O cantor
dos clássicos
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Morre um dos símbolos da
Califórnia Derrotado por um câncer, o cantor
nativista Leopoldo Rassier, 63 anos, morreu ontem, às 4h30min, em Porto
Alegre
ANTONIO
AUGUSTO FAGUNDES
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| O cantor Leopoldo Rassier, funcionário
público aposentado, marcou o nativismo pela interpretação de
clássicos como "Sabe Moço", "Não Podemo se Entregá Pros Home" e
"Veterano" (foto Luiz Armando Vaz, Banco de Dados/ZH 5/4/98) |
Leopoldo Rassier, o
maior romântico do gauchismo, ícone e efígie da Califórnia tanto como o
grande César Passarinho, macho de calhandra, alçou ontem o derradeiro vôo
no rumo do infinito.
O maldito caranguejo da
morte, de um ano para cá, vinha conquistando pedaço a pedaço, palmo a
palmo, o território conflagrado de seu corpo.
Como Neruda,
"apuñaleado en lo de hombre". A Morte, china maleva, velha ciumenta e
feia, tinha que golpeá-lo na próstata, para ferir o orgulho de sua
virilidade. No Rio Grande do Sul, a gente não diz adeus, como em todo o
mundo. Acho que é porque se sabe: mais cedo ou mais tarde, de alguma
maneira ideal, a gente se encontra de novo. Para mim, a despedida mais
linda é a nossa, campeira e cheia de esperança: até a volta!
Leopoldo Souza Soares
Rassier nasceu e se educou em Pelotas, querência de tradições
aristocráticas. Era de família rica, de grandes terra-tenentes, bisneto do
barão de Souza Soares, da nobreza portuguesa. Rico, bonito como um puma,
dono de preciosa voz de tenor, o Leopoldo era o enfant gaté do sucesso.
Nascido e criado em
estância, era o campeiro sem bravatas, mas homem de pé no estribo. Não por
acaso, era um dos Cavaleiros da Paz, e os companheiros recordam sempre
suas façanhas e causos na 1ª Cavalgada Internacional da Paz, cabresteando
três ou quatro cavalos, desafiando a feroz enchente no braço e na raça
para salvar o chapéu novo de um companheiro, pedindo bergamotas
castelhanas aos companheiros (depois de comer todas as suas), censurando
severamente o próprio cavalo, que velhaqueou com ele assim que pisamos em
território argentino, oferecendo gentilmente nossas rapaduras e vinhos à
cantora índia e sobretudo iluminando como uma estrela a mais as noites
paraguaias nos nossos acampamentos, cantando como só ele sabia.
Leopoldo Rassier foi
pretor peregrinus, juiz do trabalho aprovado em curso mas não empossado,
professor, comunista militante, consultor da Assembléia Legislativa do
Estado, fazendeiro, poliglota, viajante incansável (morou em Moscou por
dois anos), um dos cinco filhos do velho Gaston e de dona Olenka Rassier
(os outros eram o Daniel, o Nelson, o Heitor e o Gastonzinho, sem uma
irmãzinha para quebrar a monotonia do macherio). Agora, depois de se
aposentar do serviço público, o Leopoldo advogava e cuidava da fazenda que
herdara aos pais. E cantava. Isso sim, não parava. Seus cachês de
espetáculos e dinheiro de premiação em festivais eram distribuídos entre
seus músicos, todos seus grandes amigos, como Carlitos Magallanes e Pedro
Guerra.
Não se lembrava de
quantos prêmios ganhou como cantor, quantos troféus recebeu. Mas e-ram
muitos e valiosos. Suas interpretações estão em incontáveis discos de
festival e em um álbum que gravou com o repertório conhecido. E amou
muito. Não se cansava de amar. Foi pai de dois filhos (o Pierre, aqui em
Porto Alegre, e o Rasmus, na Dinamarca, este a cara dele). Casou com a
Beatriz, a primeira vez. Divorciou-se e continuaram amigos, tanto que a
Bia esteve presente ao seu segundo casamento, com a Tatiane, que foi o seu
anjo da guarda, que largou tudo para estar com ele sempre (e ficou até o
amargo fim, querida Tati).
O Leopoldo vai ficar
com a voz e a imagem eternizadas nos filmes, nos vídeos, nos discos, mas
vai ficar mais na saudade de seus amigos, nos olhos tristes das prendas
enamoradas, na mão crispada de um domador sem padrinho. E sempre sempre!
que um macho de calhandra cantar no pago para atrair a fêmea, eu vou
dizer: "Olha aí o Leopoldo velho!".
Eu não sei se os anjos
tem sexo. Se tiverem, as anjas que se cuidem: o Leopoldo Rassier está
chegando aí.
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Morre um
dos símbolos da
Califórnia
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O
cantor dos clássicos Leopoldo Rassier deixa legado de belas
interpretações
MARCELO
MACHADO Especial/ZH
O nativismo perdeu um
dos seus maiores intérpretes.
O músico e advogado
Leopoldo Rassier, 63 anos, morreu, vítima de câncer generalizado, às
4h30min de ontem no Hospital de Clínicas, em Porto Alegre, onde estava
internado desde sábado. O cantor foi enterrado, no final da tarde de
ontem, no Cemitério Jardim da Paz.
Apesar do sucesso das
inúmeras músicas que apresentou nos festivais do Estado, o cantor gravou
apenas um disco próprio, Não Podemo se Entregá pros Home (1986). A voz era
inconfundível. A história da Califórnia jamais poderá ser contada sem que
sejam citadas as participações de Leopoldo Rassier no evento. Em 1972, na
segunda edição da Califórnia, interpretou Gaudêncio Sete Luas. Mais tarde
Sabe Moço e Não Podemo Se Entregá Pros Home receberam o Prêmio de Música
Mais Popular. Veterano, em 1980, no auge do movimento nativista, recebeu a
Calhandra de Ouro o prêmio máximo do festival.
Uma mágoa que levava
foi a de nunca ter tido a oportunidade de apresentar-se em um show solo no
palco da Califórnia. Uruguaiana ficou com uma dívida. Rassier, ao lado de
nomes como Cesar Passarinho e João de Almeida Neto, é um dos símbolos da
Califórnia. Uma referência para as novas gerações.
Leopoldo Rassier
brincava com a vida. Ele falava como quem mastiga as palavras. Era uma
pessoa quieta e, muitas vezes, reservada. A timidez, contudo, não lhe
impedia de fazer amigos. Era um amante do nativismo. Fazia do culto à
tradição gaúcha uma das razões de sua existência. Antes de subir a um
palco, por exemplo, consultava os especialistas em indumentária.
Uma das suas principais
virtudes era a preocupação em escutar as idéias dos amigos. E eles eram
muitos. Leopoldo Rassier gostava de ir a festas. E, sempre que possível,
queria ser o orador do evento. O dom da palavra era, antes de tudo, um
divertimento. Era participante assíduo de programas de rádio. Gostava de
uma prosa. De conversar sobre as questões gauchescas. De participar de
cavalgadas. De participar na lida campeira da propriedade da família em
Pelotas, para onde deslocava-se pelo menos duas vezes por semana.
O palco era como se
fosse um hobby. Leopoldo Rassier não dependia financeiramente da música. O
seu sustento era proveniente das atividades jurídicas e da propriedade
rural da família. Ele não admitia receber dinheiro pela apresentação de um
show. Ao receber o cachê, ele fazia uma divisão entre os músicos que
tinham participado da apresentação. No palco, ele ganhava a platéia. Um
lenço vermelho, a tradicional vincha ao redor da cabeça e uma bombacha.
Pronto. Rassier estava pronto para cantar.
O único álbum da
carreira foi gravado em 1986 ao mesmo tempo em que Rassier fazia campanha
para deputado estadual pelo PMDB. O disco foi gravado durante as
madrugadas, depois da realização dos comícios. A música gaúcha ganhou o
importante registro de um de seus grandes intérpretes, mas o candidato não
se elegeu.
Rassier se identificava
como um homem de esquerda. Visitou Cuba e chegou a morar na Rússia. Nos
últimos anos, deixou o materialismo de lado. Por influência do cantor e
compositor Dorotéo Fagundes, aderiu ao kardecismo.
O cantor era
considerado pelo meio artístico como uma pessoa que era amiga de todos. Um
companheiro que estava sempre pronto a incentivar os colegas. Muitos
intérpretes fizeram a carreira inspirados no trabalho desenvolvido por
Rassier.
A gravação de um disco
de clássicos gaúchos e um trabalho de boleros estavam entre os seus
planos. Sonhava em gravar um trabalho com orquestra ou grandes arranjos
sinfônicos. Mas a doença foi mais forte.
Leopoldo Rassier lutou
contra o câncer, que começou na próstata e rapidamente se alastrou. Era
difícil alguém encontrá-lo queixando-se da doença. Aos amigos, ele evitou
confessar o problema. Quem conviveu com ele nos últimos tempos observou
que a sua voz já não era mais a mesma. O corpo estava fragilizado. Mas
ainda cantava. Pelo menos na roda de amigos.
Uma de suas músicas de
maior sucesso foi Veterano: "Está findando o meu tempo / A tarde encerra
mais cedo / Meu mundo ficou pequeno / E eu sou menor do que penso". O
tempo de Leopoldo Rassier se encerrou. A sua história continua. O
intérprete morreu no ano em que a Califórnia da Canção completará 30 anos.
Quando o evento se iniciar, em dezembro, Rassier será obrigatoriamente
homenageado. Ele é um dos ícones. Um cantor de clássicos. Um homem do
regionalismo gaúcho.
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O
ADEUS DOS AMIGOS |
"Fazia arte pelo gosto de estar no palco. Colocou muitos
tijolos no paredão da Califórnia." (Francisco Alves,
radialista e compositor de músicas como Não Podemo se Entregá Pros
Home e Sabe Moço) |
"Uma grande companhia, um grande papo. Eu achava bonita a
elegância dele no palco. Era um sujeito distinto. A voz dele
simbolizou uma época do movimento nativista." (João de
Almeida Neto, compositor e intérprete) |
"O Leopoldo era um amigo, um gaúcho, um companheiro. Um
cara que estava sempre por perto para qualquer chamado. Um cara
muito humano, um irmão. Ele fez a Califórnia ser
grande." (Dorotéo Fagundes, compositor e
intérprete) |
"Uma grande voz que deveria ter deixado mais
obras." (Alex Hohenbergger, diretor da Usa Discos e
coordenador de produção do único disco gravado por Leopoldo
Rassier) |
"O Rassier é um modelo de cantar no qual me inspiro. Um
amigo de todas as horas, uma espécie de padrinho
artístico." (Victor Hugo, intérprete) |
"Um dos cantores mais ecléticos do Rio Grande do Sul.
Tinha uma voz muito especial. Tanto podia interpretar as músicas
mais românticas como as épicas. Foi um intérprete completo. O
trabalho dele era muito profissional." (Glênio Reis,
radialista da Rádio Gaúcha) |
"Eu estava no Rio, onde passamos juntos o réveillon, e
liguei para o meu irmão sábado pela manhã. Ele estava se sentindo
bem. À tarde teve um processo regressivo rápido. O Leopoldo era,
acima de tudo, um agregador. Outro de seus maiores predicados era a
bondade. Teve um momento que ele ajudava sete instituições de
caridade de uma só vez. Por causa de sua formação rural, ele sempre
teve vocação pelas origens. E, como músico, sempre primou por uma
única coisa: a qualidade. (Daniel Rassier, irmão de
Leopoldo) |
"É mais uma lacuna no nosso chão do Rio Grande, na música
e na cultura. O Leopoldo era uma pessoa maravilhosa. Ele é uma
figura que não vai acabar nunca. Nas minhas preces sempre vou rezar
pelo Rassier. " (Telmo de Lima Freitas,
compositor) |
"Era um grande amigo. Cantamos e participamos de júris.
Uma pessoa de uma fidalguia, inteligência e de uma cultura ímpares.
Um homem bem situado politicamente e defensor das coisas do Rio
Grande do Sul. Um grande amigo." (Leo Almeida, intérprete
e compositor) |
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