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Contato dos indígenas com os europeus



Fonte
Livro "História do Rio Grande do Sul", autoria de Telmo Remião Moure. Editora FTD Ltda. 1994.

A conquista da banda oriental do rio Uruguai pelos europeus e seus descendentes teve graves consequências para os indígenas. Foi uma história de saques, pilhagens, mortes, dores e lágrimas. Em nome dos valores cristão-ocidentais, praticou-se o genocídio dos indígenas, a apropriação de suas terras, a destruição de sua cultura.

Nas primeiras décadas da presença europeia na América, a escravidão indígena para o trabalho em minas, engenhos e fazendas gerou intensa polêmica. O dominicano Bartolomeu de Las Casas conseguiu que o rei Carlos I, da Espanha, permitisse a utilização da mão de obra africana nas colônias e proibisse a escravidão indígena. Em 1534, o Papa Paulo III caracterizou os indígenas americanos como seres humanos, isto é, possuidores de alma. Isso não bastou, e os indígenas continuaram sendo tratados pelos colonizadores como se fossem animais.

A colonização da América provou uma ilimitada oferta de terras, e a carência de trabalhadores livres para cultivá-las estimulou a escravidão indígena.

Assim, os indígenas que viviam na banda oriental do rio Uruguai foram caçados e aprisionados pelos bugreiros e bandeirantes nos séculos XVII e XVIII. Eram utilizados como soldados nas campanhas militares entre portugueses e espanhóis e para combater outras tribos. Além disso, os indígenas foram exterminados pelas doenças que acompanhavam os colonizadores europeus.

Existe uma farsa ao considerar o indígena indolente, um preguiçoso incorrigível. Se essa concepção fosse verdadeira, porque ocorreram centenas de expedições conhecidas como bandeiras, caçando indígenas para vendê-los como escravos? O capítulo dos bandeirantes, presente em todos os livros de História do Brasil, é pura ficção? Se o indígena era ocioso e imprestável ao trabalho, porque as reduções alcançaram níveis eficientes de organização produtiva? Tanto isso preocupou os interesses dos portugueses e espanhóis que as reduções sofreram boicotes econômicos, pressões políticas e destruições militares.

Considerar o indígena um vagabundo equivale a negas as raízes históricas do Rio grande do Sul, uma vez que os domadores e vaqueiros, iniciadores da formação social criadora de gado nas estâncias eram indígenas. O gaúcho descende desses.

Já no século XIX, a implantação da lavoura de café em São Paulo obrigou os indígenas a procurarem refúgios em outras regiões. Os que chegaram ao Rio Grande do Sul estabeleceram-se em áreas do planalto, mas logo foram ameaçados e destruídos pelos agricultores de origem europeia que recebiam pequenos lotes de terras. Os imigrantes, a maioria germânicos e italianos, recorriam aos serviços de bugreiros especializados na destruição de aldeias e na matança de indígenas. Isso explica por que os gês do Rio Grande do Sul já não existem. Os que migraram de são
Paulo pertencem ao grupo kaingang.

A destruição dos pampeanos foi facilitada por seu modo de vida nômade. Sobrevivendo da caça, pesca e coleta de vegetais, a ocupação das terras pelos criadores de gado impediu que esses indígenas se deslocassem de um lugar para outro, o que acabou destruindo sua cultura. Os pampeanos foram extremamente arredios aos contatos com os europeus e seus descendentes. Eles jamais aceitaram as reduções jesuíticas. Mesmo assim, eram frequentemente envolvidos nas lutas entre portugueses e espanhóis, sendo utilizado nas missões militares mais arriscadas. Nessas condições, eram facilmente abatidos pelos inimigos.

Resultado: hoje não existem remanescentes dos pampeanos no Rio Grande do Sul, Uruguai e norte da Argentina (província de Entre Rios e Corrientes).

A descaracterização dos indígenas pampeanos também se deve à sua utilização como peão de estância nos primórdios da pecuária gaúcha. O cavalo, trazido pelos colonizadores, exerceu forte atração entre os indígenas, em especial nos pampeanos, que logo se transformaram em habilidosos cavaleiros. A figura tradicional do gaúcho (o vaqueiro) está profundamente relacionada com esses indígenas.

Quanto aos guaranis, cabe ressaltar que foram mais receptivos aos colonizadores. As reduções organizadas pelos jesuítas espanhóis assumiram tal importância que escaparam ao controle das coroas ibéricas, obrigando-as a expulsar os jesuítas dos domínios portugueses em 1759, e dos espanhóis em 1768. Após essas providências, aos poucos as terras dos guaranis missioneiros foram ocupadas pelos colonizadores, o gado roubado e a população indígena dizimada, expulsa ou escravizada.