Chamamé

O chamamé entra pela fronteira
Califórnia proíbe, mas o ritmo argentino já está integrado ao repertório regional
MAURO MACIEL/ Correspondente/Uruguaiana

Corre solto pelo Rio Grande do Sul um ritmo musical contrabandeado da Argentina. O principal gênero de música folclórica do nordeste argentino, o chamamé, avança sobre o Estado, formando uma legião de apreciadores e enriquecendo o repertório das canções regionais.

No Estado, antes de conquistar os gaúchos, o ritmo argentino enfrentou seu primeiro obstáculo na fronteira. A maior resistência à entrada do chamamé na música regional ocorreu na Califórnia da Canção Nativa, em Uruguaiana. O festival jamais permitiu que ritmos estrangeiros concorressem ao troféu Calhandra de Ouro. Embora, a vizinha cidade de Paso de los Libres seja considerada um dos berços do chamamé, o ritmo é considerado estrangeiro e não aculturado pelos organizadores do festival.

Para o presidente da Califórnia da Canção, Lourival Gonçalves, canções vencedoras de Calhandras como Veterano e Florêncio Guerra e Seu Cavalo não participariam do festival se hoje fossem inscritas como chamamés.

Hoje, a produção de chamamés só perde para as milongas. Originário da província de Corrientes, o chamamé se expande também pelo Mato Grosso do Sul e São Paulo. O intérprete e compositor Pirisca Grecco, vencedor da Califórnia em 2002, considera o ritmo como o rei dos bailes gaúchos.

- Apesar da Califórnia ter proibido, o chamamé entrou de contrabando. Hoje, não há festa em que ele não esteja presente - garante.

O chamamé está cada vez mais abrasileirado

No Estado, o chamamé não encontra um ritmo equivalente. O presidente do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF), compositor Luiz Carlos Borges que o chamamé permite a improvisação. - Arrisco dizer que o chamamé será o jazz do novo milênio.

Na Argentina, o chamamé é cantado e tocado, acompanhado pelos sapucays, que, em guarani, significa "grito da alma". Entre os ritmos folclóricos argentinos, como zambas, chacareras e milongas, o chamamé é o único a permitir a emissão de sapucays e também o único a utilizar acordeão de botão.

O poeta Colmar Duarte, um dos criadores da Califórnia, propõe um debate para saber se o ritmo está aculturado ou não no Estado. Borges contesta Duarte:

- O chamamé está cada vez mais abrasileirado. Ele está tão aculturado que não tem mais o que ser mexido. Para mim, o chamamé não precisa de autorização. Ele já está autorizado há muito tempo.

O chamamé

O que é: O ritmo folclórico argentino originou-se na província de Corrientes. A palavra chamamé não é nem guarani e nem espanhola. Por isso, não há uma tradução para chamamé. Para os argentinos, chamamé significa "senhora ama-me". No Brasil, a palavra tem o significado de "chama-me para bailar" ou "aprochegar-se de mim".

Quais os maiores chamameceros argentinos: Os quatro principais chamameceros argentinos foram Ernesto Montiel, de Paso de los Libres, Antônio Tarragó Roos, Tránsito Cocomarola e Paquito Aranda. Eles produziram alguns dos chamamés mais conhecidas no Brasil, como Maria Vá, Mercedita e Kilômetro 11. No Estado, o principal chamamecero é Luiz Carlos Borges, que venceu a 21ª Califórnia da Canção Nativa com o chamamé Florêncio Guerra e seu Cavalo.


Simón Ocampo: o trabalho artesanal do único
fabricante de acordeão de botão da Argentina
Foto(s): Anderson Petrocelli, divulgação/ZH

Onde nasce o chamamé

Em Paso de los Libres, na fronteira com Uruguaiana. a casa do artesão e acordeonista Simón Ocampo já abrigou o nascimento de 3 mil acordeões de botão. Aos 71 anos, Ocampo é o único fabricante de acordeão de botão em toda a Argentina. Ocampo utiliza madeira chilena, com 30 anos de envelhecimento, para produzir seus instrumentos. Cada um deles é fabricado artesanalmente e pode custar R$ 9 mil. O artesão orgulha-se de ter sido o afinador dos instrumentos de Ernesto Montiel, o principal acordeonista argentino.


A estátua de Ernesto Montiel em Paso de los Libres
Foto(s): Anderson Petrocelli, divulgação/ZH

Uma identificação que vem desde a infância

O compositor Luiz Carlos Borges, 51 anos, conta que sua identificação com o chamamé começou na infância, no interior de Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga, e foi estimulada por seu pai, que apreciava ouvir música folclórica argentina pelo rádio. Aos seis anos, Borges decidiu que ia ser acordeonista e começou a freqüentar uma escola de música.

- Nunca esqueci aquele som ouvido no rádio. Aquilo entrou na minha cabeça e qualquer som que não fosse da costa do Rio Uruguai ou caipira eu estranhava - comenta.

Na vida de Borges, o chamamé foi motivo para duas fugas. Aos 14 anos, pela primeira vez, cruzou o Rio Uruguai sozinho para assistir a um festival de chamamé em Santo Tomé, na fronteira com São Borja. Dois anos depois, também como "fugitivo", foi ao festival de San Inácio, na Argentina, onde um amigo o apresentou para o acordeonista Ernesto Montiel, um dos mitos sagrados do chamamé argentino. O encontro marcaria para sempre sua vida artística:

- Naquela época, eu sabia tocar uns 400 chamamés e lembro que toquei um para o Montiel. Ao final da execução, ele disse: "Este brasileiro está autorizado a tocar chamamé".

Origem: Reportagem de Mauro Maciel, publicado na edição de 01 de maio de 2004 no periódico Zero Hora.

Publicado por Roberto Cohen em 01/05/2004.