Charla do posteiro cultural sobre o Chamamé

Autoria de Jorge Frederico Duarte Webber


"Quem sabe manda matar,
quem sabe manda prender
esses loucos que só cantam
e só tocam chamamé."
(O dia em que proibiram o
chamamé, Elton Saldanha)

Parece-nos que havia antes um "descuido" das lideranças tradicionalistas quanto ao chamamé, esse ritmo que muitos de nós, os gaúchos (lato sensu - refiro-me aqui também aos tradicionalistas de outros Estados brasileiros que não nasceram no RS), adoramos ouvir, bailar, assoviar, cantarolar e/ou tocar. Nos regulamentos das provas artísticas essa espécie musical não era contemplada, não sei se por esquecimento ou pura castelhanofobia aguda.

Sabemos que há no meio tradicionalista uma tendência "castelhanófoba", para a qual tudo o que vem dos "castelhanos" (gaúchos argentinos e uruguaios), via "contrabando cultural", deve ser banido, para não macular a cultura gaúcha brasileira, pois, segundo eles, a lei dos vasos comunicantes não se aplica às trocas interculturais entre os gaúchos rio-platenses e os rio-grandenses.

Sabemos, os pangauchistas, que a ótica castelhanófoba padece de um grave caso de miopia crônica, fruto tanto de rivalidades e preconceitos antigos, quanto de erros de embasamento de suas teses pretensamente científicas. Elas se desarmam sob um exame mais acurado, porque fundamentadas em sofismas e erros crassos de interpretação das teorias sociológicas e antropológicas. Sua visão de cultura é equivocada, porque não a vê como dinâmica e sim como algo estanque e estagnado.

Por esse motivo não aceitam o chamamé, o bombo legüero e a "malfadada" zamba. Mas daí a impor a todos os gaúchos a sua visão-de-mundo, seus paradigmas e seus gostos vai uma diferença! Basta tocar um chamamé em qualquer CTG deste País imenso para ver o que acontece! Seria, no mínimo, uma hipocrisia ou um tremendo contra-senso uma Federação Tradicionalista proibir, nos concursos de canto, violão, gaita (acordeom ou de boca) ou rabeca, que se interpretasse um chamamé e, naquela mesma noite, a Patronagem dessa mesma Federação fosse flagrada, no baile, mui faceirita, arrastando as botas ou as alpargatas num chamamé bem maceta, desses que ninguém fica sentado, ou, se ficar, seguramente estará mui alegre batendo a patita no chão, no compasso da gaita!

Assevera o eminente folclorista e musicólogo uruguaio Lauro Ayestarán que "el mapa folkórico no coincide con el mapa político... Los grandes cancioneros cabalgan por encima de la geografía. Y los grandes cancioneros son las reales unidades musicológicas más aún que las razas, las naciones o los simples ámbitos geográficos... Todos los países de América comparten con sus vecinos sus especies populares" (Ayestarán, 1976: 22), ainda mais depois que a música recebeu a valiosa ajuda do rádio, para levá-la mais longe em ondas médias e curtas e freqüência modulada. Outra ajuda preciosa veio de Juan Domingo Perón, que, após subir ao poder na Argentina em 1946, decretou que "50% da música tocada nas rádios deveria ser nacional" (Almeida, 1998: 214). Quem na fronteira não pegou uma "radia" correntina e não ouviu Polito Castillo, Damasio Esquivel, Trio Cocomarola, Quarteto Santa Ana (Ernesto Montiel e Isaac Abitbol), Tarragó Ros (pai) e Ramona Galarza, "la Novia del Paraná"? E mesmo longe da fronteira com a Argentina, em Jaguarão - onde já tocou o "misionero" Chango Spaciuk -, tal gênero também é mui apreciado. Aliás, não conheço ninguém mais viciado em chamamé do que o meu sogro, don Doralino Correa de Ávila, nascido no Herval, que é capaz de passar as madrugadas algariado, passando de uma faixa para outra, atrás de um programa argentino de chamamé, de preferência com temas do Monchito Merlo, dos Reyes del Chamamé e do Conjunto Ivotí. Já lhe gravei umas quantas fitas K-7, mas a paixão dele é mesmo o rádio, não adianta...!

Claro está que a introdução do chamamé no Rio Grande do Sul é recente, não tanto quanto a do bombo legüero, mas a verdade é que, segundo o Prof. Rubén Pérez Bugallo, em El Chamamé - Raíces Colonales y des-orden popular, aquela espécie musical só começou a surgir para o público portenho e argentino em geral na segunda metade dos anos 30 - a letra de "KM 11", tido como o hino de Taragüí (nome guarani de Corrientes - o de Misiones é Ñande Retã) e um dos mais pedidos nos bailes de cetegê, foi composta por Constante Aguer em 1936, com música de Mario del Tránsito Cocomarola - e seu nome só ficou estabelecido como tal no final daquela década, pois o mais usado na grande mídia era polka correntina. E mais: foi Ernesto Montiel, de Ombucito/Ctes., com sua Hohner de 8 baixos, que difundiu, ainda em fins da década de 30, "la práctica de ataviar sus músicos a la usanza gauchesca" (Bugallo, 1996: 129).

Se não me acreditam, então retornemos às velhas fontes e recorramos aos mestres precursores do MTG... a ver o que dizem sobre o dito cujo: "muito difundido pelas gravadoras de Buenos Aires, a partir dos anos 40, especificamente para o público de Corrientes e vizinhanças do Paraguai. De Corrientes o <<chamamé>> radiofônico se difundiu pelos municípios de Itaquí, São Borja, São Luís Gonzaga, Uruguaiana, Quaraí. Em Santo Ângelo um gaiteiro profissional declarou-nos: <<Aqui na fronteira gaiteiro que não sabe tocar chamamê se arrisca a ser corrido a relho do baile e só pode voltar depois de ter aprendido>>" (Lessa e Côrtes, 1975: 165-166). De resto, as informações que eles fornecem resbalam nas análises musicológicas superficiais e equivocadas do folclorista argentino Joaquín López Flores, o qual, não obstante, oferece interessantes pistas sobre a disputa em torno do nome "chamamé".

Temos muitos chamameceros de lei na nossa música regional e, no entanto, não poder tocar chamamé nos concursos de uma Federação Tradicionalista é o cúmulo! Luiz Carlos Borges, Dedé Cunha, Reduzino Malaquias (vou ficar só com estes, mas a lista é grande) e toda uma geração nova de gaiteiros "de mi flor" que vêm surgindo por todo lado são prova cabal de que o chamamé tem carta de cidadania brasileira sim! Aliás, quem estava convidado para fazer o espetáculo de Abertura do Rodeio Nacional dos Campeões da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha (CBTG)? Nada mais nada menos que o correntino don Lucio Yanel, guitarreiro internacionalmente aclamado, e o gaiteiro rio-grandense Gilberto Monteiro, acordeonista de rara sensibilidade, ambos virtuoses e grandes cultores do chamamé. Como poderiam proibi-lo aqui na região, face a este reconhecimento por parte do organismo máximo do Tradicionalismo no nível nacional?!

Ou acaso se olvidam que a mazurca, a polca, a havaneira, o chótis e outras músicas que tanto apreciamos ouvir e bailar só foram trazidas para o Rio Grande do Sul na segunda metade do século passado, e que também não nasceram do ventre da Mãe Terra Pampa o violão e o acordeom, tidos como os mais gaúchos dos instrumentos? Isso sem falar que o chamamé é uma música bem gaúcha, só que nascida na outra margem do rio Uruguai... Tivesse ele surgido no Rio de Janeiro ou na Bahia (que difundiram pelo Brasil, respectivamente, o samba e a axé music) ainda vá lá, pois não são áreas de cultura gaúcha, apesar da existência de CTGs no Rio e em Salvador! Não falo isso por preconceito contra a gente e a música de outras terras, é preciso que isso fique bem claro (pois sempre tem alguém que não entende direito o que dizemos, ou mal intencionado, para distorcer nossas palavras)! Não sou bairrista-chauvinista, mas tenho orgulho de ser gaúcho, apesar de certos tradicionalistas fajutos que deslustram o nosso Movimento.

Por isso, aplaudo com todo o meu fervor e entusiasmo a feliz iniciativa de acrescentar o chamamé entre o rol das músicas permitidas nos concursos da Federação Tradicionalista Gaúcha do Planalto Central (FTG-PC). Já não era sem tempo! Tiro o meu chapéu para a Patronagem dessa entidade, que, com tal atitude (brilhante, ainda que tardia), demonstrou que o verdadeiro Gauchismo é a sua prioridade maior. E vou aplaudi-los com mais fervor e entusiasmo ainda, quando baixarem a proibição ao bombo legüero também. Mas sobre este instrumento falarei em outra ocasião... Essa é outra história!

Prof. D. Jorge Frederico Duarte Webber


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From: Jorge Frederico Duarte Webber
To: roberto.cohen
Sent: Monday, July 17, 2006 1:38 PM
Subject: Para colocar ná Página do Gaúcho

Macanudo Cohen:

Eis aqui mais uma contribuição para prestigiar o amigo. Para colocar na Página do Gaúcho, na Coluna Seção Musical - Ritmos Musicais.

Muchas gracias pelo apoio e pela distinção, por divulgar meus trabalhos.

Um abraço bem cinchado, ermão!

Jorge.

Publicado por Roberto Cohen em 11/10/2006.