Escultor Vasco Prado
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Zero Hora Digital

ARTES

Morte comove Uruguaiana

As virtudes de um mestre
Vasco foi um grande escultor e um professor ainda maior

EDUARDO VERAS

        Homem de poucas palavras e muito trabalho, o Vasco Prado. Entrevistá-lo não era tarefa muito fácil. O escultor gaúcho não parecia minimamente interessado em autopromoção. Não era capaz de levantar o telefone para oferecer opiniões. Ao contrário. Só falava depois de uma espécie de negociação, que envolvia curadores, marchands e o secretário, Marcelo. Vasco Prado não era um homem do marketing.

        Ao receber o entrevistador em sua casa, a última de uma rua sem saída, no topo do silencioso Morro São Caetano, zona sul de Porto Alegre, Vasco contrariava a imagem de casmurro. Mostrava-se polido, cortês e até bem- humorado. Queria saber se o repórter desenhava e fazia questão que voltasse no dia seguinte para exibir-lhe os tais rabiscos. Em visitas seguintes, recomendava um tipo especial de lápis, comentava a dificuldade de se conseguir material de desenho a preços razoáveis em Porto Alegre. Nessas horas, era o professor que falava.

        Se o escultor foi grande, o professor deve ter sido ainda maior. Autodidata, não por gosto, mas porque na sua mocidade eram escassos os professores de arte no Rio Grande, Vasco Prado formou, ou ajudou a formar, pelo menos duas gerações de artistas: Bez Batti, Marlies Ritter, Eloisa Tregnago, Rossana Prado. Generoso no ensino, econômico no falar, Vasco não gostava de comentar sequer o próprio trabalho.

        – Gosto de cavalos – não havia mais nada a dizer sobre o seu tema predileto.

        – Não entendo – era o máximo que ele ousava pronunciar sobre vanguarda e arte contemporânea.

        – Faz tempo – e estava encerrada a conversa sobre sua época de militante comunista (chegou a se candidatar a deputado federal pelo PCB em 1946).

        Mesmo doente, ele desenhava. Mesmo sofrendo de glaucoma e catarata, quase impossibilitado de enxergar, experimentava um novo lápis. Rabiscava um novo cavalo. O amigo Xico Stockinger, um escultor talvez maior que ele, conta que, quando tinha alguma dúvida (algo prático, como a maneira mais adequada de fundir uma liga), era Vasco quem ele procurava. Era a vez de o professor ensinar.


As virtudes de um mestre

Morte comove Uruguaiana

MAURO MACIEL
Correspondente/Uruguaiana

        A notícia da morte do escultor Vasco Prado foi recebida com tristeza pelos artistas de Uruguaiana, que na manhã de ontem estavam reunidos no Ginásio Municipal de Uruguaiana para a abertura oficial da 28ª Califórnia da Canção Nativa. O ex-presidente e atual conselheiro do festival, Colmar Duarte, que havia convidado o artista no dia anterior ao de sua morte a participar da Califórnia, lamentou o fato.

        – Ele disse que estava muito cansado para viajar. Vasco preferia ficar em casa – comentou.

        O escultor uruguaianense havia confeccionado o troféu Vitória especialmente para a edição deste ano do festival. A estatueta será oferecida ao vencedor da linha Manifestação Rio-grandense. Na manhã de ontem, a comissão organizadora preparava a redação de um texto em homenagem ao escultor que seria lido durante o festival.

        Um dos amigos do artista que mais sofreram com a notícia foi Ubirajara Raffo Constant, 59 anos. Constant estudou entre 1967 e 1970 no ateliê de Prado, na Capital. Ele acompanhou a criação de obras como a escultura Negrinho Triunfante, exposta no Parque Municipal de Alegrete.

        – Quando me lembro dele, vejo uma pessoa com a alma terna e de uma mansidão incomparável – disse.


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