político, jornalista e advogado, que morreu de ataque cardíaco, no dia 9 de março, em Porto Alegre, aos 82 anos - a tarefa de comprovar a existência da figura histórica de Zumbi, herói do Quilombo dos Palmares, nos Altos das Alagoas, entre 1630 e 1694. Até então, havia o consenso de que Zumbi remetia a diferentes guerreiros, como se a palavra designasse o posto de general ou comandante. Em duas viagens clandestinas ao Nordeste, Décio refez as pegadas do maior líder negro do Brasil. Mais tarde, completaria a investigação em Portugal, recolhendo dados no Instituto dos Arquivos Nacionais Torre do Tombo, além de obter informações na Holanda.

No rastro das revoltas populares

0 resultado da pesquisa veio a público, em 1971, com Palmares - A Guerra dos Escravos (Movimento, 1971), lançado antes no Uruguai, com o título de La Guerrilla Negra (Nuestra America). "É um livro seminal, que provocou uma onda de publicações sobre a história da escravidão no Brasil e também sobre as lutas populares daquela época. Ele também foi o responsável por servir de lastro aos movimentos negros, que ganharam fôlego depois da difusão de Palmares", afirma o historiador Voltaire Schilling, que conviveu com Décio por mais de 30 anos.

0 pesquisador desvendou vestígios de revoltas populares em várias regiões do país. "Que eu saiba, era o único intelectual gaúcho que dominava a história do Norte e do Nordeste. 0 mesmo pode-se dizer dos conhecimentos que amealhou sobre a África e os africanos em geral", atesta Schilling. Pouco antes de morrer, Décio havia entregado à Editora Record os originais de seu próximo livro, A Miserável Revolução das Classes Infames. Nele, recompõe a história da Revolta da Cabanada, deflagrada em Belém do Pará por negros, sertanejos e índios (moradores de cabanas), contra a exploração portuguesa, em 1835. Segundo a Record, não há data prevista para o lançamento.

No livro, inédito, Décio segue o roteiro de cartas do bretão Jean-Jacques Berthier endereçadas ao irmão Guillaume, após ser deportado da França e trancafiado em masmorra na Guaiana Francesa. Berthier escapou da prisão e se refugiou no Pará, onde vivenciou a insurreição popular. 0 método de adotar cartas e diários como roteiro de suas investigações aparece também em 0 Homem Que Inventou a Ditadura no Brasil (Sulina, 1998), baseado no relato de um jornalista norte-americano que visitou Porto Alegre na véspera da Revolução de 1893. 0 título se refere a Júlio de Castilhos, que encarna - aos olhos do repórter e de Décio - a oligarquia conservadora que dominava a política gaúcha. A idéia do historiador é que, com Getúlio Vargas, discípulo de Castilhos, o estilo autoritário dos caudilhos do Sul foi adotado em escala nacional.

Um polemista nato

Com 14 livros publicados, a obra de Décio Freitas tem a marca da audácia e da polêmica. Historiador autodidata (é forma do em Direito), o intelectual viveu constantes atritos com acadêmicos, que o condenavam por não ter diploma. "A produção intelectual de Décio poderia ser apresentada como tese de doutorado em qualquer lugar do mundo, porque tem tudo o que é essencial na atividade do historiador, desde o rigor da apuração em fontes primárias até provas documentais", diz o escritor e jornalista Juremir Machado da Silva [leia quadro adiante]. Para Voltaire Schilling, "Décio era um 'lobo solitário', pensava e escrevia sem amparo de ninguém, sem apelar para fundações ou precisar de bolsas".

Uma das últimas polêmicas se deu nas páginas de Zero Hora, após publicar artigo com críticas a dois professores de Filosofia da UFRGS (Ernildo Stein e Denis Rosenfield), do MST. Com direito a réplica e tréplica, em nenhuma linha Décio citou o nome dos professores. Sem papas na língua, tinha o hábito de contestar o que bem entendesse, mas debatia idéias, sem insultos pessoais. Em que pese apreciar a vocação de polemista de Juremir Machado, não cansava de recomendar cautela ao amigo: "As pessoas brigam e nenhuma convence a outra, mas alguém sempre se fere, fica malvisto ou perde o emprego", resumia Décio.

0 senso do trágico

0 estilo da escrita de Décio - mescla de história e jornalismo - era um dos pontos de discórdia com acadêmicos. Ele tinha ojeriza a notas de rodapé e usava frases curtas em ordem direta. Possuía o sentido do trágico ao vasculhar notícias cotidianas, como o crime da Rua do Arvoredo, célebre passagem policial da Porto Alegre do início do século 20, que transformou no livro 0 Maior Crime da Terra (Sulina, 1996).

0 faro de jornalista ele adquiriu na década de 40, quando foi repórter do Correio do Povo e do Diário de Notícias - escreveu arti gos também para a revista Continente de São Pedro. Com Dyonélio Machado, fundou a Tribuna Gaúcha, primeiro diário gaúcho de esquerda. Entrevistou figuras como Getúlio Vargas, Borges de Medeiros e Flores da Cunha. Com o primeiro, passou longos dias e noites conversando nas fazendas de Santos Reis e Itu, em 1946. A cada manhã, Décio transcrevia os diálogos para que o ex-presidente corrigisse eventuais equívocos com o próprio punho. Tinha planos de publicar um livro reunindo as entrevistas, com o título de Conversações com Getúlio Vargas, mas não teve tempo para isso. "Os intelectuais gaúchos não produzem reflexões sobre o Brasil. 0 sentimento separatista e o irredentismo agem no Rio Grande do Sul, inconscientemente e incontestadamente" DÉCIO FREITAS, NA APLAUSO 2 (1998)

Outro projeto interrompido é o da curadoria do banco de dados da Fundação Iberé Camargo, que formou uma equipe por Décïo para reunir informações e colher depoimentos sobre a vida do pintor. "A abertura para as artes plásticas é uma característica rara entre historiadores brasileiros", aponta o professor do Instituto de Letras da UFRGS, Sergius Gonzaga. Arredio às vanguardas, Décio se aproximou da arte contemporânea pelas mãos do amigo e confidente Iberê. Na literatura, também as experimentações o desagradavam. Tinha grande estima pelos autores hispano-americanos e admirava Gore Vidal. Preferia, no entanto, clássicos do século 19, como Balzac.

Uma vida amorosa rocambolesca

No tradicional almoço das quintas-feiras, no restaurante Copacabana, costumava deliciar os amigos com histórias que oscilavam entre o patético, o melodramático, o grotesco e o sublime. "A versão de uma história não era exatamente a mesma um ano mais tarde. A maior parte era proibida para menores", conta Gonzaga. Como a do homem com dois pênis, que Décio relatou, certa vez, ao cineasta Cacá Diegues, de quem foi consultor no filme Quilombo, em 1984.

Apesar do talento de reinventar histórias, Décio nunca se aventurou pela ficção. Os amigos tentaram convencê-lo a escrever suas memórias, mas ele recusou, alegando que provocaria escândalo. Além disso, todos concordam que, sem sua dicção e tom de voz, elas perderiam a graça. Com uma vida pessoal rocambolesca, jamais terminou uma relação amorosa por tédio, e sim com sobressaltos e fortes emoções, afirma Gonzaga. Como a maior parte dos jovens portoalegrenses da década de 40, aprendeu a arte da sedução em cabarés com prostitutas polacas, judias, francesas e argentinas.

"A historiografia dos Farrapos não é crítica. Há uma massa enorme de documentos que nunca foi utilizada pelos historiadores. Por quê? Porque os historiadores têm medo de mexer em verdades estabelecidas" DÉCIO FREITAS, NA APLAUSO 46 (2003)

Exímio dançarino, gabava-se de ter aprendido tango com as amigas dos prostíbulos. "Décio dominava todas as manhas da sedução anteriores à revolução dos costumes dos anos 60. Ante a presença feminina, sua voz se adoçava e se alongava como um veludo. Neste ponto, era inexcedível", diz Gonzaga.

Aos 82 anos, era um homem robusto, que aparentava estar na faixa dos 60. Usava bengala e estava sempre fumando. Há mais de 15 anos, soube que tinha enfisema pulmonar. Desde então, alternou períodos em que assumia a incapacidade de largar o vício com outros em que, oficialmente, havia parado de fumar, embora acendesse cigarros escondido da mulher - a jornalista Bernardete Rodrigues, 40 anos - e da filha Helena, fruto do primeiro de quatro casamentos. Juremir chegou a mandar chicletes de nicotina de Paris, nos anos 90, mas o tiro saiu pela culatra. "Ele mascava os chicletes e continuava fumando, intensificando o efeito da nicotina", lembra o amigo.

Um jovem dirigente comunista

No final da vida, mostrava-se amargurado e não raras vezes colérico com a situação política do país. Criticava a "falta de imaginação" do governo Lula, afirmando que o PT "plagiou" a política econômica de FHC. De quatro ou cinco anos para cá, sentiu-se atraído pelas múltiplas facetas de Getúlio Vargas, que sempre admirou como gênio político, mentor da modernização econômica e social do país e criador das leis trabalhistas, embora no passado tivesse criticado seu autoritarismo. "Falar em Getúlio virou cacoete dele. Mencionava-o ou citava-o sempre", conta Voltaire Schilting. Na verdade, refugiara-se num Vargas mítico, nacionalista e oposto à globalização comum atualmente.

Décio foi comunista de carteirinha e um dos mais jovens dirigentes do PCB. Quando as arbitrariedades de Stalin foram denunciadas, em 1956, afastou-se da militância. Entretanto, o método de análise do historiador permaneceu preso à matriz marxista até a queda do Muro de Berlim. "Aí, sim, ele mudou. Tanto que a esquerda passou a classificá-lo como anarquista ou liberal. Seus últimos livros contam a história social do cotidiano, que os marxistas acadêmicos tratam como futilidades", diz Juremir.

Parte dos comunistas desiludidos da época desaguou no trabalhismo de Brizola, que tinha apelo popular, mas era carente de quadros intelectuais. Em 1961, com a renúncia de Jânio, Jango assumiu a presidência da República e nomeou Décio procurador-geral da Fundação Brasil Central, que atuava em uma área de mais de 2 milhões de km2. "Não tínhamos poder de fogo para denunciar o contrabando de mogno, cassiterita e manganês, que continua até hoje", lamenta Omar Ferri, advogado da fundação na época. Eram conterrâneos - Décio foi a segunda pessoa de Encantado (RS) a se formar em Direito; Ferri, a terceira.

0 apito do final do recreio

Após o golpe de 1964, o historiador se escondeu por dois meses, em São Paulo e no Rio, até se exilar em Montevidéu. Já Ferri fez o papel de "pombo-correio", levando notícias do Brasil aos líderes do PTB exilados no Uruguai. 0 advogado ia de ônibus a Jaguarão, cruzava a ponte da divisa entre os dois países e tomava o trem para Montevidéu. Lá, muitas vezes, usava o pijama de Brizola para pernoitar no apartamento de Décio. "Saía com a roupa do corpo, sem avisar sequer à minha mulher", justifica Ferri.

Décio voltou ao país nos anos 70. Retomou a banca de advocacia e passou a defender presos políticos, além de atuar em causas trabalhistas. "Como advogado, era um orador magnífico, com domínio espetacular da língua portuguesa e grande força persuasiva, conforme a velha tradição bacharelesca, segundo a qual a principal virtude no Direito é a qualidade da retórica", resume Gonzaga. Aposentou-se graças aos anos de advocacia e aos do exílio, também computados como tempo de serviço. Até o final da vida, a aposentadoria de procurador-autárquico (hoje procurador federal) seria sua principal fonte de renda.

A importância de Décio Freitas transcende sua irrequieta obra. Como presidente do Conselho Estadual de Cultura, nos anos 80, foi um dos principais artífices da criação da Secretaria de Estado da Cultura. Seu nome ainda é venerado pelos movimentos negros, como ressalta Estelamar Menezes, do Centro Cultural Raízes da África, entidade que celebra a cultura afro-brasileira, com sede no bairro Nonoai, em Porto Alegre. Com a morte de Décio, "perdemos a consciência crítica do Rio Grande. 0 apito que sinaliza o final do recreio, como quem diz: Chega de brincar, pessoal, vamos pensar", conclui o poeta e publicitário Luiz Coronel.

Por Juremir Machado da Silva

* Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS, jornalista e escritor, autor de Anjos da Perdição, Futuro e Presente na Cultura Brasileira (Sulina, 1996)

Décio Freitas foi o maior historiador que o Rio Grande do Sul já teve. Um dos maiores do Brasil. Certamente o mais importante historiador brasileiro da cultura negra. Não vai aqui nenhum elogio fácil por ser póstumo. É somente uma convicção. Passível de ser demonstrada. Sem Décio Freitas, a extraordinária história de Zumbi e de Palmares continuaria no fundo dos arquivos portugueses. Com ele, a história dos vencidos entre os vencidos, os escravos, ganhou uma nova narrativa e um tom mesclado de épico e de cotidiano.

A grande arte do historiador Décio Freitas foi aliar o extremo rigor científico no tratamento das fontes - privilegiando a pesquisa em arquivos, espinha dorsal do trabalho de um historiador, busca da fonte primária - a um texto claro, elegante, sedutor e frontal. Décio nunca teve medo das polêmicas de idéias. Sempre recusou o confronto pessoal estéril. Exumava documentos para dar-lhes uma coerência teórica. Jamais se limitou a enfileirar papéis ou a compilar autores, prática de copiar e colar que o repugnava. Buscava dados novos e novas teorias que pudessem explicá-los. Seu credo era a verdade possível com a originalidade que faz da vida intelectual o sal da existência e da cultura.

Admirador do estilo de historiadores como Fernand Braudel e Pal Veyne, Décio Freitas causava um certo tremor nos positivistas quando afirmava que a história é uma narrativa, uma reconstrução do passado pelo olhar do presente, uma seleção, um recorte, uma forma de "ficção" sem mentira. Nessa percepção da história como texto, típica dos mais sofisticados intelectuais da chamada "desconstrução", não se esconde nenhuma defesa da falta de rigor. Ao contrário. Tratase de um mecanismo para desvendar as ilusões e os mitos da objetividade, da verdade total e do "fato cru".

A história positivista acreditava na verdade absoluta do "documento". Décio Freitas sabia que todo "documento" é produto de uma época, de uma classe, de uma pessoa, de uma visão específica. 0 documento é uma "versão" dos fatos. Versão que será "lida", interpretada e inserida numa grade teórica explicativa por um historiador, produto da sua época, influenciado por sua ideologia e por seu imaginário. Construção, portanto, de novas versões sobre versões anteriores. Nada disso leva ao culto da falsidade ou ao ceticismo absoluto. Instaura um novo rigor, uma "epistemologia da suspeita". Décio Freitas era o historiador do "por quê?", não o cronista do simplesmente quando e onde.

0 valor de Décio Freitas como historiador não pode ser medido nem pela sua aceitação nas fortalezas acadêmicas nem pela sua re percussão nos veículos da indústria cultural, embora tenha tido os dois. Foi reconhecido por grandes intelectuais acadêmicos e adulado por uma parte substancial da mídia. Mas, essencialmente, a sua importância está nas entranhas da sua obra e emerge quando abrimos os seus livros. Nos últimos anos, praticava a mais fina e rigorosa "história do cotidiano" (conjunto de procedimentos de pesquisa e de narração histórica no qual os franceses são os grandes mestres), em descrições emocionantes como 0 Maior Crime da Terra e 0 Homem Que Inventou a Ditadura no Brasil.

Décio Freitas sempre foi um homem de muitas histórias e de algumas lendas. Foi também um causeur, um virtuose da arte da con versação. Acima de tudo, porém, colocou todos os seus instrumentos e armas - os conhecimentos jurídicos, o jornalismo, a sedução, a capacidade de diálogo, o gosto pela política, o viés de antropólogo, a convivência com "os grandes" da política nacional - a serviço da pesquisa e da narrativa da história. Os jornais Folha de S. Paulo e 0 Globo, em notas sobre a sua morte, destacaram a perda do historiador dos vencidos. Era um dos últimos representantes de uma época de grandes intelectuais capazes de pensar a nação, o Brasil, o global, a identidade, uma certa essência. Entre os quais, Raymundo Faoro, falecido em 2003, para quem sugeriu o título da obra-prima Os Donos do Poder. Sem ele, outra vez, o Rio Grande do Sul ficou menos cosmopolita.

Origem: Extraído da revista APLAUSO, ano 6, número 54 de 2004.

APLAUSO é uma realização da Plural Comunicação dirigida à divulgação e ao debate de iniciativas artísticas e culturais criadas ou produzidas no Rio Grande do Sul.

Editado por Roberto Cohen em 15/07/2004.