editado em 20/12/2002
por Roberto Cohen
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CORREIO DO POVO PORTO ALEGRE, DOMINGO, 22 DE DEZEMBRO DE 2002 Folclorista rechaça Papai Noel de bombacha Paixão Côrtes diz que figura do velhinho de roupas nórdicas é usada de forma comercial e que querem agauchar a religião
Paulo Mendes O folclorista João Carlos Paixão Côrtes condena as recentes encenações natalinas nas quais o Papai Noel aparece vestido com trajes típicos gaúchos. 'Isso não existe', cutuca o historiador de 75 anos, nascido em Santana do Livramento que, junto com Barbosa Lessa, é responsável pela maior garimpagem de temas folclóricos e populares do Rio Grande do Sul, incluindo danças, culinária, trajes e instrumentos musicais. Conforme o tradicionalista, colaborador do programa Flávio Alcaraz Gomes, da Rádio Guaíba, autor de mais de 40 obras publicadas sobre a cultura gauchesca, a figura do velhinho surgiu no Rio Grande do Sul após a 1ª Guerra Mundial, baseada em um santo (São Clauss para os nórdicos europeus) da Igreja Católica. 'Foi criado pelo desenhista Tomas Nast, que se inspirou em um poema de seu compatriota norte-americano Clemente Clark Moore.' Além disso, diz Paixão Côrtes, a indústria comercializa e profaniza essa figura. 'Nast deu-lhe forma, traços e cores, restaurou a cor vermelha da roupa do velho bispo Nicolau e acrescentou uma capa também rubra. O caricaturista inventou um gorro vermelho e, mais tarde, a roupagem de inverno foi simplificada para um gibão, uma espécie de calça abombachada. De acordo com o folclorista, os organizadores dos eventos precisam valorizar o Natal tipicamente gauchesco, abandonando pinheiros europeus, trenós e roupas de lã. 'O verdadeiro Natal Gaúcho é uma festa da família, onde se comemora o nascimento de Cristo diante de um presépio, representativamente, com a presença do Menino Jesus na manjedoura, com burrico, vaquinha, ovelha, cânticos fundamentados em mensagens de um cristianismo puro e singelo, anunciando a chegada dos Reis Magos', ensina o pesquisador. Paixão critica nomes utilizados em algumas encenações como 'Guri de Nazaré' ou 'Prenda do Céu'. Para ele, 'querem agauchar a religião'. Acrescenta que o folclore rio-grandense é rico e os Ternos de Reis, por exemplo, constituem uma tradição que deveria ser preservada. 'Nossas comunidades açorianas a praticam há muito tempo', observa. Porto Alegre - RS - Brasil |
Natal Gaúcho e os Santos Reses![]() extraído do livro
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Foi assimRecordo-me bem. Findava 1950. Viajara de ônibus a Osório. Dali até a Vila Maquiné, na carroceria de um caminhão de carga e chegara, com a boca da noite, à Sanga Funda em uma carroça colonial puxada por dois burricos... A exaustão pialou-me, e o cansaço atirou meu corpo em uma tarimba. Senti então o trepidar dos bondes, as buzinas roucas nas esquinas; o apitar das fábricas; rodei por encrespadas coxilhas e por horizontes fechados; matei a sede na guarapa dos canaviais; ouvi "causos-marinheiros" - da Lagoa dos barros; enxerguei o colar alvo do mar e pescador a falar, cantando; colori os olhos na fartura das lavouras da Encosta da Serra e provei o vento salgado que amenizava a fornalha daquele 31 de Dezembro. A noite inteira se sucederam imagens como estas, bem distintas daquelas que habitualmente vê um homem da fronteira, como eu. Mas o silêncio do alvorecer, embalado pelo sussuro da Sanga Funda e do canto da mata, quebrou-se. Era uma música estranha, com sabor de cantochão, que se misturava ao perfume silvestre do meu colchão de pasto e, o aroma gostoso de um travesseiro de marcela. Vozes ásperas, como de quem trabalha na enxada, mas afinadas como batidas de araponga, cantaram assim:
"Agora mesmo cheguemo Tentei me refazer do sonho, quando senti que a noite me roubara um ano...
"Acordai se estás dormindo Assim, ouvi, pela primeira vez, um autêntico Terno. Fiquei fascinado pela beleza rústica da maneira de cantar e o profundo sentimento cristão, que brotava dos corações daqueles homens simples do Litoral, a cada verso que lhes vinha à boca. Em minha infância, já ouvira, da minha avó, algumas quadrinhas. E encontrara referências vagas na literatura regional. Mas, ali estava eu diante de um autêntico Reses... Daquele primeiro de janeiro de 1951, comecei a tirar este TERNO DE REIS, que vos apresento. |
Ó de casa!Sempre que se aproxima o fim do ano, vejo entristecido que a querência vai se deixando envolver, mais pelas fantasias das luzes da cidade, pela ambição de um certo comércio, sedento de grandes lucros. Refiro-me ao PAPAI NOEL e ao NATAL. Desde meus tempos de piá, cruzando a linha divisória que une Santana do Livramento à Rivera (Uruguai) e, anos mais tarde, quando em pesquisa sobre música folclória, visitei o Paraguai, Argentina e Bolívia, verifiquei ainda a diferença das comemorações do Ciclo Natalino desses países com o nosso. Aliás, da América Latina, é, mais freqüente no Brasil, que apareça a figura, misto de "Lucifer-santo", atemorizando as crianças travessas e faltosas, prometendo-lhes varas de marmelo e, quase ao mesmo tempo, com um saco de brinquedos às costas, estende a mão aos guris comportados, oferecendo-lhes "bondosamente" presentes. Na maioria dos demais países sul-americanos, não encontramos Papai Noel distribuindo presentes no Natal, como acontece em nosso país. A verdadeira tradição natalina rio-grandense é aquela em que se comemora o dia do nascimento de Cristo, diante de um presépio, com Menino Jesus na manjedoura, com burrico, vaquinha, ovelha, cânticos, anunciando a chegada dos Reis Magos... Este é o verdadeiro NATAL GAÚCHO Festa da família. "Dia de Navidad" como denominam os países de língua espanhola na América do Sul. Qual a razão do renascimento do culto de uma árvore, tão difundido entre os povos mais primitivos? De onde é, este tipo de pinheiro, estranho ao nosso, que se desenvolve em determinadas regiões do Brasil? Imaginem só! No mais forte do verão, aqui, um Papai Noel vestido com grossas roupas de lã, capuz, todo respingado de neve, descendo, de botas, de uma chaminé ou sentado em um trenó, puxado por gamos... Velinhas e bolinhas coloridas completam os enfeites das mesas onde são servidas nozes, tâmaras, torrones, chocolates, ameixas secas, passa, etc, alimentos de alto teor calorífico, próprios para o inverno, em pleno clima europeu... Tudo isso num país tropical como o Brasil!!! Entretanto, tentemos encontrar, na história universal das festividades natalinas, algumas explicações para o surgimento de certos acontecimentos, hoje vividos em muitos rincões do mundo.
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No Rio Grande do SulO nosso homem do campo desconhece as comemorações do natal à maneira como hoje são usuais nas cidades, como uma árvore de neve, enfeitada, e de presentes ansiosamente esperados, com um Papai Noel atemorizando os guris travessos ou fazendo elogios ao bom filho. Isto não quer dizer que no campo os homens tenham se esquecido das mensagens cristãs de Natal, a entrada do Ano Novo e o Dia de Reis. Se o dia primeiro de janeiro é festivamente assinalado por um churrasco e "ressacas", não menos vibrantes são os festejos de Natal, com os "Ternos de Reis" - grupos musicais que anunciam, de rancho em rancho, de casa em casa, o nascimento do Salvador. O objetivo desta visita varia de um terno para outro: alguns visam unicamente louvar a memória de Jesus Menino; outro terno visa propiciar aos cantadores uma doce retribuição ao desgaste de suas cordas vocais, através de fartos comes e bebes que os donos da casa nunca se esquecem de oferecer. Finalmente, há aqueles que, oprimidos pelas necessidades materiais que muitas vezes afligem nossos trabalhadores rurais, saem "pedindo os reis", na certeza de que ao menos no campo ainda não se esqueceram de toda as lições de fraternidade que Cristo legou aos nossos homens de bem. Cantiga de Reses - OrigensA "Cantiga de Reses" é uma tradição comemorativa da visita dos Reis Magos quando do nascimento do Menino Jesus. Sua origem perde-se na poeira dos tempos e hoje se resguarda nos rincões mais afastados de nosso pago, onde as inovações do progresso ainda não se firmaram e onde a gente simples e boa não precisa apelar para nada mais do que seus sentimentos cristãos, a fim de conseguirem beleza e alegria para as festas do Natal. É uma festividade alicerçada nos acontecimentos bíblicos da religião católica. Esta herança, que nos legaram os colonizadores portugueses, encontrar-se não somente no Rio Grande do Sul, mas é rememorada em muitíssimos estados do Brasil, onde foi sofrendo modificações, ampliadas por motivos folclóricos particulares, conforme atestam os trabalhos realizados por eminentes folcloristas, como sejam: Crispim Mira, Morais Mello Filho, Achiles Porto Alegre, Câmara Cascudo, Renato Almeida e tantos outros, afora os mencionados anteriormente.
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Expansão e declínioOs ternos foram cantados em quase todo o Rio Grande do Sul, com maior ou menor intensidade neste ou naquele rincão (sendo que numa pequena faixa da fronteira com o Uruguai e Argentina essa manifestação é desconhecida), ou raros cantadores faziam seu "peditório" quase que somente nas cidades. Hoje, ainda vamos encontrar este acontecimento pelas regiões ribeirinhas de Jacuí, Taquari, Sinos, Gravataí, etc, que formam o grande estuário do Guaíba, bem como a área lacustre dos Patos. Todavia, é numa boa região litorânea, onde esta tradição é mais pura, mais viva. Elaboramos um mapa, no qual pode-se observar que essa manifestação parece ter sido mais intensa no Rio Grande do Sul, nas regiões onde a colonização açorita esteve mais presente, bem como nos rincões onde a influência dos "catirineta" é marcante. Entre os muitos fatores que contribuíram para o quase desaparecimento dos Ternos de Reis em nosso estado, destacamos a máquina do progresso, trazendo enfeites e missangas coloridas; o surgimento de "novas modas" lançadas pelos meios de comunicação, especialmente rádio e tv; determinadas medidas policiais, que perduraram por mais de uma década, por todo o País do chamado ESTADO NOVO, e que, em muitas regiões faziam confundir "tradição" com atentado à "Ordem e Progresso" da nossa bandeira, só permitindo a glorificação do nascimento de Cristo pelo Terno, após o pagamento de uma licença que era conseguida em uma "delegacia" situada a dezenas de quilômetros. Caso contrário, o "terno ia tirar reses no xilindró". Estas "leis", aplicadas pelos discutidos "inspetores de quarteirões" - "zeladores da tranqüilidade e sossego público" - fizeram com que, em rincões outrora tão vivamente festejado, os Ternos atravessassem um período de letargia residindo, mais na memória saudosa de alguns velhinhos dos "bons tempos". Deve ser lembrada também a atitude e incompreensão de certos clérigos de outrora, vindos de regiões coloniais de formação cultural ítalo-germânica e sem raízes brasileiras... Felizmente, este aspecto vem se modificando, e as próprias resoluções do último Concílio Ecumênico, recomendam em sua Constituição "Sacrosanctum Concilium" da Sagrada Liturgia, entre outras coisas, que "O canto popular religioso seja inteligentemente incentivado de modo que os fiéis possam cantar nos pios e sagrados exercícios e nas próprias ações litúrgicas de acordo com as normas e prescrições das rubricas"; "quando se encontrarem em algumas regiões, principalmente nas missões, povos que têm uma tradição musical própria, a qual desempenha importante função em sua vida religiosa e social, deve-se tomar em conta essa estimação da música, e dar-lhe um lugar conveniente tanto para lhes formar o senso religioso, quanto para adaptar o culto à sua mentalidade, de acordo com os arts. 39 e 40".
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ParticipantesÉ variável o número de participantes de um Terno, pois nem sempre os cantadores são também instrumentistas, e isso obriga a uma maior divisão de funções. No geral, não vai além de oito pessoas: o Mestre ou Guia e o Ajudante de Mestre; Contramestre e Ajudante de Contramestre; o Tipe; o Tambor; o Triângulo e a Rabeca. O Mestre, que é o diretor, deve não só ser bom repentista como também um bom conhecedor da história do nascimento de Jesus, principalmente no que se refere à visita dos Reis Magos. Obrigatoriamente, o grupo - chamado menos frequentemente de "folião" - não veste roupa especial. No entanto, em muitas oportunidades encontramos as figuras dos Três Magos com coroas, capas e túnicas coloridas, convencionadas pela religião católica. Os referidos Reis podem ou não integrar o próprio conjunto musical ou vocal do Terno. Em outras regiões, os "cantadores de Reses" se apresentam só com coroas (também de papelão) e roupas de uso cotidiano. Há ainda grupos em que Baltazar, Gaspar e Melchior são crianças, vestidas a caráter, levando, simbolicamente, cofres e oferendas com que os Magos presentearam o Deus Menino, no presépio. Em outros Ternos, uma criança vai à frente carregando uma haste de madeira (vime), na extremidade da qual, vê-se uma estrela-guia (de papelão prateado) fixa, como a indicar o caminho que orientou aqueles que foram adorar Jesus na manjedoura. No Rio Grande do Sul, estão ausentes palhaços, estandartes e outras figuras, e a apresentação dos Reses não tem vínculo com pagamento de promessas. Embora raro, encontrava-se outrora na região litorânia do Norte do Estado, Ternos acompanhados de "Pau-de-Fita", "Boizinho", "Buma-meu-boi", etc, então com suas representações coreográficas algo dramáticas, lembrando um Rancho definido por Mario de Andrade. Apareciam também, por vezes, homens vestidos de mulheres, bem como os arcos de flores das "Jardineiras", o cavalinho, o porco, caetetu, uma verdadeira bicharada.
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Instrumentos musicaisHá uma variedade de instrumentos empregados nos Ternos, de região para região. Em nossas pesquisas, observamos, em determinadas áreas (como a do Litoral Norte do Estado) que os antigo tiradores de Reses consideram que um Terno, para ser autêntico, deverá utilizar somente instrumentos de corda, com acompanhamento de tambor. Os cordófones empregados outrora eram a viola (de 10 a 12 cordas) e a rabeca. Em outras áreas - Tapes, Camaquã, Barra do Ribeiro, São Lourenço - o importante até os dias atuais é o tambor, ao qual se juntam gaita (acordeão), violão, sininho ou triângulo. Aliás, na falta de um destes dois últimos, se usa um estribo de montaria (especialmente de meia-picaria) que se constitui numa característica instrumental peculiar da região. Bem posterior à metade do século passado, surgiu o acordeão que se tornaria mais tarde elemento dominante na música rio-grandense. Este instrumento, nos dias atuais, tem sua presença obrigatória nos Termos. Em alguns rincões, vê-se, com menos freqüência, cantigas acompanhadas de pandeiro e de um chocalho original, este de confecção artesanal, feito com tampas de garrafas e que desempenha também a função de percussão. Outro instrumento que vem marcando presença crescentem ao lado do violão, é o cavaquinho. Cada músico, que recebe o convite do Mestre, traz consigo o seu instrumento em condições. Encontramos referências a alguns elementos musicais citados, nos próprios versos dos cantadores:
Nosso Terno está cantando Sintetizando: os dias presentes, podemos considerar como instrmentos fundamentais para a reconstituição de um Terno: gaita, viola, rebeca (violino caseiro), tambor e triângulo.
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VisitaEm traços gerais, a visita dá-se da seguinte maneira: no terreiro da casa, tendo à frente o "mestre" e o seu "ajudante", seguido do "contramestre" e seu "ajudante" e respectivos instrumentos, o Terno se aproxima em silêncio a abre o peito. São os versos de "saudação" ao dono da casa, solicitando permissão para cantar e, ao mesmo tempo, justificando-se da sua chegada. Quando a visita se faz à luz do dia, avisa-se antes, para as devidas providências. A residência visitada deve estar com portas e janelas fechadas. Daí, segue-se um verdadeiro ritual, tanto do dono da casa como do mestre e seus companheiros, que se traduz em versos adequados até o convite do proprietário para entrarem na casa. Damos uma série de exemplos poéticos recolhidos por nós, e que registram momentos de chegada, pela noite a dentro ou da madrugada para o clarear... Chegada
Agora mesmo chegamos Nesta altura, ainda não se vê claridade no interior da casa ou qualquer sinal de luz de vela ou luminosidade de lâmpada:
Aqui está os três Reis Observando qualquer sinal de luminosidade, o mestre canta:
Graças a Deus que já vimos Às vezes, uma janela se entreabre, correndo-se a cortina. Em outras oportunidades, ouve-se barulho na fechadura da porta ou esta começa a ser destrancada, deixando uma folha da porta somente 3/4 da abertura normal. Ouve-se então o "guia":
Meu senhor, dono da casa EntradaA porta é aberta, finalmente, assomando geralmente o proprietário e, em seqüência, a esposa, filhos e parentes:
Porta aberta e luz acesa Agora é a vez de pedir licença para entrar na residência:
Meu senhor, dono da casa Dentro da casaDentro da residência, o Terno é recebido pela família e, sempre cantando, tira algumas quadrinhas aos presentes:
Senhora dona da casa
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AgradecimentoO momento que antecede ao encerramento da visita dos Santos Reis é o "Agradecimento". Dá-se, ainda, dentro da residência da família "abençoada", após esta ouvir versos referentes à adoração diante do presépio, ou, às vezes, compartilhar de momentos de significado religioso próprio dos Ternos. Geralmente, o dono da casa oferece, dependendo da hora, uma xícara de café, reforçando com bolo de milho, rosquinha de polvilho, melado, queijo, churrasco, galinhada, uma refeição regada a vinho ou, ainda, alguns tragos de uma "azulzinha de Santo Antônio", para afinar a voz. Nessa época, as donas de casa se precavêm com adequados alimentos, para que possam receber condignamente eventuais Ternos. Os versos se relacionam, de certa forma, com as maneiras de como a "companhia" canta por ocasião de sua chegada e do recebimento da família visitada: se o Terno veio, tão somente, louvar o nascimento de Cristo e a Chegada dos Reis, ou, se ele, ao esmolar, pediu, veio buscar o receber os reses. No primeiro caso, os versos de agradecimento se atêm à acolhida da família e à retribuição desta, oferecendo comes e bebe. No caso de peditório, o tema central das "quadrinhas" são os agradecimentos das ofertas recebidas pelo Terno, alusivos mais às dádivas em dinheiro, oferecidas pelo dono ou dona da casa ou, simplesmente, um chimarrão, dependendo da situação e posses destes:
Senhora dona da casa
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DespedidasO Terno, após fazer o agradecimento, retira-se da residência, para, agora no terreiro, deixar as suas despedidas:
Meu senhor dono da casa
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Meu depoimentoEste é do Cohen, não mais do Paixão: Em 1976, tinha eu quinze anos. Meus pais compraram uma pequena chácara no interior de Vila Vasconcelos (hoje município de Sentinela do Sul), em frente à esquina de Tapes. Tapes é a primeira cidade antes de Camaquã, quem vai para Rio Grande. Como era normal, toda a família se bandeava para lá nas folgas e férias, incluindo tios, tias, primos, etc. Numa madrugada de dezembro ou janeiro, não recordo, fomos "assaltados" com aquela cantoria do lado de fora. Um pavor, por que ninguém imaginava do que se tratava, afinal éramos gente da cidade. A única coisa que identificávamos, depois de um tempito, era a voz esganiçada de nosso vizinho de porteira, o Cely. Entonces meu pais, depois de se arrumar, foi abrir a porta e... Eles, do lado de fora, não deixaram, hehehehe...Puxavam a porta, exigindo que esperássemos o final da cantoria. Mais tarde, entraram na casa. Beberam pinga, comida e muita coisa buena. Confesso ter ficado irritado com aquela "interrupção" de meu sono. Hoje, vinte e cinco anos após, dou graças a Deus por ter vivido esta experiência que aqui reproduzo, pelas palavras do famoso Paixão Côrtes. Minha religião é outra, não é católica, mas... É visível que a idéia do Natal é espalhar e compartilhar fraternidade entre as pessoas. A data transformou-se, por pressão do comércio, em um período de obrigatória troca de presentes. Amigos secretos, trocas em família, etc já não objetivam mais a fraternidade e sim uma obrigação que se torna costume e hábito. Não é de todo ruim ter uma data para, ao menos nela, dar-mo-nos aos outros. Mas é de todo ruim, esquecermos a origem e o significado desta festa e... Apraz-me por demais resgatar este material feito pelo comandante Paixão Côrtes e compartilhar com todos quantos puderem acessar esta humilde página e... Fazê-los recordar de nossa cultura, dos hábitos do passado e manter viva, ao menos em suas memórias, nossa tradição. Um baita Natal e feliz Ano Novo 2003! El Cohen
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