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M'Bororé



Fonte
Livro "Estórias e lendas do Rio Grande do Sul", cuja seleção e organização coube a Barbosa Lessa e que faz parte da coleção "Antologia ilustrada do folclore brasileiro". Gráfica e Editora EDIGRAF Ltda. 1963.

Comentário de Barbosa Lessa: Afonso Schmidt, baseado em Ciro Dutra Ferreira, Ivo Sanguinetti, J. C. Paixão Côrtes e Luis Carlos Barbosa Lessa, do Centro de Tradições Gaúchas, em "Lendas Brasileiras", Livraria Pluma, Porto Alegre.

Os jesuítas, em sua obra de catequese, no século XVIII, inicialmente fundaram Missões no Paraguai e na região do Guaíra, e, depois, cruzaram o rio Uruguai, penetrando no atual Estado do Rio Grande do Sul. E assim, muito antes dos portuguêses e espanhóis chegaram àquelas paragens, já havia sete povoações à margem oriental do Uruguai, onde os jesuítas reuniram a gente guarani. Dentro em breve, prosperando, essas povoações se transformaram em verdadeiras cidades.

Eram elas: Santo Angelo, São Miguel, São Lourenço, São Luís Gonzaga, São Nicolau, São João Batista e São Borja.

Conseguiram reunir 30 000 habitantes nos Sete Povos. E nesse período os guaranis construíram colégios e igrejas, verdadeiros monumentos que ainda hoje dão testemunho da sua atividade.

A cidade de São Miguel era a capital dêsse verdadeiro império guarani. Sua majestosa catedral, com altares recobertos de ouro e pratarias, parecia atestar as riquezas acumuladas em decênios.

Entrementes, novas fazendas de gado e novos entrepostos de erva-mate iam se formando, sertão a dentro. Gado, mate e produtos agrícolas foram os esteios, nessa época, do poderio econômico missioneiro.

Para pôr têrmo àquele império autônomo que se formara na América do Sul e que haviam dividido entre si, Espanha e Portugal uniram-se e, primeiramente, tentaram enxotar padres e índios pela fôrça de tratados.

Os índios não quiseram abandonar seus campos; os padres não quiseram abandonar suas cidades.

E assim se originou uma das mais desiguais guerras daquele século: Espanha e Portugal contra os guaranis dos Sete Povos!

Ante o avanço dos dois exércitos europeus, os lanceiros guaranis foram morrendo aos milhares. E dentro em pouco os exércitos invasores batiam às portas de São Miguel.

Os padres, na hora aflita da invasão, abandonaram as suas fazendas. E, na fuga precipitada, não podendo levar consigo as riquezas, confiaram-nas às terras e águas que lhes pareceram propícias.

No entanto, êsses tesouros não ficaram de todo abandonados à cobiça dos homens. Índios devotados aos padres ficaram de guarda. E como aquilo já passou de duzentos anos, êles fiéis à sua missão, envelheceram, morreram e depois de mortos, continuaram a defender os tesouros.

M'Bororé é o vigia das casas brancas.

Èsse índio era amigo dos santos padres das Sete Missões, da terra que dá vertentes para o Uruguai. Dentro do mato, no alto de uma lombada, há uma casa branca, branca como caiada, sem porta em nenhum lado, sem janela em nenhuma altura. Dentro, as salas estão lastradas de barras de ouro e barras de prata, tão pesadas que são precisos dois homens para remover cada uma delas. E tôdas as juntas das pilhas estão tomadas de pedras preciosas. Por cima de tudo, estão os castiçais, os resplendores de santos, feitos de ouro maciço. E salvas de prata, turíbulos e cajados. Seria um nunca acabar se fôssemos enumerar as riquezas ali reunidas.

Quando os padres foram tocados, M'Bororé ficou tomando conta da casa branca que já estava feita, sem portas nem janelas. Guardou-a enquanto era môço, guardou-a depois de velho e, depois de morto, continuou a guardá-la como um índio fantasma. Continua a guardar até hoje, rondando a casa branca sem portas nem janelas.

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Conta-se também que algumas cargas de ouro, e pedras preciosas foram retiradas das cidades, naqueles dias, e levadas para esconderijos nas serras.

Na Toca do Bugre, por exemplo, situada no atual município de Bajé, nas proximidades dos cerros de Santa Tecla, existem grutas onde há mais de duzentos anos se en contram escondidas grandes riquezas. Os tesouros ocultos estão confiados à guarda de um jovem índio, o fiel Cumbaé.