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MÚSICA Morre o payador missioneiro
MARCELO MACHADO
Na canção Na Baixada do Manduca, ele afirmava que era “o cantor da Bossoroca que cantava com galhardia”. O cantor e compositor Noel Guarany, considerado um dos expoentes da cultura missioneira e guaranítica do Rio Grande do Sul, um artista que abriu as porteiras rio-grandenses para uma música essencialmente nativa, morreu às 9h40min de ontem, na Casa de Saúde, em Santa Maria. O músico era portador de ataxia cerebelar degenerativa – doença rara que provoca a degeneração do cérebro – e, à noite, havia enfrentado crise respiratória. O corpo está sendo velado no Clube 3 de Julho, e o enterro será realizado ao meio-dia de hoje no Cemitério Municipal de Bossoroca, município em que nasceu. Desde o começo da década de 80, Noel Guarany morava em Santa Maria com a mulher, Neide Fabrício da Silva, e três das quatro filhas, numa casa na Vila Santos. A doença se manifestou há sete anos e debilitou lentamente o organismo do músico. Nos últimos cinco anos, Noel Guarany teve raros momentos de lucidez. Não falava e nem andava. No início da década de 70, enquanto a cultura nativa era representada por nomes como Teixeirinha e Gildo de Freitas, um filho de índios fazia composições destacando as características da região em que tinha nascido. Potro Sem Dono, Romance do Pala Velho, Filosofia de Gaudério e Payador, Pampa e Guitarra são alguns dos clássicos da carreira de Noel Guarany. Com influências de latino-americanos como Athaualpa Yupanqui e Antonio Tarragô Ros, Noel Guarany foi um dos primeiros a percorrer a América levando com sua música a cultura gaúcha. As palavras de Jayme Caetano Braun, um dos principais companheiros de Noel Guarany, resumem as qualidades do payador: – É o maior cantor do Rio Grande do Sul, uma exceção de cantor missioneiro. Apesar de polêmico e acostumado a se desentender com gravadoras e entidades como a Ordem dos Músicos, Noel Guarany nunca deixou de ser admirado pela qualidade de suas interpretações e composições. Para Jorge Guedes, compositor de São Luiz Gonzaga, o missioneiro gostava de dizer o que pensava: – Todos os que tinham uma formação para a cultura encaravam o trabalho dele acima da pessoa – disse. – Não tinha meio termo: ou era ou não era teu amigo. Ele chegou a ser chamado de “payador maldito” por suas idéias revolucionárias. Criticou certos cantores tradicionalistas por estarem vestindo “longas e espalhafatosas indumentárias de souvenires para iludir turistas trouxas”. O ex-prefeito de Porto Alegre Olívio Dutra viveu a infância ao lado do compositor missioneiro. Para Dutra, Guarany era um “guri rebelde”. Ambos nasceram em Bossoroca, e o ex-prefeito de Porto Alegre lembra que o cantor costumava se “bandear para o outro lado”. Na época, São Luiz Gonzaga ainda fazia fronteira com a Argentina. O acordeonista Gilberto Monteiro, natural de Santiago, considera que o artista tornou-se uma referência: – Ele foi uma bandeira que se ergueu para realçar a música missioneira. Fazia música com uma pureza, com uma cultura profunda. Na canção Filosofia de Gaudério, Noel Guarany fez um resumo da vida em versos: “Se eu nasci pra cantar, eu hei de morrer cantando”. A música das Missões perdeu um mito. Perdeu um artista que gostava do pago.
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