Música Gaita  

Api Menta
O Chasquito

A Rainha do Fandango é natural da cidade de Bento Gonçalves. E começou a nascer formalmente no dia 28 de abril de 1939, da linha de produção de uma fábrica que recebeu o nome de Todeschini e Cia. Ltda. É claro que isso só aconteceu depois de elas terem passado por uma fase de artesanato caseiro, pelas mãos do mesmo Luis Matheus Todeschini que fundou a empresa.

(Seu Luis teve quatro filhos, mas nenhum deles interessou-se pela fabricação de gaitas).

Em 1947 surgiu a Acordeões Todeschini S/A.

Em 1965 - 17 anos depois da fundação do MTG - a empresa já exportava seus produtos para a Argentina, Chile, Venezuela, Méxio e Estados Unidos. Mas começou a enfrentar uma série crise nas vendas internas.O Brasil havia entrado na era dos instrumentos elétricos e as pesquisas mundiais na indústria eletrônica avançavam em velocidade de linguagem binária sobre a área da música. A estridência do som de guitarras elétricas e tecladeiras eletrônicas conquistava uma geração que, disposta a mudar a própria ordem do universo, precisava de volume suficiente para que sua mensagem fosse ouvida acima de qualquer outro som. Os instrumentos acústicos entraram em baixa no gosto da grande massa de consumidores da música: a juventude. Foi por esta época que a Todeschini, na tentativa de ganhar fôlego, voltou-se para um mercado menos sujeito à ondas, modismos e sazonalidades: o mercado de móveis. O ano era 1968.

Em 1971, a empresa estava em franco desenvolvimento, assim como toda a indústria moveleira que florescia em Bento Gonçalves.

Incêndio na sexta-feira, 13 de agosto

"... ocupava uma área própria construída de 14.000 m2. 470 operários produziam em média, mensalmente, 700 acordeões e 3.000 unidades de móveis diversos." Esta a descrição da fábrica feita em matéria na edição número 1 da Revista Gaúcha, que Adelar Bertussi e Adelar Neves publicaram durante os anos 70. O texto descrevia o incêndio que, na sexta-feira, 13 de agosto de 1971, atingiu a Todeschini. O fogo ardeu durante durante dois dias e destruiu completamente as instalações da fábrica.

Mas, já no dia 15 de outubro, a empresa ressurgiu das cinzas, sob a denominação de Todeschini S.A. - Indústria e Comércio, com cerca de 250 acionistas - a maioria deles, os próprios operários da fábrica.

Menos de três anos após aquela sinistra sexta-feira, 13, as novas instalações haviam de novo alcançado 11.000 m2 de área construída e abrigavam 350 operários. Mas a fabricação de móveis havia sido drasticamente aumentada para 8.000 peças mensais, contra uma violenta redução na produção das famosas gaitas: apenas 300 instrumentos/mês.

Boa parte delas saiam de Bento Gonçalves diretamente para completar o abastecimento do mercado europeu de outra marca mundialmente conceituada: Honer.

Honeyde e Adelar Bertussi eram os únicos músicos consultores da linha de produção. Eles passavam com frequência pela fábrica, onde experimentavam as gaitas prontas, conferiam os resultados e sugeriam eventuais modificações. "Os instrumentos eram fabricados de acordo com as orientações dos irmãos Bertussi", testemunha lvo Bondam, uma autoridade no assunto: ele entrou para a Todeschini aos 13 anos de idade e lá trabalhou durante 46 anos.

Para cada instrumento finalizado, eram montadas nada menos do que 3.856 peças - todas elas produzidas dentro da própria fábrica, muitas delas de mínimo tamanho, exigindo rara precisão e pessoal com alta especialização prática. (Especialização esta, frise-se, sem muitas oportunidades de transmissão, para a necessária formação de novos profissionais.) Todas as gaitas Todeschini são numeradas. E trazem gravado na madeira, internamente, a data de fabricação.

Não tardou muito para que a fabricação da gaita se tornasse uma espécie de incômodo empresarial, pois o contexto de uma nova ordem econômica, com forte tendência para a automação de tarefas, já mostrava seu brilho intenso no horizonte matutino de um país emergente.

Em 1976, ao decidir parar em definitivo com a produção de gaitas, a direção da empresa negociou com alguns funcionários a manutenção de um serviço de assistência técnica. E transferiu para eles todo o estoque de peças prontas. O serviço funciona até hoje, nos fundos da residência de Danilo Arcari, em Bento Gonçalves mesmo, e tomou-se famoso no Brasil inteiro.

Danilo Arcari e Lourival Cosme, tem 56 anos de idade e tinham 40 anos de Acordeões Todeschini, quando a produção parou. lvo Bondan tem 59 de idade. Os três lideram a equipe de nove pessoas que assumiu a nobre missão de manter ligados os tubos da UTI das Rainhas do Fandango: Alba Fin (55), Zemiro Zallmmena (56), Deusines Maso (65), Auri Ranzzi (65), Elis Raquelli (70) e Biogio Vaccaro (73). Entre os nove, são 555 anos de idade, e mais de três séculos de experiência na gaita gaúcha!

lvo Bondan olha as fotos na Revista Gaúcha e relembra o incêndio como se ele tivesse acontecido ontem. Bondan comenta que os recursos de combate a sinistros na época não eram tantos como hoje em dia. Garante que tudo o que estava disponível foi tentado para conter o fogo, mas que nunca deixa de pensar que, se alguém tivesse pensado em isolar um corredor estratégico que existia entre duas alas dos prédios, talvez muita coisa fosse salva. Se...

Uma combinação ideal

Bom. Mas se não conseguiram salvar a fábrica em 1971, a partir de 1976, dedicam-se a salvar as gaitas.O atelier existe há 21 anos, tem clientes de Alagoas ao Uruguai e conserta no mínimo dez gaitas por mês, já que todo o trabalho é artesanal.

A maior quantidade de clientes vem das igrejas evangélicas: "Os pastores são muito caprichosos e também são os melhores pagadores", salienta Bondam que entende tudo de gaita e de seus sons, mas que não toca nada de música.

Já entre os músicos gaúchos parece que há muitas dificuldades financeiras. Segundo seu Ivo eles "choram" muito na hora de acertar o preço e, não raras vezes, ficaram devendo ou pagaram com cheques sem fundos. Por isso a equipe optou por atender uma clientela bem selecionada.

O serviço mais requisitado é a afinação, mas eles fazem qualquer reparo. E, se fosse necessário, teriam condições até de fabricar uma gaita nova. Tudo, com o equipamento básico com que trabalhavam na própria fábrica. Entrar na oficina é mesmo como entrar em um túnel do tempo.

Um dos trabalhos que mais impressiona é a fabricação das tampas, com desenhos geométricos vazados. Um serviço exclusivo do seu Biogio, feito a mão, com serrinha de trabalhos manuais. lvo Bondan descreve: "0 Biogio faz os desenhos pelo molde, usa a furadeira para abrir o ponto inicial em cada um dos quadradinhos, e vai montando e desmontando a serra para recortar cada um deles na forma certa do vazamento. Depois é só lixar as aparas do celulóide..." O serviço é impecável: não dá para notar diferença em relação as peças que, na fábrica, eram vazadas mecanicamente, numa máquina especial que possuía vários moldes de desenhos diferentes, "Hoje em dia adotamos apenas um modelo na recuperação das gaitas."

Segundo seu lvo, a Todeschini conseguiu uma combinação ideal: bom preço, alta qualidade - que se traduz em durabilidade -, excelente sonoridade e muita leveza. Uma Scandalli, por exemplo, pode ser considerada um luxo para músicos gaúchos: é um instrumento caríssimo para os padrões de remuneração dos nossos artistas e, não bastasse isso, é pesada demais para as exigências de trabalho do mercado onde a esmagadora maioria deles atua: o baile. É um instrumento que se torna desconfortável para apresentações de média e longa duração.Vinte e um anos depois de paralizada a linha de fabricação das gaitas, a gauchinha Todeschini ainda é o instrumento utilizado por nove entre dez gaiteiros gaúchos.

É ela a Rainha do Fandango.

Vítimas de uma anomalia cultural

Tcheng ou cheng - palavrinhas que, por mera coincidência histórica, guardam curiosa semelhança com o nosso e singularíssimo "tchê". Estas são apenas duas das variações de nome que os chineses deram ao instrumento musical que inventaram em 2.700 a.C. Conforme a região, aquele tipo de órgão portátil tocado por sopro, também podia ser shanofouye, hoelofouye, etc. A gaita dos chineses tinha a forma de um pássaro mitológico: Fênix, considerado o Imperador das Aves. Dezoito séculos depois de inventada, a Fênix sonora dos chineses bateu asas para a Rússia. De lá, conquistou a Europa. Começando pela Alemanha.

Mas foi na Áustria, já em 1822, que o vienense Cirilo Demian realizou as modificações que introduziram no invento chinês os princípios da gaita, como a conhecemos hoje: o sistema de palhetas livres, que vem a ser o aperfeiçoamento de outros instrumentos, como o oeline e o aerofone.

Hoje - 4.697 anos depois da invenção da tcheng - existem três tipos básicos de acordeões, que são: o de teclados (a gaita pianada), gaita-ponto (ou duas conversas), e o bandoneon (de tamanho um pouco maior do que a gaita ponto).

O instrumento consiste em duas caixas retangulares dispostas em posição vertical. ligadas entre si por um fole de cartão plissado. Dentro das caixas estão as palhetas que, acionadas pela agitação de dois tipos de teclado, emitem som pela vibração da passagem do ar que é empurrado através dos movimentos do fole. O peso dos acordeões podem variar entre dois e 16 quilos. Eles chegaram ao Brasil junto com os primeiros colonizadores europeus, vindos da Itália, país onde até hoje se fabricam as marcas de gaita mais conceituadas do mundo.O acordeão possui um recorde significativo, praticamente inédito entre os instrumentos musicais: é talvez o único cujo som original até hoje não conseguiu ser fielmente reproduzido pelos modernos sintetlzadores eletrônicos. Isto é: som de gaita, só com gaita mesmo!

Vida.. e morte da gaita gaúcha

Talvez, um pouco por terem pressentido essa valiosa característica de singularidade no acordeão, os gaúchos - tão ciosos de uma pretensa identidade singularmente própria em relação ao resto do país e do mundo - a tenham escolhido como instrumento representativo da própria música regional do Estado.

E talvez também não tenha sido por acaso que o frorescimento da indústria das gaitas no Rio Grande do Sul guarde relativa coincidência com um outro período importante: aquele em que o germe do gauchismo deve ter começado a rondar as idéias dos jovens que, em 1948, fundaram o primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o "35", que culminou no que é propagandeado por alguns notáveis, como um dos mais grandiosos movimentos de cultura popular do mundo: o Movimento Tradicionalista Gaúcho.

Nosso Estado chegou a ter 20 fábricas de gaitas, algumas das quais muito famosas, como Universal, Scala, Marinella, Rampazzo, Mundiale, Sonelli, Supremo, Somenzi, Silla, Mascarenhas, Tupy, Danielson. Todas elas, provavelmente, foram embaladas pela idéia de alto consumo em que a grandiosidade de um gauchismo exacerbado induzia a crer. Mas, nenhuma delas foi mais bem-sucedida do que a Todeschini que, além de ter boa parte de sua produção consumida aqui mesmo, chegou a produzir diretamente para algumas famosas marcas européias. Tanto sucesso, sem dúvida nenhuma, se baseia no aspecto da qualidade das gaitas que os gaúchos produziam.Apesar de oferecem o aspecto fundamental da qualidade, entretanto, as fábricas nativas foram parando, parando, parando... e hoje consta que nenhuma delas existe mais.

Falha nossa: o gauchismo não produziu gaiteiros suficientes para consumir as gaitas gaúchas de tão boa qualidade que eram fabricadas.

Isto é: a tradição dos chineses das primeiras eras cultivou a sua tcheng por 1.800 anos, até que ela viajou para a Rússia e conquistou o mundo, chegando na Itália, onde tornou-se tradicional há priscas eras e é muito moderna hoje em dia. Há uns dois séculos a tradição italiana trouxe a semente do acordeon para o Rio Grande do Sul. E os italianos mesmo se encarregaram de plantá-la no solo - que imaginaram fértil - da nossa música. Cuidaram da plantinha até que ela se tomou uma árvore relativamente frondosa e bastante produtiva: em 30 de junho de 1948 - quando o primeiro CTG recém tinha dois meses de fundação - a Todeschini já havia frutificado nada menos do que 6.907 acordeões!

Buenas. O que aconteceu com a gauchismo a partir daí todo mundo sabe, porque é cantado em prosa e verso aos quatro ventos.

De forma que, em 1997, o Movimento Tradicionalista Gaúcho, criado a partir da fundação do "35", chega aos seus 50 anos de existência contabilizando lucros grandiosos: o poder inquestionável de 1.500 entidades filiadas, que congregam a força de nada menos do que I milhão de simpatizantes. E perdas vergonhosas: no mesmo período de tempo a gauchada conseguiu consumir - literalmente - com a Todeschini (que já existia desde 1939) e com todas as nossas outras fábricas de gaitas - o instrumento musical que melhor representa a música tradicionalista! Isso não é apenas um paradoxo, É uma verdadeira anomalia cultural.

É isso mesmo! Já pelo meio desse meio século, um que outro pêlo-duro de importância e renome dava o exemplo: demonstrando um certo desprezo pela excelente gaita gaúcha que os italianos fabricavam aqui, alguns músicos nativos refizeram parte da história musical da humanidade ao atravessar o Atlântico para buscar acordeons italianos... fabricados na Itália. Sem o menor constrangimento, dolarizaram parte da graninha arrecadada entre os gaúchos, nas portarias dos bailes de CTG, para importar acordeons. E isso, muito antes de o esquife da última de nossas heróicas fábricas de boas gaitas ter baixado ao túmulo do repouso eterno.

Fica mais fácil de aceitar que isso tudo seja realmente o efeito de uma séria anomalia cultural enraizada na alma de arautos da música tradicionalista, quando se sabe que essas beldades estrangeiras nunca freqüentam nossos modestos galpões de costaneira esburacada, ficando reservadas para aparições "especiais". Ao contrário do que acontece com guitarras, baterias eletrônicas, luzes de boite, fumaça de gelo seco, e demais etecéteras e tais que vêm de fora e que, por esses mesmos braços, freqüentam diuturnamente os CTGs acompanhando as Todeschini. Quando não, roubando dela a cena.

Uns contam que as italianas não são pesadas só no preço. Alguns reconhecem que o som da nativa é insuperável. Tem gente que confessa que é medo de expor uma estrangeira tão valiosa a um público de nativos tão mal-comportados. O resto se queixa: "Vai ver que o nosso CTG não é bom ambiente para uma Scandalli.Eu arrisco dizer que pode ser apenas o verdadeiro ego gauchista, falando mais alto: Para pegar no serviço duro, convoque um gaúcho qualquer. Na hora de fazer bossa, contrate um forasteiro.

Mas, enfim...