Rio Pardo

(20/05/1811)

O Rio Grande do Sul pertence ao Brasil por causa de Rio Pardo. Essa afirmação é baseada na importância que teve a Fortaleza Jesus Maria José e na demarcação e preservação do domínio português contra o avanço dos espanhóis no sul do continente. Com o Tratado de Madri, em 1750, firmado entre as duas potências, Rio Pardo passou a ser a fronteira entre as colônias a partir da segunda metade do século 17. A construção da fortaleza começou em 1753. Ela abrigou o Regimento dos Dragões e foi palco de batalhas que consolidaram posições lusas. Nunca foi tomada, por isso ficou conhecida como a "Tranqueira Invicta".

Apesar de ter surgido por uma necessidade de estratégia militar, Rio Pardo desenvolveu aos poucos um forte núcleo populacional, que se transformou em centro comercial até meados dos século 19. Os primeiros colonizadores, basicamente açorianos, conseguiram fazer progredir o município, apesar das tentativas de invasões espanholas, desenvolvendo uma forte vocação comercial, além da agricultura e pecuária.

Devido à privilegiada posição geográfica, entre os rios Jacuí e Pardo, a cidade passou a ser o principal ponto de abastecimento do Estado, atraindo tropeiros, já que o transporte era feito, essencialmente, por via fluvial. Seu território chegou a abranger 16.803 km2, ou seja, mais da metade do território da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul (1807).

José Wunderlich (Comissão de Estudos de Alternativas para o Patrimônio Histórico de Rio Pardo) explica que o declínio foi se acentuando gradativamente. Durante a Revolução Farroupilha, houve diversos saques e o poder se revezou entre imperiais e farrapos. Também a Guerra do Paraguai teve a participação de lideranças rio-pardenses. Em 1867, a cidade foi acomedida por uma violenta epidemia de cólera, que dizimou metade da população. A doença atingiu tais proporções que os mortos eram enterrados em valas comuns.

A construção da estrada de ferro (1885) foi outro golpe, já que desviou a rota comercial para Santa Maria. Além disso, o município perdeu parte de seu território com o desmembramento de Santa Cruz do Sul, Cachoeira, Encruzilhada e Candelária, entre outros - ao todo são mais de 200 municípios que ocupam a área que já foi de Rio Pardo.

No início deste século, a transferência da escola militar para Porto Alegre e a retirada dos últimos batalhões, em uma cidade com forte vocação militar, aceleraram a decadência. A construção da BR-290 diminuiu ainda mais a importância de Rio Pardo, criando um núcleo em Pantâno Grande.

Pouco resta da arquitetura açoriana original em Rio Pardo. Os sobrados e casarões de linhas com suas janelas arqueadas, eiras e beiras e cachorradas (beiradas de madeira) foram se transformando com o tempo e sofrendo influências de outras correntes arquitetônicas, principalmente do neoclássico francês do final do século 18. Provavelmente, a característica mais marcante que ainda resta são as suas igrejas, prova do apego religioso dos primeiros colonizadores.

A matriz Nossa Senhora do Rosário é uma das mais antigas (1779). Seus sete altares representam a devoção das classes sociais da época, indo do mais simples aos mais rebuscado revestimento em ouro, embora tenham recebido camadas de tinta. Também podem ser vistas as sacadas que eram ocupadas pelos nobres para não se misturarem ao povo e à burguesia.

Para a arquiteta Vera Schultze, é difícil definir um estilo único para o local. Vera cita como um autêntico exemplo da arquitetura portuguesa do século 19 o atual Museu Barão de Santo Ângelo, onde nasceu e viveu o almirante Alexandrino de Alencar. A casa foi reconstruída em barro e madeira e preserva os traços originais, apesar de ter sido restaurada. Tem na parte inferior uma senzala que abrigava os escravos domésticos.

Outro bom exemplo de preservação é a Rua da Ladeira, atual Júlio de Castilhos, que foi uma da primeiras ruas calçadas do Estado (1813). Feita com blocos de pedras irregulares e escoamento central, servia para ligar a fortaleza à parte residencial da cidade. É tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Outra característica curiosa são as eiras e beiras, detalhes que cincundavam os telhados e representavam sinais de ostentação.Daí a origem da expressão "sem eira nem beira" referir-se às classes menos abastadas.

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.