Página do Gaúcho
Intérprete Leopoldo Rassier

(esta página foi integralmente copiada de ZH Digital do dia 07/02/2000) Zero Hora Digital
O cantor dos clássicos

Morre um dos símbolos da Califórnia
Derrotado por um câncer, o cantor nativista Leopoldo Rassier, 63 anos, morreu ontem, às 4h30min, em Porto Alegre

ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES

O cantor Leopoldo Rassier, funcionário público aposentado, marcou o nativismo pela interpretação de clássicos como "Sabe Moço", "Não Podemo se Entregá Pros Home" e "Veterano" (foto Luiz Armando Vaz, Banco de Dados/ZH – 5/4/98)

        Leopoldo Rassier, o maior romântico do gauchismo, ícone e efígie da Califórnia tanto como o grande César Passarinho, macho de calhandra, alçou ontem o derradeiro vôo no rumo do infinito.

        O maldito caranguejo da morte, de um ano para cá, vinha conquistando pedaço a pedaço, palmo a palmo, o território conflagrado de seu corpo.

        Como Neruda, "apuñaleado en lo de hombre". A Morte, china maleva, velha ciumenta e feia, tinha que golpeá-lo na próstata, para ferir o orgulho de sua virilidade. No Rio Grande do Sul, a gente não diz adeus, como em todo o mundo. Acho que é porque se sabe: mais cedo ou mais tarde, de alguma maneira ideal, a gente se encontra de novo. Para mim, a despedida mais linda é a nossa, campeira e cheia de esperança: até a volta!

        Leopoldo Souza Soares Rassier nasceu e se educou em Pelotas, querência de tradições aristocráticas. Era de família rica, de grandes terra-tenentes, bisneto do barão de Souza Soares, da nobreza portuguesa. Rico, bonito como um puma, dono de preciosa voz de tenor, o Leopoldo era o enfant gaté do sucesso.

        Nascido e criado em estância, era o campeiro sem bravatas, mas homem de pé no estribo. Não por acaso, era um dos Cavaleiros da Paz, e os companheiros recordam sempre suas façanhas e causos na 1ª Cavalgada Internacional da Paz, cabresteando três ou quatro cavalos, desafiando a feroz enchente no braço e na raça para salvar o chapéu novo de um companheiro, pedindo bergamotas castelhanas aos companheiros (depois de comer todas as suas), censurando severamente o próprio cavalo, que velhaqueou com ele assim que pisamos em território argentino, oferecendo gentilmente nossas rapaduras e vinhos à cantora índia e sobretudo iluminando como uma estrela a mais as noites paraguaias nos nossos acampamentos, cantando como só ele sabia.

        Leopoldo Rassier foi pretor peregrinus, juiz do trabalho aprovado em curso mas não empossado, professor, comunista militante, consultor da Assembléia Legislativa do Estado, fazendeiro, poliglota, viajante incansável (morou em Moscou por dois anos), um dos cinco filhos do velho Gaston e de dona Olenka Rassier (os outros eram o Daniel, o Nelson, o Heitor e o Gastonzinho, sem uma irmãzinha para quebrar a monotonia do macherio). Agora, depois de se aposentar do serviço público, o Leopoldo advogava e cuidava da fazenda que herdara aos pais. E cantava. Isso sim, não parava. Seus cachês de espetáculos e dinheiro de premiação em festivais eram distribuídos entre seus músicos, todos seus grandes amigos, como Carlitos Magallanes e Pedro Guerra.

        Não se lembrava de quantos prêmios ganhou como cantor, quantos troféus recebeu. Mas e-ram muitos e valiosos. Suas interpretações estão em incontáveis discos de festival e em um álbum que gravou com o repertório conhecido. E amou muito. Não se cansava de amar. Foi pai de dois filhos (o Pierre, aqui em Porto Alegre, e o Rasmus, na Dinamarca, este a cara dele). Casou com a Beatriz, a primeira vez. Divorciou-se e continuaram amigos, tanto que a Bia esteve presente ao seu segundo casamento, com a Tatiane, que foi o seu anjo da guarda, que largou tudo para estar com ele sempre (e ficou até o amargo fim, querida Tati).

        O Leopoldo vai ficar com a voz e a imagem eternizadas nos filmes, nos vídeos, nos discos, mas vai ficar mais na saudade de seus amigos, nos olhos tristes das prendas enamoradas, na mão crispada de um domador sem padrinho. E sempre – sempre! – que um macho de calhandra cantar no pago para atrair a fêmea, eu vou dizer: "Olha aí o Leopoldo velho!".

        Eu não sei se os anjos tem sexo. Se tiverem, as anjas que se cuidem: o Leopoldo Rassier está chegando aí.


Morre um dos símbolos da Califórnia

O cantor dos clássicos
Leopoldo Rassier deixa legado de belas interpretações

MARCELO MACHADO
Especial/ZH

        O nativismo perdeu um dos seus maiores intérpretes.

        O músico e advogado Leopoldo Rassier, 63 anos, morreu, vítima de câncer generalizado, às 4h30min de ontem no Hospital de Clínicas, em Porto Alegre, onde estava internado desde sábado. O cantor foi enterrado, no final da tarde de ontem, no Cemitério Jardim da Paz.

        Apesar do sucesso das inúmeras músicas que apresentou nos festivais do Estado, o cantor gravou apenas um disco próprio, Não Podemo se Entregá pros Home (1986). A voz era inconfundível. A história da Califórnia jamais poderá ser contada sem que sejam citadas as participações de Leopoldo Rassier no evento. Em 1972, na segunda edição da Califórnia, interpretou Gaudêncio Sete Luas. Mais tarde Sabe Moço e Não Podemo Se Entregá Pros Home receberam o Prêmio de Música Mais Popular. Veterano, em 1980, no auge do movimento nativista, recebeu a Calhandra de Ouro – o prêmio máximo do festival.

        Uma mágoa que levava foi a de nunca ter tido a oportunidade de apresentar-se em um show solo no palco da Califórnia. Uruguaiana ficou com uma dívida. Rassier, ao lado de nomes como Cesar Passarinho e João de Almeida Neto, é um dos símbolos da Califórnia. Uma referência para as novas gerações.

        Leopoldo Rassier brincava com a vida. Ele falava como quem mastiga as palavras. Era uma pessoa quieta e, muitas vezes, reservada. A timidez, contudo, não lhe impedia de fazer amigos. Era um amante do nativismo. Fazia do culto à tradição gaúcha uma das razões de sua existência. Antes de subir a um palco, por exemplo, consultava os especialistas em indumentária.

        Uma das suas principais virtudes era a preocupação em escutar as idéias dos amigos. E eles eram muitos. Leopoldo Rassier gostava de ir a festas. E, sempre que possível, queria ser o orador do evento. O dom da palavra era, antes de tudo, um divertimento. Era participante assíduo de programas de rádio. Gostava de uma prosa. De conversar sobre as questões gauchescas. De participar de cavalgadas. De participar na lida campeira da propriedade da família em Pelotas, para onde deslocava-se pelo menos duas vezes por semana.

        O palco era como se fosse um hobby. Leopoldo Rassier não dependia financeiramente da música. O seu sustento era proveniente das atividades jurídicas e da propriedade rural da família. Ele não admitia receber dinheiro pela apresentação de um show. Ao receber o cachê, ele fazia uma divisão entre os músicos que tinham participado da apresentação. No palco, ele ganhava a platéia. Um lenço vermelho, a tradicional vincha ao redor da cabeça e uma bombacha. Pronto. Rassier estava pronto para cantar.

        O único álbum da carreira foi gravado em 1986 ao mesmo tempo em que Rassier fazia campanha para deputado estadual pelo PMDB. O disco foi gravado durante as madrugadas, depois da realização dos comícios. A música gaúcha ganhou o importante registro de um de seus grandes intérpretes, mas o candidato não se elegeu.

        Rassier se identificava como um homem de esquerda. Visitou Cuba e chegou a morar na Rússia. Nos últimos anos, deixou o materialismo de lado. Por influência do cantor e compositor Dorotéo Fagundes, aderiu ao kardecismo.

        O cantor era considerado pelo meio artístico como uma pessoa que era amiga de todos. Um companheiro que estava sempre pronto a incentivar os colegas. Muitos intérpretes fizeram a carreira inspirados no trabalho desenvolvido por Rassier.

        A gravação de um disco de clássicos gaúchos e um trabalho de boleros estavam entre os seus planos. Sonhava em gravar um trabalho com orquestra ou grandes arranjos sinfônicos. Mas a doença foi mais forte.

        Leopoldo Rassier lutou contra o câncer, que começou na próstata e rapidamente se alastrou. Era difícil alguém encontrá-lo queixando-se da doença. Aos amigos, ele evitou confessar o problema. Quem conviveu com ele nos últimos tempos observou que a sua voz já não era mais a mesma. O corpo estava fragilizado. Mas ainda cantava. Pelo menos na roda de amigos.

        Uma de suas músicas de maior sucesso foi Veterano: "Está findando o meu tempo / A tarde encerra mais cedo / Meu mundo ficou pequeno / E eu sou menor do que penso". O tempo de Leopoldo Rassier se encerrou. A sua história continua. O intérprete morreu no ano em que a Califórnia da Canção completará 30 anos. Quando o evento se iniciar, em dezembro, Rassier será obrigatoriamente homenageado. Ele é um dos ícones. Um cantor de clássicos. Um homem do regionalismo gaúcho.

O ADEUS DOS AMIGOS
"Fazia arte pelo gosto de estar no palco. Colocou muitos tijolos no paredão da Califórnia."
(Francisco Alves, radialista e compositor de músicas como Não Podemo se Entregá Pros Home e Sabe Moço)
"Uma grande companhia, um grande papo. Eu achava bonita a elegância dele no palco. Era um sujeito distinto. A voz dele simbolizou uma época do movimento nativista."
(João de Almeida Neto, compositor e intérprete)
"O Leopoldo era um amigo, um gaúcho, um companheiro. Um cara que estava sempre por perto para qualquer chamado. Um cara muito humano, um irmão. Ele fez a Califórnia ser grande."
(Dorotéo Fagundes, compositor e intérprete)
"Uma grande voz que deveria ter deixado mais obras."
(Alex Hohenbergger, diretor da Usa Discos e coordenador de produção do único disco gravado por Leopoldo Rassier)
"O Rassier é um modelo de cantar no qual me inspiro. Um amigo de todas as horas, uma espécie de padrinho artístico."
(Victor Hugo, intérprete)
"Um dos cantores mais ecléticos do Rio Grande do Sul. Tinha uma voz muito especial. Tanto podia interpretar as músicas mais românticas como as épicas. Foi um intérprete completo. O trabalho dele era muito profissional."
(Glênio Reis, radialista da Rádio Gaúcha)
"Eu estava no Rio, onde passamos juntos o réveillon, e liguei para o meu irmão sábado pela manhã. Ele estava se sentindo bem. À tarde teve um processo regressivo rápido. O Leopoldo era, acima de tudo, um agregador. Outro de seus maiores predicados era a bondade. Teve um momento que ele ajudava sete instituições de caridade de uma só vez. Por causa de sua formação rural, ele sempre teve vocação pelas origens. E, como músico, sempre primou por uma única coisa: a qualidade.
(Daniel Rassier, irmão de Leopoldo)
"É mais uma lacuna no nosso chão do Rio Grande, na música e na cultura. O Leopoldo era uma pessoa maravilhosa. Ele é uma figura que não vai acabar nunca. Nas minhas preces sempre vou rezar pelo Rassier. "
(Telmo de Lima Freitas, compositor)
"Era um grande amigo. Cantamos e participamos de júris. Uma pessoa de uma fidalguia, inteligência e de uma cultura ímpares. Um homem bem situado politicamente e defensor das coisas do Rio Grande do Sul. Um grande amigo."
(Leo Almeida, intérprete e compositor)




(esta página foi integralmente copiada de Correio do Povo do dia 07/02/2000) Correio do Povo
CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, SEGUNDA-FEIRA, 7 DE FEVEREIRO DE 2000
A morte de Leopoldo Rassier

i-lrcpovo.jpgRassier numa das suas últimas aparições públicas
 
 

A morte do cantor e compositor Leopoldo Rassier, na madrugada de domingo, deixou de luto o Movimento Tradicionalista Gaúcho. Morto aos 63 anos, vítima de câncer, o músico era considerado um símbolo da Califórnia da Canção Nativa, por ter obtido várias vezes o primeiro lugar no evento. Autor de composições como 'Não Podemos Se Entregar Pros Homens', morava em Pelotas, sua terra natal, onde exercia a advocacia. O nativista foi enterrado ontem, às 17h, no cemitério Jardim da Paz, na Capital, em cerimônia emotiva. Os amigos se despediram cantando os seus maiores sucessos.
 
 


Correio do Povo
Porto Alegre - RS - Brasil


(esta página foi digitada do jornal Zero Hora do dia 12/02/2000, Segundo Caderno, coluna Galpão Crioulo) Zero Hora

Coluna Galpão Crioulo
Antonio Augusto Fagundes


Llanto por Leopoldo Rassier



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O cantor Leopoldo Rassier morreu no
último domingo, aos 63 anos

A las cinco de la tarde.
Eram las cinco em punto de la tarde.

Justamente às cinco da tarde do último domingo, dia de sol, quase de primavera, um ataúde com rodas avançou pelo campo, espantando os quero-queros...

La muerte puso huevos em la herida
a las cinco de la tarde.

Leopoldo Rassier ia dentro do ataúde para a derradeira sesteada no fundo da terra, a cova que é ventre, urna e salamanca, dois metros de comprimento, metro e meio de largura e sete palmos de profundidade. Pilchado da cabeça aos pés, só faltando as esporas, ele vestiu-se de noivo pra o himeneu final. O lenço vermelho, orgulhoso e bravio tantas vezes, agora era apenas uma ferida que sangrava no peito. A vincha na testa era uma auréola caída e - coisa estranha! - ele parecia sorrir enquanto os amigos choravam - isso era bem dele.

Que no quiero verla!
Quién me grita que me asome?
No me digáis que la vea!

Ninguém queria ver a cena final, mas todos nós tivemos que ver. Ele estava lá, mais sereno do que nunca.

No hubo príncipe em Sevilla
que comparársele pueda.
Ni espada como su espada
ni corazón tan de veras...

Lá vai o Cavaleiro da Paz, sem esporas na derradeira cavalgada. Lá vai o Veterano com as mãos cruzadas na frente, porque sabe que o seu tempo está findando, que a tarde encerra mais cedo.

Pero ya duerme sin fin.
Ya los musgos y la hierba
abren com dedos seguros
la flor de sua calavera...

A cena dói demais. E eu não quero vê-la. Mas ali estavam os homens de voz dura, os que domam cavalos e amansam os rios - afinal, o Leopoldo era um deles. E eu queria que alguém me ensinasse a saída para ese Capitão atado pela Morte. E ninguém lhe tapou a cara com seu lenço.

Federico Garcia Lorca chorou a morte do seu amigo Ignácio Sanchez Mejías, um toureiro andaluz, algo assim como o gaúcho da Espanha. Eu choro a morte de Leopoldo Souza Soares Rassier, gaúcho no lombo do cavalo, no lombo dos festivais, no lombo da vida, que é uma guêcha mu velhaca e sem tempo.

Pero yo te canto.
Yo canto para luedo tu perfil y tu gracia.
La madurez insigne de tu conocimiento.
Tu apetencia de muerte y el gusto de su boca.
La tristeza que tuvo tu valiente alegría.

Tardará muito tempo em nascer - se é que nasce! - outro Leopoldo Rassier.

Até a volta, amigo!





(esta página foi integralmente copiada de ZH Digital do dia 14/02/2000) Zero Hora Digital

14/2/2000

Rassier

        O cantor e compositor Leopoldo Rassier, que morreu há uma semana, também era um homem político, que atuou na legalidade quando dava e na ilegalidade quando era o único jeito. Ninguém melhor para lembrar esse seu lado do que o velho companheiro João Aveline. Conta o Aveline:

        “Advogado, ligado à atividade parlamentar, assessor que foi da bancada do então MDB na Assembléia Legislativa (ao tempo em que esta sigla era o estuário de todas as correntes democráticas que resistiam à ditadura), na condição de militante do antigo Partido Comunista Brasileiro, hoje Partido Popular Socialista, Leopoldo Rassier exerceu importante papel no combate que a sociedade tratava contra os usurpadores do poder.

        Destemido, ousado, valente, às vezes até audacioso, mas acima de tudo disciplinado e discreto como as circunstâncias impunham, o nosso querido Rassier cumpriu missões que poucas pessoas teriam condições de executar.

        Numa certa madrugada gaúcha, em pleno inverno, durante o qual, além do minuano, sopravam os ventos do terror que derrubavam portas atrás de patriotas sedentos de liberdade, dois dirigentes do PCB foram ao seu apartamento. Tinham uma tarefa para Leopoldo Rassier: atravessar a fronteira e deixar em Buenos Aires, sãos e salvos, dois perseguidos que os torturadores gostariam de ter em suas garras. ‘Quando partimos?’ foi a sua única resposta. Muitas viagens assim foram feitas.

        Muitas vidas salvas com a participação corajosa e consciente de Leopoldo Rassier.

        Passada a tempestade, com a democracia de volta ainda que de forma acanhada, Leopoldo voltou aos palcos, de onde a rigor nunca saíra, e também aos palanques, como candidato a deputado estadual pelo Partido Comunista Brasileiro, já legalizado.

        A voz do cantor silenciou na madrugada triste do último dia 6. Ainda moço, em pleno vigor para a produção intelectual e artística e capacidade para a ação política em favor dos deserdados.

        Numa tentativa de imitar o verso, eu diria que seu tempo findou, a tarde chegou mais cedo. Sem ele, o mundo ficou pequeno”.

        

* * *

        Só posso acrescentar outra opinião que ouvi, um dia, sobre o Rassier. A da Tonia Carrero, quando o conheceu: “Mas que gaúcho bonito!”