Cancioneiro Gaúcho Balaio
Recolhido de Meyer, Augusto. (1959). Cancioneiro Gaúcho. Porto Alegre: Editora Globo.
Texto
1
Mandei fazer um balaio
Pra guardar meu algodão;
Balaio saiu pequeno,
Não quero balaio, não.
2
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do coração,
Moça que não tem balaio
Bota a costura no chão.
3
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio, peneira grossa,
Desamarra a cachorrada,
Capivara está na roça.
4
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do presidente;
Por causa deste balaio
Já mataram tanta gente!
5
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio de tapeti;
Por causa deste balaio,
Me degredaram daqui.
6
Recorta, meu bem, recorta
Recorta o teu bordadinho,
Depois de bem recortado,
Guarda no teu balainho.
Comentários
Não há dúvida quanto à popularidade do balaio entre os gaúchos. No "Gaúcho forte", poemeto gauchesco de Zeferino Vieira Rodrigues, vem a seguinte quadra:
Lá no fandango, de botas e esporas,
Danço a tirana, o folgazão balaio;
E ainda mesmo que me dêem pechadas,
Saio rolando, porém qual! não caio...
Segundo Roque Callage, a dança do balaio fora introduzida no Rio Grande do Sul pelos açorianos (v. Walter Spalding, "Poesia do Povo", pág. 38). Tal como chegou até nós, e como já vimos na Introdução, o balaio é brasileiro da gema e procede do Nordeste; chula baiana ou lundu pernambucano, entrou nos fandangos do Sul sem perder a marca original, como o atestam a redundância da negativa numa das nossas variantes - "não quero balaio, não" - e a coincidência quase perfeita de 1, 2, 5 do nosso texto com as versões colhidas em Pernambuco e na Bahia por Pereira da Costa e Vale Cabral (V. Pereira da Costa, "Folclore Pernambucano", in "Rev. Do Instituto Histórico e Geográfico Bras.", tomo 70, pág. 258, e Vale Cabral, "Canções populares da Bahia", in "Gazeta Literária" de 10 de agosto dde 1884, pág. 317, nro 25). Também não falta o elo intermediário; uma quadrinha reproduzida por Koseritz na "Gazeta de Porto Alegre":
Mandei fazer um barquinho
Da casca do camarão,
Para levar o meu bem
De Santos ao Cubatão.
Que evidentemente está ligada à chula baiana:
Mandei fazer um balaio
Das barbas do camarão...
E ao lundu pernambucano:
Mandei fazer um balaio
Das barbas de um baronista,
Para embarcar o balaio,
Meu bem,
Daqui para a Boa vista
etc...
Observam Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, o. c., p. 45: "Do ponto de vista musical, o Balaio guarda nitidamente a feição de nossos velhos lundus, aqueles mesmos lundus que criaram, no Nordeste do Brasil, o baião ou baiano... O Balaio, tal como se tornou popular no Rio Grande do Sul, apresenta uma simbiose bastante curiosa... Trata-se de dança sapateada e, ao mesmo tempo, dança de conjunto. A coreografia divide-se em duas partes (que correspondem às duas partes do canto): o sapateio e o girar de duas rodas concêntricas, constituídas uma por homens e outra por mulheres."
Segundo os mesmos autores, o balaio era dança popular em toda a campanha do Rio Grande do Sul, até fins de século passado.
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