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ARTES
“Vasco foi feliz”
Ecos do Clube da Gravura
Homenagem do parceiro
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Os amigos se despedem
Vasco Prado foi velado na Capital e cremado na tarde de ontem em São Leopoldo
“Vasco morre no momento em que faz a
melhor exposição da sua vida. Morre em arte, em glória. A atual retrospectiva no Margs mostra
o escultor que ele foi. Como pessoa, foi de esquerda, quer dizer, pensava politicamente,
ou, simplesmente, pensava, o que não é comum entre os plásticos.” Paulo Hecker Filho, escritor
e crítico literário
“Conhecia o Vasco desde seus 18 anos, quando
ele fazia as oficinas de aulas públicas. Aí começou nossa amizade. Nestes últimos 60 anos,
ele criou a obra mais importante em escultura no Estado, produzindo um volume de
trabalho espantoso, com qualidade estupenda. Fica tudo agora para o povo do Estado apreciar
e amar.” Plínio Berhnardt, um dos fundadores do Clube da Gravura
“Vasco foi um dos maiores escultores do
Brasil. Fico muito triste com a perda. Ele deixou uma obra muito significativa. Ele
enriqueceu o Brasil.” Fayga Ostrower, crítica de arte
“Mesmo com idade avançada, andava cheio
de planos. Queria voltar a fazer litografia. Ele era um incentivo, um impulso para todo
artista continuar enfrentando novos desafios.” Anico Herscovits, artista plástica
“Conheço o Vasco desde o tempo em que
ele começou a dar os primeiros passos nas artes plásticas. Sempre foi muito sério,
consciencioso, exigente com o que produzia. Lamento seu falecimento porque ele ainda
estava trabalhando muito.” Alice Soares, artista plástica
“Vasco era muito especial. Manteve um
espírito jovem, com sabedoria e tranqüilidade. Sempre via as coisas de maneira
positiva, acreditando e se engajando em todos os movimentos importantes da cultura do
Estado.” Ana Alegria, artista plástica
“Temos que pensar no Vasco Prado em
dois aspectos indivisíveis: a figura humana e a figura artística. Ele era uma pessoa
íntegra. Extremamente simples, conseguiu, com competência e apuro técnico, chegar a essa
mesma simplicidade em suas obras. Em seu ateliê, deu oportunidade a muitos artistas
jovens.” Clara Pechansky, artista plástica
“Vejo uma perda sob dois aspectos: o artista e
o homem. Como artista, produziu uma das obras mais bonitas do país em termos de escultura,
sempre fiel ao figurativo, por não querer destruir a imagem humana. Como homem, sempre
foi coerente. Ligado às esquerdas, nunca esteve em cima do muro. Sempre ficou de um lado do muro.
O esquerdo.” Paulo Amaral, diretor do Margs
“Estamos perdendo o mestre da escultura
gaúcha. O Vasco era um grande promotor da arte rio-grandense. Em silêncio, porque não era de
falar muito. Por meio de sua obra, protestava contra a fome. Também popularizou a escultura.
Ele circulava muito pelas escolas, entre as crianças. Como professor de arte e como curador
do Margs, sempre esteve preocupado com o artista e a qualidade do ensino de arte.”
Cezar Prestes, marchand
“Vasco Prado é o escultor mais clássico
e moderno do Rio Grande do Sul. É um dos maiores escultores brasileiros. Poderia ter sido mais
que isso, mas optou por viver uma carreira e uma vida tranqüilas – sem abandonar a combatividade
– aqui no Sul. Era uma pessoa muito generosa, de tal maneira que agora, em 1998, arregaçou
as mangas para prestar solidariedade à sua primeira mulher, Luisa Prado. Foi mestre de muitos,
mas não deixa seguidores.” Renato Rosa, co-autor do Dicionário das Artes Plásticas no
Rio Grande do Sul
“Indiscutivelmente é um dos maiores
escultores do Rio Grande do Sul, com grandes monumentos no Estado e obras nos maiores museus do
mundo.” Fábio Coutinho, curador da mostra de Vasco Prado no Margs
“Essa geração (de Vasco) tem expoentes que
são pontos de referência. Quando um ponto de referência se vai e não se tem outro para
substituí-lo, fica uma sensação de orfandade.” Maria Tomazelli, artista plástica
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Os amigos se despedem
Ecos do Clube da Gravura
Homenagem do parceiro
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“Vasco foi feliz”
A artista plástica Zorávia Bettiol garante
que sabe lidar com a morte, que seu pai a ensinou a encarar a morte como um desdobramento
natural da vida. Mas Zorávia, casada com Vasco entre 1957 e 1985, chora quando fala do
ex-marido:
– Fico contente que ele tenha morrido em
plena forma, produzindo. Pena que o trabalho dele não seja reconhecido em todo o Brasil como é
no Rio Grande do Sul.
Zorávia, 62, não esconde o sofrimento
que marcou a separação:
– Foi difícil, porque além de sermos marido
e mulher, eu administrava o ateliê, me encarregava de colocá-lo em contato com o público,
porque Vasco tinha problemas de comunicação e relacionamento.
Logo depois da separação, Zorávia conta
que passou a se relacionar bem com Vasco. Logo depois o artista preferiu se afastar:
– Parece que ele não agüentava que a gente
se desse bem estando separados.
Falando por telefone de São Paulo (ela não
veio para o velório do ex-marido), Zorávia faz um balanço da vida de Vasco:
– O saldo é altamente positivo para a
família, para o país, para as artes plásticas. Vasco teve uma vida difícil mas foi uma
pessoa feliz, conseguiu realizar quase todos os seus sonhos. Quantas pessoas podem dizer isso?
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VASCO PRADO EM 20 DATAS |
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1914 – Nasce em Uruguaiana |
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1936 – Termina o Colégio Militar em Porto Alegre |
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1940 – Ingressa na Escola de Belas Artes de Porto Alegre, curso que deixa três
meses depois |
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1941 – Constrói seu primeiro ateliê, onde recebe a assistência e os ensinamentos do
mestre Oscar Boeira |
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1947/48 – É bolsista do governo francês, estudando nos ateliês de Étienne Hajdu
e Fernand Léger, além da Escola de Belas Artes de Paris |
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1960 – Nasce o filho Fernando |
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1962 – Nasce a filha Eleonora. |
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1966 – Exposição 25 Anos de Escultura, no Margs |
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1968 – Em Varsóvia, participa de diversas atividades artísticas. Participa da
Bienal da Medalha e da Placa, em Arezzo, na Itália |
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1971 – Nasce o filho Eduardo |
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1972 – 1º Prêmio no Concurso Nacional para o Mural da Assembléia Legislativa do
Rio Grande do Sul |
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1973 – Constrói o ateliê da Pedra Redonda. |
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1976 – Exposição na Galeria de Arte Casa do Brasil, em Roma |
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1980 – Mostra retrospectiva 40 Anos de Desenho, no Centro Municipal de Cultura,
em Porto Alegre |
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1984 – Edição do livro Vasco Prado 70 anos. Exposição retrospectiva 70 Anos de
Vasco Prado, no Margs |
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1987 – Nasce a filha Pilar |
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1993 – Vende o ateliê da Pedra Redonda. Inicia a construção do ateliê do
Morro São Caetano |
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1994 – Exposição retrospectiva 80 Anos de Vasco Prado, na Usina do Gasômetro,
em Porto Alegre |
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1997 – Denuncia falsificações em suas obras, distribuídas como brindes
no 16º Congresso de Psicanálise, realizado em Gramado. |
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1998 – Mostra Retrospectiva na Pinacoteca Central do Museu de Arte do Rio Grande
do Sul, atualmente em cartaz |
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Os amigos se despedem
“Vasco foi feliz”
Homenagem do parceiro
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Ecos do Clube da Gravura
Nos anos 50, artistas reuniram-se num grupo que marcou época. Um deles era Vasco Prado. O Clube da Gravura tinha o engajamento como norma.
“Durante muitos anos atuamos juntos, desde a época do Clube da Gravura. Convidei o Vasco para dar um curso no Atelier Livre da Prefeitura, quando funcionava no Mercado Público. Era um trabalhador infatigável, sempre no ateliê. Não era homem de muita mídia, gostava de estar em seu ateliê, como um artesão. Perdemos um artista autêntico.” Danúbio Gonçalves
“Vasco tem uma obra de grande coerência. Convivemos na Europa na década de 40. Foi uma pessoa muito importante na criação dos clubes de gravura no Brasil. Deu uma contribuição essencial para marcar uma orientação nova, uma tentativa de produzir arte para atingir um público maior. Como a gravura é um múltiplo, permite um contato com um público maior. Fez um trabalho diferente tematicamente, mas da maior importância, em um instante político do Brasil e da América Latina. Qualidade e probidade são características de Vasco. Importante não só nas artes do Rio Grande do Sul, é um dos maiores escultores brasileiros. Infelizmente é pouco conhecido fora do Rio Grande do Sul, o que não é justo pela qualidade da obra dele.” Carlos Scliar
“Vasco foi um grande artista, um sujeito que teve a longevidade a seu favor, o que o ajudou a ter uma obra mais extensa. Foi um artista de primeira linha no panorama nacional. A exposição atualmente no Margs tem umas monotipias maravilhosas.” Glênio Bianchetti
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Os amigos se despedem
“Vasco foi feliz”
Ecos do Clube da Gravura
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Homenagem do parceiro
Companheiros no ofício, conhecidos há mais de 40 anos e amigos íntimos há uma década. Para falar de Vasco, Xico Stockinger ainda usa o tempo presente, lembrando que o amigo está imortalizado nas obras que criou:
– Vou sentir falta dele em todos os sentidos.
Assim que Xico chegou ao Rio Grande do Sul, em 1954, recebeu de Iberê um bilhetinho para encontrar Vasco. Mas a amizade próxima só começou há 10 anos, quando os dois passaram a se ver com freqüência, em jantares que se alternavam na casa dos dois.
– Nós trocávamos figurinhas. Ele gostava de comer, bebia seu vinho e também gostava de uma anedota – lembra.
Juntos acumulavam um século de experiência e afinidades. A admiração era mútua e declarada. Quem ocuparia o lugar vago deixado por Vasco? Xico hesita:
– Fazer aquele tipo de escultura, eu não sei... O Iberê nunca foi substituído.
Na época em que Xico dedicou-se a esculpir cabeças carecas, Vasco não escapou. Depois, não deixou por menos e presenteou Xico com sua cabeça. A amizade sempre esbarrou no trabalho. Juntos, os dois realizaram exposições e cursos.
– O Vasco é um ótimo professor.
Na obra de Vasco, Xico destaca a sensualidade e a simplicidade. E admite: prefere os desenhos às esculturas do amigo.
– Ele não dava gritos de modernidade, ia em frente naquela escultura tradicional, procurando adaptar temas gaúchos, como o Negrinho do Pastoreio. O Vasco não alardeava muita coisa, ficava modesto, incubado no seu ateliê.
O último encontro ocorreu há cerca de um mês, quando Xico inaugurou uma escultura, uma figura de mulher, em frente ao Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. A obra, Homenagem a Vasco Prado, celebrou previamente a despedida dos dois amigos.
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