Bento Manuel Ribeiro

Significação histórica

Prestou relevantes serviços militares, de soldado a marechal do Exército Imperial, à Integridade e Soberania do Brasil, colónia e independente, nas guerras do Sul de 1801, 1811-12, 1816 e 1821, 1825-28 e 1851-52, onde se firmou entre as maiores espadas de seu tempo. Foi militar de raros méritos como estrategista, tático, profundo conhecedor do terreno e grande capacidade de nele orientar-se.

Possuiu grande capacidade de liderança em combate e de bem combinar Infantaria e Cavalaria, além de conhecimento apreciável da psicologia de seus homens e dos adversários.

Durante a Revolução Farroupilha, em função de seu temperamento singular, interesses e segundo Sanmartim, mentalidade "mais caudilhesca do que militar", por seguir as suas próprias regras, ao invés das dos governos que serviu, adotou posições até hoje controvertidas e a aparentemente inexplicáveis. Isto, ao combater, ora ao lado dos farrapos, ora ao lado dos imperiais, mas sempre desequilibrando, acentuadamente, o prato da balança, em favor da causa que defendia. Inicialmente como farrapo, depois como imperial, novamente como farrapo e, finalmente, depois de mais de dois anos de neutralidade, lutou pelo Império até o final da Revolução, "como vaqueano-mor de Caixas".

Por esta razão, entrou para a História do Rio Grande do Sul como a mais controvertida personalidade do ponto de vista político e psicológico, com defensores a explicar seus gestos e acusadores impiedosos, até na poesia popular da época.

Mas é Bento Manuel um raro caso histórico de alguém que iniciando a vida como pião de estância e soldado miliciano por excepcionais méritos militares e pendores comerciais, tenha atingido o posto de marechal do Exército Imperial e general da República e acumulado enorme fortuna, cercada, inclusive, pela lenda gaúcha da Salamandra do Jarau, local da estância do bem-sucedido paulista de Sorocaba.

Seu biógrafo Olhynto Sanmartim e o general Souza Docca o ensaiaram do ponto de vista psicológico. Fornecem dados interessantes para os psicólogos explicarem melhor Bento Manuel no Tribunal da História e, particularmente, sua segunda adesão à República Rio-Grandense, fato que teria merecido de um seu filho este desabafo:

"Foi uma nódoa na família que não se lavará com toda a água do Ibirabiutã." H1>Naturalidade, ascendência e perfil militar

Bento Manuel nasceu em 1783, filho do tropeiro Manuel Ribeiro de Almeida, na histórica cidade dos tropeiros, Sorocaba-Sâo Paulo. Com 7 anos veio para o Rio Grande como piá da estância do major Antônio Adolfo Charão (corruptela Scharam), em Rio Pardo. O major Charão era dos Dragões do Rio Pardo e natural do Rio de janeiro, filho do médico alemão João Adolfo Scharam e casou com a filha do mineiro João Carneiro da Fontoura, então capitão dos Dragões de Rio Pardo, com ilustre descendência.

Assim, aos 18 anos, nas fileiras do citado regimento que ingressara como soldado raso em 1800, teve início a cintilante e muito movimentada carreira de Bento Manuel que durou 54 anos e que foi encerrada no posto de marechal do Exército Brasileiro.

Bento Manuel pelo lado materno descendia do bandeirante Anhanguerra e do português João Ramalho e, pela linha paterna, de Pedro Taques. Ligado à família Bueno, de Amador Bueno que fora proclamado rei de São Paulo, segundo se conclui de Olhynto Sanmartim. Pelos Bueno ligava-se por parentesco a Antônio Netto, ambos assim de boa cepa.

Bento Manuel casou em 15 de setembro de 1807, em Caçapava do Sul, atual, com Maria Mâncio da Conceição.

Deste consórcio nasceram 11 filhos (5 mulheres e 6 homens). Sua filha, Benevenuta, casou com o pernambucano, mais tarde general Victorino José Carneiro Monteiro e Barão de São Borja, do qual descendia o general Bento Manuel Ribeiro Carneiro Monteiro, destacado Chefe do Estado-Maior do Exército que criou a Missão Indigena da Escola Militar de Realengo, em 1919.

Nas guerras do Sul 1801-1824

Em 1801, ao comando do coronel Patrício Correia Câmara, tomou parte, corno soldado de Milícias ao lado dos Dragões, da expulsão dos espanhóis de Batovi (São Gabriel primitivo), fortaleza de Santa Tecla (reocupada) e da concentrarão defronte o passo N.S. da Conceição do Jaguarão (Centurión) para fazer frente a uma possível reação do Marquês de Sobremonte, governador de Montevidéu, contra a expansão do território, do Piratini ao Jaguarão.

Em 1808 foi promovido a furriel de Milícias. Mas voltou-se também para a conquista da fortuna o que conseguiu ao final de algum tempo.

Tornou-se um dos maiores e até lendários estancieiros rio-grandenses. Lendário, através da lenda da Salamandra do Jarau, colhida por J. Simões Lopes Neto.

Na guerra 1811-12 se destacou no ataque a Paissandu, na liderança de 60 milicianos. Isto lhe valeu a promoção a tenente, em 17 de dezembro de 1813.

Na guerra contra Artigas 1816-17, o tenente Bento Manuel evidenciou o seu valor, ousadia e intrepidez em diversas ações. Foi citado nominalmente em diversas ordens-do-dia. Por haver derrotado em Belém, na linha do Quarai, em 7 de setembro de 1817, o chefe oriental D. José Verdum, preso com outros oficiais e todo o armamento, foi efetivado no posto de capitão de Millcias "pelo distinto comportamento com que se houve na ação".

Atuou no combate de Guabiju, em abril de 1818, onde Aranda sofreu pesada derrota que veio reforçar o arsenal e a remonta do Império. Em 26 de maio ele dirigiu, na outra margem do Uruguai, bem-sucedida surpresa contra Artigas. Trouxe farta presa de guerra (cavalos, armas, munições etc.). Em conseqüência foi elogiado e promovido a major. Repetiu este feito em Queguai-Chico. Em 28 de fevereiro de 1815 infligiu pesada derrota a Frutuoso Rivera, no Arroio Grande, com grandes presas de guerra. Isto lhe valeu a promoção, em 17 de março de 1820, a tenente coronel "por distinção no combate de Arroio Grande". Aí teve a instruir-lhe o marechal Curado, filho de Goyás, que estudamos.

A independência do Brasil vai encontrá-lo na defesa da Fronteira do Brasil, onde foi promovido a coronel graduado do 22o Regimento de Milícias de Rio Pardo, a sua escola para a guerra que aprendeu na Academia Militar das Coxilhas "vendo, tratando e pelejando". Esta guerra, segundo Rio Branco, foi o período áureo de Bento Manuel, tendo se destacado nas ações de Belém, Calera de Berquió, Perucho-Berin e Arroio de La China.

Guerra Cisplatina 1825-1828

Colocou-se na frente de seu Regimento e internou-se na campanha da Provlncia Cisplatina do Brasil (o atual Uruguai).

Em 3 de setembro de 1825 bateu Frutuoso Rivera no arroio d'Aquila, sendo recebido em triunfo, em Montevidéu.

No dia 12 de outubro de 1825, por circunstâncias adversas várias, provou o sabor da derrota, em Sarandi, conforme foi contado pelo alferes Manoel Luiz Osório que dela participou.

Durante a retirada, segundo a tradição, conta-se que o coronel Bento Manuel, admirado da atuação do alferes Osório, semelhante a sua quando na mesma idade, teria dito: "É para aquele que vou deixar um dia a minha lança na certeza que ele a levará mais longe do que eu."

Em 5 de novembro de 1826, derrotou na Capela do Rosário (Corrientes), depois de atravessar o rio Uruguai, o inimigo lá concentrado. Apreendeu farta presa de guerra. Comandava desde 9 de março de 1826 uma brigada, como coronel efetivo.

Durante as marchas estratégicas dos exércitos argentino de Alvear e o imperial de Barbacena, Bento Manuel Ribeiro afastou-se em demasia de Barbacena.

Assim, acreditou num movimento inimigo feito para iludi-lo. Em função dessa falsa possibilidade inimiga, que teria transmitido, a Barbacena, terminou por ausente da batalha de Passo do Rosário, em 20 de fevereiro de 1827, onde deveria estar ocupando a Ala Esquerda do Exército, o ponto crítico da defesa brasileira.

Em seu local foi colocada a vanguarda do Barão do Serro Largo - marechal José de Abreu, constituída de um punhado de desertores, paisanos mal montados e sem efetivo - preparo para receber os ataques de Cavalaria inimiga. Disto resultou o marechal Abreu vir morrer e seus homens vitimas dos tiros amigos e das lanças e espadas inimigas em choque.

Esta ausência de Bento Manuel da batalha teve imensa repercussão tática negativa, para a sorte das armas brasileiras. Por isto tem sido muito discutida a sua atuação entre os estudiosos do assunto.

Bento Manuel, o fiel da balança na Revolução Farroupilha

A situação de Bento Manuel imediatamente anterior à Revolução era a seguinte: Desde 27 de agosto de 1825 ingressara na la Linha do Exército Imperial, como coronel de Estado-Maior. Era já um homem opulento e bastante relacionado e respeitado por seu valor militar. Seu perfil era o de um caudilho. Possuía temperamento incomum merecedor de um ensaio psicológico, por mestres do assunto, para ajudar a explicar-lhe e, Souza Bocca o ensaiou sob este aspecto.

Com a Abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831 e até dezembro de 1834, comandou a guarnição e a Fronteira do Rio Pardo. Foi substituído na função por um desafeto, por ato do Presidente Fernandes Braga, da Província, talvez por indicação do comandante-das-Armas da mesma, o marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto. Esta circunstância teria influído na decisão de Bento Manuel em ajudar a derrubar o governo, advindo à Revolução Farroupilha.

Sobre ele escreveu o veterano Caldeira: "Bento Manuel era um militar de muita tática na guerra. E possuía muito conhecimento dos habitantes da campanha da nossa Província e também era de muito prestígio. O procedimento dele durante a Revolução é público e notório. Quando a legalidade estava caída ele com sua presença dava-lhe vida e quando a causa da República precisava alento, ele lhe dava."

Como se verá, seu apoio, ora à Revolução Farroupilha, ora ao Império, sempre desequilibrou o fiel da balança para o lado que ele lutava. Assim, tomou parte ativa e proeminente na revolução de 20 de setembro a dezembro de 1835, que derrubou o Presidente Fernandes Braga e o Marechal Sebastião Barreto, Comandante-das-Armas, em cujas funções foi colocado pela revolução que passou a dominar, por completo toda Província do Rio Grande.

Ao passar para o lado legal a convite do novo Presidente enviado pela Regência e seu parente e amigo, o Dr. José de Araújo Ribeiro, mais tarde Visconde do Rio Grande, desequilibrou as Forças em luta, em favor do Império.

Durante sua primeira luta pela causa imperial de dezembro de 1836 a 23 de março de 1837, ou por cerca de 13 meses, sua participação foi decisiva no campo estratégico:

- Para a reconquista Imperial da cidade do Rio Grande, por hábil manobra do novo presidente que lá assumiu suas funções. Cidade que serviu de base de partida de reforços navais e terrestres, enviados pela Regência, para combater a revolução, além de negar aos revolucionários um porto marítimo para desenvolverem suas marinhas de guerra e mercante, ou seu poder marítimo.

- Pra distrair atenções para si, engajando forças a comando de Bento Gonçalves, essenciais à tentativa de conquista do Rio Grande. Disto resultou:

1. A queda definitiva de Porto Alegre em mãos imperiais e prisão de 36 revolucionários importantes e a liberação da ligação lacustre imperial, Porto Alegre - Rio Grande.

2. A prisão de Bento Gonçalves, na ilha do Fanfa, em 4 de outubro de 1836, com o concurso naval.

3. A desistência do ataque a Rio Grande, a partir de Pelotas, pelo major João Manuel de Lima e, Silva que o substituiu, no Comando-das-Armas.

4. A proclamação da República Rio-Grandense, em li de setembro de 1836, no Campo do Menezes.

5. O abandono de Pelotas pelos revolucionários, em direção da Serra dos Tapes, para Piratini, então escolhida capital da nova República.

6. A retirada dos farrapos de Piratlni, em direção à fronteira, sob o comando do então general farrapo João Manoel, seguida de internação, ao comando de Antônio Netto, no atual Uruguai, tudo sob sua ameaça, em Caçapava.

Esta atuação valeu-lhe promoção a brigadeiro do Império. E com a revolução nos estertores vai lutar por ela mais uma vez. E isto ocorreu de 23 de março de 1837 a 18 de julho de 1839, pelo espaço de cerca de 2 anos e 3 meses, período áureo da República com capitais em Piratini e Caçapava, no qual ela implantou sua estrutura. Foi, além conquistada Laguna, em julho de 1839 e proclamada a República Juliana.

Quando cobria a Fronteira do Uruguai, contra Netto e suas forças lá emigradas, conheceu a substituição do Presidente Araújo Ribeiro, seu amigo, com o que não concordou.

Entrou em rota de colisão com o novo Presidente, brigadeiro Antero José Ferreira Brito que o destituiu do Comando-das-Armas e foi mais além - tentou prendê-lo!

Pela segunda vez no lado revolucionário

Bento Manuel então surpreendeu e prendeu o Presidente no passo de Itapevi em Alegrete, 23 de março de 1837. O manteve preso por cerca de 9 meses, até soltá-lo, por troca, em Viamão, em 1838, pelo coronel Francisco Xavier do Amaral Sarmento Menna. Em 21 de abril de 1837 foi instaurado processo contra Bento Manuel e seu filho Sebastião "por crime de sedição e rebelião e também cúmplice de roubo".

Os farrapos em maus lençóis o receberam com imenso júbilo. Foi nomeado comandante das divisões da Direita e do Centro do Exército da República Rio-Grandense. Exército cujo comandante-em-Chefe interino, na ausência de Bento Gonçalves, era o general Netto.

Em 7 de abril de 1837 reconquistou Caçapava. Em 8 de junho de 1837 bateu-se com Sebastião Barreto no arroio Santa Bárbara, em Cruz Alta, sendo ferido na ação. Em 30 de outubro de 1837, na coxilha do Espinilho, bateu seu aliado de ontem - o Cel Manoel dos Santos Loureiro.

Enquanto isto, Netto mantinha sob cerco terrestre Porto Alegre. Em 16 de dezembro de 1837, Bento Gonçalves retornou da prisão aonde fora colocado depois de preso por Bento Manuel. Decorridos 15 dias, em 29 de dezembro de lã37, ele promoveu Bento Manuel a general da República. Este continuou no comando das divisões da Direita e Centro e diretamente subordinado, a Bento Gonçalves, como Presidente e Comandante-em-Chefe do Exército, mas cercado de todas as atenções.

Em 31 de janeiro de 1838, no Caí, Bento Manuel tomou em ação, duas canhoneiras. Elas foram incorporadas à Marinha da República ao comando do então Giusepe Garibaldi e mais tarde o herói maior da reunificação da Itália, além de "o homem de ação de seu século".

Em 30 de abril de 1838 comandou o Exército da República na vitória de Rio Pardo, a maior dos republicanos.

Reconquistar Porto Alegre era o sonho dos dois Bentos que se encontraram em Encruzilhada. Mas faltavam cavalhadas e os imperiais se fortificavam e mantinham aberta a linha de suprimento geral lacustre Rio-Grande - Porto Alegre, a despeito da interferência de Garibaldi, neutralizada com a navegação imperial, em comboios.

Os farrapos dominavam a campanha e recebiam apoio externo pelas fronteiras com o Uruguai e Argentina. Os imperiais dominavam o Rio Grande, São José do Norte, Porto Alegre e a navegação interior do Rio Grande.

Em 25 de julho de 1839, David Canabarro proclamou, em Laguna, a efêmera República Juliana que serviria para um porto de mar de onde a República, recorrendo à guerra de corso, pudesse prejudicar a navegação imperial, em alto-mar.

Abandono definitivo dos farrapos

Em 18 de julho de 1839, quando a causa farrapa se desenvolvia ainda bem, Bento Manuel a abandonou através de carta circunstanciada dirigida ao Ministro da Guerra da República, José Mariano de Mattos.

Basicamente alegou ter recebido ingratidões do Brasil, depois de sacrifícios superiores ao esforço humano na defesa de sua Integridade, como a desconsideraçâo do marechal Antero de Brito que o tentou prender. Que pressagiava ingratidões semelhantes dos farrapos que hoje o lisonjeavam.

Protestou contra a promoção a tenente coronel e nomeação para comandante do 2? Batalhão de Caçadores, do baiano Francisco José da Rosa que havia repreendido asperamente, por insubordinação.

Bento Manuel havia sido decisivo na prisão de Bento Gonçalves e seu envio para o forte do Mar, de onde foi libertado pelo oficial baiano citado, que acompanhou Bento Gonçalves ao Sul. E concluiu sua carta em que se exonerou dos serviços à República:

"Hoje, já próximo da sepultura e cheio de casganhadas em árduos serviços à pátria prestados, não posso nem devo tolerar que, por um obscuro baiano, fira. V. Excia e Exmo governo minha honra e pundonor mílítar." Bento Gonçalves tentou de tudo para demovê-lo, mas sem resultado.

Em realidade, Bento Manuel foi desautorado, e sem outra alternativa, que não deixar o serviço da República.

Assim, de 18 de julho de 1839 a 9 de novembro de 1842, chegada de Caxias, ou por cerca de 3 anos e 4 meses, Bento Manuel permaneceu neutro.

Com a chegada de Caxias, Bento Manuel, anistiado pelo Governo Imperial, passou a colaborar no combate aos republicanos.

Em 26 de maio de 1843 lutou, em Ponche Verde, onde foi ferido duas vezes no peito tendo, em movimento dificílimo, uma inspiração tática que adotou e o salvou da derrota certa.

Em 29 de julho de 1844, evitou combate no Bai-Passo, com os revolucionários mais fortes que ele.

 Bento Manuel segundo Caxias

Bento Manuel recebeu de Caxias o comando de uma Divisão. Desempenhou então decisiva ação militar na perseguição dos republicanos, até a conclusão da Paz de Ponche Verde, em 1o de março de 1845.

Caxias, temendo uma nova defecçâo de Bento Manuel, julgava impolítico dar-lhe comando, mas acreditava que Bento Manuel lhe seria útil, como de fato o foi, "suprindo-me naquilo que me faltava, que é o conhecimento prático do Rio Grande e com suas relações na campanha, de que espera obter mais alguma gente de Cavalaria e Cavalos".

Ao Caxias dirigir proclamação aos farrapos, em 9 de novembro de 1842, o jornal Americano assim a comentou em certo trecho:

"Caxias não traz a faculdade de atemorizar com pragas, mas traz Bento Manuel e seu filho, que valem por todas as pragas do Egito. Se o nome de V. Excia, Caxias, pela fama de sua habilidade estratégica, era capaz de inspirar-nos temor, que receio não incutirá agora..."

Caxias em ofício de 31 de março de 184313 escreveu:

"Até hoje nenhum dos chefes a quem Bento Manuel escreveu, e com os quais contava se apresentou. Pelo contrário, continuam a servir a favor da revolta como dantes, sendo suas respostas dadas boçalmente ao portador das cartas do referido brigadeiro e que não mereciam resposta nenhuma, suas proposições dando a entender que nada com ele haviam tratado a semelhante respeito."

A esta altura uma onda de ódio já se levantava entre republicanos e imperiais contra o procedimento de Bento Manuel.

Caxias, em ofício de 4 de maio de 1844 ao Ministro da Guerra-esclarecia:

"Logo que fiz junção com a la Divisão, um requerimento me foi dirigido em nome dos soldados pedindo serem desligados do comando do brigadeiro Bento Manuel... Não dissimularei a V. Excia que esta mostra de desobediência e má vontade de alguns chefes dessa Província... provém, como é notório, da indisposição e ódio que votam a pessoa do brigadeiro Bento Manuel, com quem não desejam servir, ódios que com bastante esforços e persistência tenho conseguido dissipar, se não em todos os filhos dessa Provlncia, ao menos na maior parte do Exército."

Todas estas atitudes de Bento Manuel que ele encontrava argumentação para explicá-las, jamais foram entendidas pelo povo rio-grandense que o condenou e o ridicularizou nestes versos entre outros:


"Pode um altivo humilhar-se,
pode um teimoso ceder,
pode um pobre enriquecer,
pode um pagão banzar-se,
pode um avaro emprestar,
um lassivo confessar-se,
tudo pode ter perdão!
Só o Bento Manuel não!"

Recolhendo-se a sua estância no Jarau, foi prometido a "Dente Seco" uma quantia para matá-lo. Percebendo ele o intento e incapaz de reagir fisicamente, seduziu ou passou a conversa em "Dente Seco" dando-lhe quantia dobrada a ajustada, salvando assim a vida," conforme contou Olhynto M. Sanmartim.

Atuaçâo na Guerra contra Oribe e Rosas 1851-52

Nesta guerra seus serviços foram reclamados para a defesa da Integridade e Soberania do Brasil. Coube-lhe o comando, como marechal, da la Divisão do Exército que era integrada pelas seguintes brigadas:

la - ao comando do brigadeiro Francisco Arruda Câmara e integrada pelos 5o, 6o e llo Batalhões de Infantaria.
2a - ao comando do brigadeiro Manoel Marques de Souza, integrada pelos 2o RC de Linha e o 3o RC da Guarda Nacional, de Bagé.
5a - ao comando do coronel João Províncio Mena Barreto com o 4o RC de Linha e Cavalaria da Guarda Nacional de São Borja.
6a - ao comando do coronel da Guarda Nacional Jerônimo Jacinto Pereira, de Itaqui, e além, emigrados orientais.

Morte de Bento Manuel

Morreu com 72 anos de idade, rico mas controvertido, e indiscutivelmente como o julgou Caldeira ao traçar-lhe o perfil, "quando a legalidade estava caída sua presença dava-lhe vida e quando a causa da República precisava alento ele lhe dava". Foi indiscutivelmente a maior espada do Rio Grande do seu tempo e o maior especialista na Guerra dos Coxilhas ou na Arte Militar dos Pampas.

A explicação e a justificação de seus comportamentos é obra para sociólogos e psicólogos.

Bento Manuel na visão de Osvaldo Aranha

A controvertida e polêmica figura do general Bento Manuel encontrou no grande brasileiro e um dos maiores rio-grandenses de todos os tempos - o Dr. Osvaldo Aranha, o seu maior defensor e intérprete em artigo "A Revolução de 35 e a União Nacional" ao escrever:

"Garibaldi colocava a Pátria acima dos partidos e das formas de Governo. Republicano convicto, depois de um certo período isto não o impedia de aceitar a Itália monárquica, sob o cetro de um soberano que lhe garantisse a Unidade. Essa a meu ver é a melhor forma de patriotismo.

Na Revolução Farroupilha temos um homem com a mesma 'formação moral: Bento Manuel Ribeiro. O grande farroupllha foi até certo ponto a figura mais caluniada de nossa história. Não lhe compreendiam as aparentes varações e transigências. Não lhe perdoavam o monarquismo, destoante do espírito da Revolução. Investigações mais profundas permitiram reconstituir a verdadeira figura moral do soldado. Esteve com a Revolução enquanto foi necessário desafrontar e libertar o Rio Grande do Sul. Quando a metrópole caiu em si e decidiu fazer-lhe justiça, quando os farrapos receberam o ramo de Oliveira trazido pelas mãos augustas de Caxlas, a sua missão estava finda. Não iria fazer o jogo do estrangeiro...

Bento Manuel, embora nascido acidentalmente fora dos pagos, é um dos maiores tipos do Rio Grande. Guerrilheiro e soldado a sua fé de ofício não inveja a de ninguém. Lutou pelo Rio Grande sem nunca perder de vista a Integridade do Brasil."

A condenação popular de Bento Manuel foi porque o povo entendeu, simplificando as coisas, que ele havia-se "bandeado" ou mudado de partido, gravíssimo pecado na visão de Mem de Sá em "Politizaçâo do Rio Grande" ao traçar o perfil do caudilho gaúcho:

"0 caudilho gaúcho era um chefe militar na guerra e chefe civil na paz. Em torno dele agrupavam-se as tropas de guerra e, mais tarde, os eleitores na paz. Ele era respeitado e obedecido e amado, porque tinha tanto de protetor quanto de comandante. Os homens lhe eram fiéis até a morte e por ele e pela causa que ele encarnava, matavam ou se deixavam matar. Esta fidelidade era total e absoluta, para a vida inteira, para o que desse e viesse. Dessa fidelidade ao chefe, ao comandante, decorreu a fidelidade posterior à causa política ou ao partido politíco que o caudilho abraçava. Bandear-se de chefe ou de partido, constituia uma ignomínia que inutilizaria o homem para o resto da vida." Foi este preço altíssimo que a memória de Bento Manuel tem pago.

Ninguém é culpado pelo seu temperamento. Talvez no seu temperamento e amiudado contato com os caudilhos argentinos de Corrientes e Entre-Rios de que recebeu influências, venha explicá-lo melhor perante seus co-estaduanos.

Estudar o perfil traçado do caudilho brasileiro do Rio Grande do Sul pelo mestre Arthur Ferreira Filho em "Revoluções e Caudilhos", ajudaria os rio-grandenses a compreendê-lo, bem como as dos citados Osvaldo Aranha e Mem de Sá, além de outras. E assim cumprir-se aquela definição de História de que ela é Verdade e justiça.

Origem:

Esta biografia foi extraída do volume I de "O exército farrapo e os seus chefes", extensa obra em dois volumes confeccionada pelo historiador militar e Coronel Cláudio Moreira Bento. O site do pesquisador pode ser acessado em: pt.wikipedia.org/wiki/Cláudio_Bento

----- Original Message -----
From: "Claudio Bento Moreira"
Sent: Monday, January 27, 2003 11:37 AM
Subject: BENTO MANOEL HISTÓRIAxFANTASIA

Aos prezados companheiros internautas destinatarios do anexo.Solicitamos a maior divulgaçào possivel do presente estudo sobre o marechal Bento Manoel Ribeiro que segundo interpretação de Osvaldo Aranha é um dos mais caluniados personagens brasileiros...

, mas que deu grande contribuição a conquista e preservação dos objetivos do Brasil de Unidade,Integridade e Soberania .Calunias que a minisérie A Casa das Sete Mulheres potencializa e exagera entre os que carecem de capacidade crítica de separar a fantasiosa personagem Bento Manoel da magifica minisérie com a sua real projeção em nossa História ..Claudio Moreira Bento .Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do Instituto de História e Tradições do RGS

Publicado em 22/01/2002.

Re-editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.