Homem de poucas palavras e muito trabalho,
o Vasco Prado. Entrevistá-lo não era tarefa muito fácil. O escultor gaúcho não parecia
minimamente interessado em autopromoção. Não era capaz de levantar o telefone para
oferecer opiniões. Ao contrário. Só falava depois de uma espécie de negociação, que
envolvia curadores, marchands e o secretário, Marcelo. Vasco Prado não era um homem
do marketing.
Ao receber o entrevistador em sua casa,
a última de uma rua sem saída, no topo do silencioso Morro São Caetano, zona sul de Porto
Alegre, Vasco contrariava a imagem de casmurro. Mostrava-se polido, cortês e até bem-
humorado. Queria saber se o repórter desenhava e fazia questão que voltasse no dia seguinte
para exibir-lhe os tais rabiscos. Em visitas seguintes, recomendava um tipo especial de
lápis, comentava a dificuldade de se conseguir material de desenho a preços razoáveis em
Porto Alegre. Nessas horas, era o professor que falava.
Se o escultor foi grande, o professor deve
ter sido ainda maior. Autodidata, não por gosto, mas porque na sua mocidade eram escassos
os professores de arte no Rio Grande, Vasco Prado formou, ou ajudou a formar, pelo menos
duas gerações de artistas: Bez Batti, Marlies Ritter, Eloisa Tregnago, Rossana Prado. Generoso
no ensino, econômico no falar, Vasco não gostava de comentar sequer o próprio trabalho.
– Gosto de cavalos – não havia mais nada
a dizer sobre o seu tema predileto.
– Não entendo – era o máximo que ele
ousava pronunciar sobre vanguarda e arte contemporânea.
– Faz tempo – e estava encerrada a
conversa sobre sua época de militante comunista (chegou a se candidatar a deputado federal
pelo PCB em 1946).
Mesmo doente, ele desenhava. Mesmo sofrendo
de glaucoma e catarata, quase impossibilitado de enxergar, experimentava um novo lápis.
Rabiscava um novo cavalo. O amigo Xico Stockinger, um escultor talvez maior que ele, conta
que, quando tinha alguma dúvida (algo prático, como a maneira mais adequada de fundir uma
liga), era Vasco quem ele procurava. Era a vez de o professor ensinar.