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Revista Ícaro Brasil, julho/1997
textos de Carlos Moraes
fotos de Lalo de Almeida

Na última metade do século passado e princípios deste, os historiadores vêem o pampa gaúcho como um autêntico formigueiro de carretas de boi. Em 1875, com a inauguração do novo porto em Pelotas, passaram pela ponte Santa Bárbara 6.574 carretas. Em 1907 a intendência de Bagé registrava 366 carretas lotadas na comarca. Havia, nas cidades nascentes, além de uma praça própria para descarga de produtos, toda uma política da carreta, com taxas, código de posturas, ruas e horários bem definidos. Visitantes estrangeiros admiravam-se de ver comboios de dez, 12 carretas recortando a monotonia do pampa, carregadas de todo tipo de mercadoria. De carreteiros mais bem sucedidos surgiram as famílias dos maiores fazendeiros gaúchos. Dizia-se que um moço com uma carreta e quatro juntas de bois já podia casar. Meninos amarravam bois de sabugo numa caixa de sapato e orgulhosamente brincavam de carreteiros. Era a glória da carreta.
Revendo a história da época, como fez Osório Santana Figueiredo, um sólido pesquisador de São Gabriel, o tempo inteiro, na paz e na guerra, a presença da carreta de boi é registrada. Valentes, serviçais, foram trem de carga e casa de família, farmácia de remédios e paiol de munições, loja de bugigangas e carro de defunto, quartel-general e bolícbo, presídio e prefeitura, capela e prostlbulo. Durante a Guerra dos Farrapos, até mesmo a imagem do poeta, "caravelas de zinco", teve sua hora da verdade. Quando Garibaldi quis transportar dois lanchões da Lagoa dos Patos para a lagoa do rio Tramandaí, valeu-se de duas carretas de boi puxadas, cada uma, por 50 juntas. Duzentos bois puxando dois barcos por mais de cem quilômetros campo afora. Nem o Fellini de sempre nem o Herzog de Fitzcarraldo gostariam de ter perdido a cena.
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