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Festa junina ou festa caipira?


Extraído de Zero Hora Digital, publicado em 18 de junho de 2006.

----- Original Message -----
From: Leandro de Araujo
To: Roberto Cohen
Sent: Tuesday, June 20, 2006 8:33 AM
Subject: Re: Teu artigo da ZH...

Cohen, tu até me ofende com uma pergunta dessas...

Claro que tu podes publicar na PG... nem sei pq não fez isso ainda... hehehe...

Esse artigo já não é mais meu, já ganhou o mundo.

Por que existe a cultura do "caipira" em nossas festas juninas? O dicionário Aurélio define o termo "caipira" como "habitante do campo ou da roça: jeca, matuto, roceiro, caboclo, capiau ou tabaréu". Ou seja, a expressão refere-se genericamente às pessoas ligadas ao campo, de poucas letras e pouca vivência urbana. O termo "caipira", como é definido vocabularmente, refere-se a um tipo encontrado em qualquer região brasileira, respeitando suas características culturais, históricas e geográficas.

Várias teorias tentam explicar a introdução da paródia caipira em nossas festas juninas (digo "paródia", pois os trajes usados nas festas juninas imitam toscamente as roupas dos interioranos dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás). Uma das explicações traz uma força histórica muito grande: a Revolução de 1930 e, sobretudo, o golpe do Estado Novo, em fins de 1937, foram responsáveis pela propagação autoritária do sentimento de brasilidade. Buscava-se concretizar cultural e ideologicamente a formação em curso de mercado e de indústria centrados no eixo Rio-São Paulo. Para tal, foram marginalizados os sentimentos regionalistas.

Durante a Proclamação ao Povo Brasileiro, de 10 de novembro de 1937, o presidente Getúlio Vargas denunciou o "caudilhismo regional" que "ameaçava a unidade nacional brasileira". Em gesto simbólico, mandou queimar publicamente as bandeiras estaduais, entre elas, a criada por seus antigos mestres, Castilhos e Borges, em 1891.

O Estado Novo promoveu a chamada "invenção da cultura nacional", como fundamento da identidade nacional imposta. Apoiou amplamente a Seleção Brasileira, o Carnaval, o samba, as festas juninas cariocas; financiou o surgimento de arquitetura moderna brasileira; estimulou a produção musical dos temas centrados na Região Sudeste. Esta foi uma medida política que buscava reprimir a cultura regional e barrar novas manifestações antigovernistas. O resultado desta centralização e imposição cultural foi o início da massificação da cultura da Região Sudeste, que até hoje é vendida ao mundo como sendo a verdadeira e única cultura brasileira.

Pode-se afirmar que até 1930 a expressão "festa caipira" sequer existia e também que as festas juninas já aconteciam na região sul do Brasil, invocando suas particularidades culturais próprias, desde que essa região começou a ser povoada, em 1737. Se em 200 anos de história festejaram-se as datas juninas e seus respectivos santos através da particularidade de cada região, incentivar a realização de festas caipiras, fantasiando nossas crianças de forma que ridiculariza o homem do interior, transformando-as em imitações de pequenos Jecas Tatus, é aplaudir um erro de Vargas, que tentou esmagar despoticamente todo legado cultural regional. É lamentável, mas decisões arbitrárias há 75 anos promovem a centralização da cultura nacional, ditando através da mídia o que devemos vestir, comer ou ouvir.

Mas como tentar reverter esta situação se continuarmos aprendendo que em festa junina nos fantasiamos de caipiras, na Semana Farroupilha de gaúchos e no Carnaval do que quisermos?

Devemos conscientizar as crianças de que a pilcha não é uma fantasia, mas um traje histórico, que representa toda a identidade cultural gaúcha. Respeitar a cultura regional é respeitar a própria origem, as raízes que sustentam toda organização social vigente. Com o coração triste acompanharei mais um ano em que a televisão nos enfiará goela abaixo músicas e roupas "caipiras" em detrimento da cultura regional. Assim fica muito mais fácil vender novelas, músicas e informações. Desta forma, cada vez mais "Egüinhas Pocotó" e "Tô Ficando Atoladinha" farão parte da cultura musical de nossos filhos.