Rio Grande

(12/02/1811)

A antiga capital nasceu duas vezes

Local de inúmeras e sangrentas batalhas pela disputa de terras entre portugueses e espanhóis, Rio Grande comemorou seu nascimento duas vezes. Talvez não imaginasse o sargento-mor da armada portuguesa, José da Silva Paes, que a festa organizada por ele na fundação da cidade, em 19 de fevereiro de 1737, se repetiria quase nos mesmos moldes quatro décadas mais tarde. Quando sua esquadra liderada pela galera "Bonita" onde viajava, aportou na orla de Rio Grande de São Pedro, era dado o primeiro passo na colonização da porção de terra de maior importância estratégica no sul do Brasil. A fundação da primeira vila da Província do Rio Grande do Sul abriu uma porta para o ingresso de tropas militares em qualquer ponto do Estado devido à facilidade oferecida pelo porto marítimo. Nascia a colonização do Rio Grande do Sul. Na faixa de terra localizada ao norte da península e denominada Rio Grande de São Pedro, Silva Paes tratou de mandar construir o primeiro forte em madeira e torrão da região denominado Jesus-Maria-José. O forte tinha espaço suficiente para acomodar toda a sua guarnição composta de 254 homens. O árduo trabalho demorou meses. O terreno era muito arenoso. A madeira precisava ser transportada de muito longe.

Rio Grande se firmou no cenário da época. Mas, em 1763, a história mudou. Os espanhóis, insatisfeitos em não dominarem Rio Grande, cujo território achavam lhes pertencer, invadiram e dominaram o município. A guarda portuguesa não suportou a carga desferida pelos soldados espanhóis e fugiu para o outro lado do canal, estabelecendo-se em São José do Norte. A ocupação da cidade de Rio Grande pelas forças do exército espanhol durou 13 anos, tempo em que foi dominada pela Coroa da Espanha. A permanência dos espanhóis não trouxe qualquer benefício ao município.

As construções das primeiras residências e prédios pararam. Nada foi feito. Nem um prédio foi erguido. "Deixaram a cidade cair aos pedaços", diz o jornalista e pesquisador Daoíz de Ia Rocha. No livro de registros da Igreja de São Pedro, construída em 1756 pelos portugueses - hoje a Catedral de São Pedro não consta sequer um batizado ou casamento de espanhóis naquela época. "Rio Grande era simplesmente um quartel militar", afirma de la Rocha.

No outro lado do canal, em São José do Norte, os portugueses arquitetavam uma forma de reconquistar a terra perdida. O silêncio que reinou durante mais de uma década entre as duas porções de terras separadas por um canal com pouco mais de um quilômetro de largura só foi quebrado graças a um plano ardiloso e meticulosamente arquitetado, colocado em prática na noite de 31 de março de 1776. Soldados portugueses vestidos com trajes de gala soltavam fogos, acendiam fogueiras, dançavam e cantavam. Era o aniversário da rainha de Portugal, Mariana Vitória. Despreocupados, os espanhóis aliviaram a guarda. "Acreditavarn que os portugueses não atacariam no outro dia porque estariam cansados da festa", revela Daoíz de Ia Rocha. No entanto, tudo não passava de pura encenação. Um plano malicioso do comandante-geral Johann Heinrich Bohm, um alemão contratado pela Corte de Portugal para reconquistar Rio Grande, cidade revestida de importância estratégica para os militares por causa do porto marítimo.

O plano foi posto em prática na madrugada do dia 01 de abril. Os soldados portugueses se apossaram dos fortes Santa Bárbara e Trindade, dominados pelos castelhanos. O pavor tomou conta do inimigo. Houve violenta batalha, com centenas de baixas de ambos os lados. Percebendo a desvantagem, os soldados espanhóis trataram de fugir para o Uruguai. Estava mantida, para sempre, a soberania da cidade gaúcha. Rio Grande comemorou com festa seu novo nascimento.

Violência não poupou a igreja

Uma das heranças mais importantes deixadas pelos colonizadores portugueses em Rio Grande foi a igreja de São Pedro. A atual catedral do município foi inaugurada em 1755, depois de quase quatro anos em construção. O templo em estilo barroco, localizado no centro da cidade, guarda lembranças de uma passagem trágica na história do município. Em 1776, foi alvo de um ataque bárbaro dos soldados espanhóis que se mantiveram no domínio do governo do município durante longos 13 anos, desde 1763. O prédio se manteve intacto, mas o altar-mor, esculpido cuidadosamente em madeira, foi roubado pelos espanhóis numa demonstração de raiva por terem sido expulsos de forma humilhante pelos portugueses na sangrenta batalha pela reconquista de Rio Grande.

Humilhados por um plano hábil da força de guerra portuguesa, no dia 01 de abril de 1776, os espanhóis fugiram de Rio Grande. Houve trágica batalha. Os castelhanos não se retiraram, porém, sem antes devastar a cidade. Puseram fogo em muitos prédios, saquearam e roubaram a população. "O altar-mor original da igreja de São Pedro acabou sendo roubado pelos espanhóis". afirma o jornalista Daoíz de Ia Rocha.

O altar foi levado para a capela Forte de Santa Tereza, no Uruguai. Atualmente, a Catedral de São Pedro, o mais antigo templo católico em estilo colonial português existente no sul do Brasil, guarda uma lembrança fundamental da reconquista: uma cópia quase exata do monumental altar-mor construido pelos colonizadores portugueses no século XVIII.

A construção da igreja começou no reinado de D. João 1. Os portugueses utilizaram muitos materiais importados de Portugal, como o altar de madeira e o pórtico de entrada. O cimento das paredes foi engrossado com o que havia em abundância na região: conchas do mar. O templo religioso foi erguido no lugar da igreja de Nossa Senhora do Rosário, destruída por um incêndio em 1752.

Na batalha de reconquista de Rio Grande em abril de 1776, liderada pelo comandante Johann Heirinch Bohm, auxiliado pelo brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, pouco do que havia sido construido pelos colonizadores portugueses antes da invasão pelos espanhóis foi preservado. Depois da morte de Pinto Bandeira, seus restos mortais foram depositados numa urna funerária no interior da igreja.

A fé perpetuada em madeira

A luta pela reconquista da cidade de Rio Grande durou anos e teve o gosto amargo da derrota. Antes da vitória contra os espanhóis, houve sangrenta luta. Os castelhanos invadiram o município em 1763 e o mantiveram por 13 anos. A armada portuguesa travou a primeira batalha pela reconquista em fevereiro de 1776, por ordem de D. Luis de Almeida Soares, vice-rei do Brasil. Mais de 400 homens se deslocaram de Santa Catarina em fragatas com o objetivo de expulsar os espanhóis. Na empreitada desastrosa da armada, a promessa feita por um jovem soldado português, José da Silva, ficou perpetuada através dos séculos, encravada e pintada em madeira.

Vendo-se em risco de vida, o soldado desprotegido num escaler (antiga canoa aberta de madeira) lutava sob fogo cruzado de canhões e mosquetes. Em meio à batalha, Silva rezou para Nossa Senhora da Penha - que atendeu suas preces. Em agradecimento, Silva entalhou e pintou na madeira a imagem que teve da batalha: "Milagre que fez Nossa Senhora da Penha de França a José da Silva saindo com uma armada da ilha de Santa Catarina para o Rio Grande combateu com um armada castelhana e vendo-se em tão grande perigo, em um escaler entre a artilharia, se pegou com a dita Senhora e ficou livre do perigo - Ano de MDCLXXVI".

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.