Até mais, Chimango
Telmo de Lima Freitas
Poeta e compositor
É muito difícil falar de Jayme Caetano Braun, o velho Chimango, parceiro de cantigas e rodadas de truco.
Quando, pelo ano de 1957, no legendário Nhô Porã, Campo Bonito, junto com velhos amigos, irmãos das mesmas crenças telúricas, das mesmas carpas de carreiras, do mesmo fogo de chão, por que não dizer, daquelas noitadas de entrar madrugada adentro, com tio Cláudio Torronteguy, velho manduca, Apparício Silva Rillo, o bolicheiro Mambelo, irmão João Lucas de Araújo, Luiz Silva, o Potrilho e muitos outros, lavramos tarcas de causos e versos.
O tempo fez nos reencontrarmos na Capital dos Casais, no rancho da tia Lola e do tio Rubem Rober, que era o nosso saleiro. Depois da bóia, o tradicional jogo do rabão (truco), que se estendia até o horário do serviço. Muitas falta-envido, muitos retruco, muitos quero-e-vale-quatro. Parece que o rancho vinha abaixo com os gritos e algazarra. Mas desta vez, com 33 de espada, perdeu de mão.
O tapejara de São Luiz Gonzaga, a enciclopédia campeira, deixa um vazio no tempo. O grande vate da Estância da Poesia Crioula, o homem que enfrenava um cavalo conversando, o homem que não beliscava uma ovelha nos seus tempos de esquilador, o guasqueiro que desquinava um tento como só ele, sempre com uma faquita cortadeira à mão de semear e um schimite à mão de trago, o homem que conhecia o arroio que dava vau. O Rio Grande não vai se acostumar com a ausência desse telúrico trançador de versos.
Dizia ele:
- A minha academia foi quando bolichei, quando andei de fogão em fogão, olfateando a terra vermelha do meu chão, ali foi o meu bebedor das coisas campeiras.
O cantador galponeiro encilhou seu flete pela última vez e partiu para a tropeada mais longa, tendo como sinuelo a estrela boeira.
Jayme Caetano Braun,
Filho de São Luiz Gonzaga,
No terceio duma adaga,
Nunca se enliou nas esporas.
O payador das auroras,
O campeador gauchesco,
Abriu coivara payando,
Alçou um vôo acenando
Com a aba do chapéu,
Sabendo que, lá no céu,
Existem alguém esperando.
Quem sabe o Ciro Gavião,
Quem sabe Aureliano Pinto,
Quem sabe o negro retinto,
Que se chamava Anastácio,
Quem sabe até don Pascácio,
Andejo dos corredores,
Guasqueiros, alambradores,
Ginetes da cepa antiga
Vão esperar com cantiga
O maior dos payadores.
Deixou tropilhas de rimas,
Retouçando nos galpóes,
As futuras gerações
Seguirão teu catecismo,
Honrarão teu gauchismo
Que jamais será disperso.
Pois quem deixou universo
De payadas igual às tuas
Volta nas noites de lua
Para enfrenar mais um verso.