João Simões Lopes Neto


(imagem rara de Simões Lopes Neto
enviada por Otavio Costa Acevedo)


  Escritores João Simões Lopes Neto  


Matéria e Invenção - Ensaios de Literatura
Flávio Loureiro Chaves
Editora da Universidade - UFRGS

A BIOGRAFIA FRUSTRADA

João Simões Lopes Neto, descendente da nobre linhagem patrícia chefiada por seu avô, o Visconde da Graça, nasceu na estância situada nos arredores de Pelotas, em 1865. Entretanto, ninguém poderá chamá-lo um "homem do campo". Já aos onze anos vamos encontrá-lo no núcleo urbano de Pelotas, cidade aliás avançada em sua época, graças à prosperidade econômica assegurada pela exploração do charque e por uma indústria nascente. A formação escolar de Simões Lopes completou-se no Rio de Janeiro, onde esteve matriculado, a partir de 1878, no famoso Colégio Abílio, dirigido pelo Barão de Macaúbas, mais tarde retratado por Raul Pompéia como o Aristarco de O Ateneu. Excetuado o breve período que passou na capital do país, parece que raríssimas vezes afastou-se da cidade natal.

Aí sua carreira foi em parte comercial e em parte na imprensa jornalística. Tudo está documentado por Carlos Reverbel na pesquisa definitiva, publicada em 1985, Um Capitão da Guarda Nacional (Vida e obra de J. Simões Lopes Neto), onde reconstituiu a trajetória existencial do escritor. Sabemos então que a passagem pelo mundo dos negócios pode ser traduzida numa invariável seqüência de desastres que o fez morrer literalmente pobre. Já herdeiro de propriedades reduzidas, ele tudo comprometeu em empresas temerárias. Vale a declaração de próprio punho: "Eu tive campos, vendi-os; freqüentei uma academia, não me formei; mas sem terras e sem diploma, continuo a ser... Capitão da Guarda Nacional".

A luta pela subsistência seria travada nas redações dos jornais provincianos. Entre 1895-1913 mantém a coluna Balas d'Estalo no Diário Popular; em 1913-1914, sob o pseudônimo João do Sul, assina as crônicas de Inquéritos em Contraste nas páginas de A Opinião Pública; de 1914 a 1915 ocupa a direção do Correio Mercantil; finalmente, em 1916, ano de sua morte, volta para A Opinião Pública com a coluna Temas Gastos. Também não foi um grande jornalista e o conjunto da matéria que produziu não se desprende, hoje, da marca efêmera de uma "literatura de circunstância".

Estão aí as características a serem guardadas numa aproximaçâo à personalidade de Simões Lopes Neto. Ele foi um homem da cidade, urbano e polido; nada tinha a ver com o protótipo do campeiro rústico que alguns imaginaram mais tarde. A estância e seus habitantes pertenciam tão-só à memória de sua infância e talvez por isso mesmo transformaram-se logo adiante na matéria prima da criação imaginária. Coube-lhe em vida apenas a mediocridade da cidadania municipal. Não conheceu a glória literária que, no seu caso, é inteiramente póstuma. Afinal, a publicação de Contos gauchescos ocorreu em 1912 e as Lendas do Sul foram impressas no ano seguinte, mas então lhe restavam quatro anos de vida. Até nisto a biografia de Simões Lopes Neto é uma biografia frustrada: sua pequena/grande obra escapou ao presente do autor. Era um legado para o futuro.

Pouco espaço é necessário para mensurá-la quantitativamente. Além do conjunto formado por contos e lendas (que depois passou a ser editado num só volume), ele reuniu, em 1910, o acervo sul-rio-grandense na compilação do Cancioneiro guasca. São publicações póstumas os Casos do Romualdo, desentranhados em 1952 do arquivo do Correio Mercantil, e o ensaio Terra gaúcha, aparecido em 1955. Sua literatura teatral, quase toda dedicada ao gênero comico, teve pouquíssimos textos editados à época e era, também, produção circunstancial, embora haja indicações de que foi bem acolhida no gosto do público. Alguns livros anunciados por Simões Lopes Neto não foram publicados e os originais permanecem ainda hoje desconhecidos: Peona e dona (romance regional), Jango Jorge (romance regional), Prata do Taió (notas de uma comitiva exploradora) e Palavras viajantes (conferências).

A fortuna do escritor é, portanto, tardia. deve-se sobretudo à avaliação qualitativa de um punhado de contos que deixou no pequeno volume de 1912 e sua repercussão nas gerações ulteriores. Apesar de tudo isso, sua presença não fez senão crescer daí até nossos dias. Estamos diante de umd esses casos, aliás freqüentes na história literária, em que a força irradiadora da obra ultrapassa o destino absolutamente opaco do autor que a produziu.




(imagem de Simões Lopes Neto
enviada por Otavio Costa Acevedo)



A TRADIÇÃO DO CANCIONEIRO

Há um preciso ponto de encontro entre a vocação de Simões Lopes Neto e a tradição cultural.

Encontra-se, em 1910, no Cancioneiro guasca, que é uma tentativa de transcrição e codificação do acervo poético de origem popular. Acumulado, ao longo do tempo, pela tradição coletiva, foi transmitido quase sempre pela oralidade anônima e, por isso mesmo, achava-se disperso. O esforço simoniano foi justamente o de sistematizar esta herança, registrando-a no conjunto do livro, e para isso dividiu a matéria reunida em dez subgêneros: Antigas danças, Quadras, Poemetos, Poesias, Trovas cantadas ao som do Hino Farrapo, Poesias históricas, Desafios, Dizeres, Diversas e Modernas.

Augusto Meyer, com seu intenso conhecimento do folclore gaúcho, analisa rigorosamente o resultado final obtido na panorâmica do Cancioneiro e, embora apresentando wna série de reparos quanto ao critério seletivo adotado por Simões Lopes, termina emitindo o seguinte julgamento: "Malgrado os defeitos já apontados, o Cancioneiro guasca é mais do que uma obra útil e só poderia ter sido elaborado com grande esforço. O admirável regionalista, colecionando e transcrevendo, foi o primeiro a reunir com método o material que andava esparso e salvou muita coisa, fixando em letra de forma boa parte da tradição oral ameaçada de esquecimento". Ora, este juízo é importante porque insere com clareza a personalidade intelectual de Simões Lopes Neto na raiz popular que viria a ser a fonte vital para a redação dos Contos gauchescos. Refiro-me a uma determinada imagem do gaúcho, que amadurecera e cobrara plena vigência na voz dos cantadores:

Eu não nasci para o mundo,
Para este mundo cruel.
Só quero cortar os Pampas,
No dorso do meu corcel
Este meu pingo galhardo,
Este meu pingo fiel.
Eu sou como a tempestade,
Sou como o rijo tufão,
Que esmaga os vermes na terra,
E sobre para a amplidão.
Eu sou senhor dos desertos,
Monarca da solidão!

Esta imagem entra em certa contradição com a realidade. Sabemos hoje, sem sombra de dúvida, que o gaúcho histórico, o monarca das coxilhas ou centauro dos pampas, é uma construção ideológica. Deve-se em grande parte aos interesses dos estancieiros-soldados, os grandes proprietários que precisaram de um contingente humano servindo, duplamente, aos negócios da estância e à atividade guerreira em defesa da fronteira sempre ameaçada. Por isto, nobilitaram o antigo guasca, salteador marginal das planícies abertas, e travestiram-no na imagem idealizada de campeador e guerreiro. Nasceu assim, mais na imaginação do que na realidade, o vulto de um herói coletivo: másculo, forte, viril, mulherengo, destemido diante do invasor, sempre acompanhado de sua montaria inseparável.

Entretanto, o que importa registrar é que esta imagem foi acolhida, logo sancionada nas legendárias lutas e revoluções que acompanharam a formação da Província e afinal transmitida justamente pelo cancioneiro popular. Nos dias de Simões Lopes Neto já completara o seu processo de cristalização e, por isto, o Cancioneiro fixa o tipo gaúcho:

Sou gaúcho forte, campeando vivo
Livre das iras da ambição funesta;
Tenho por teto do meu rancho a palha,
Por leito o pala, ao dormir a sesta.
Monto a cavalo, na garupa a mala,
Facão na cinta, lá vou eu mui concho;
E nas carreiras, quem me faz mau jogo?
Quem, atrevido, me pisou no poncho?

Assim a compilação do Cancioneiro guasca deixa de ser apenas uma valiosa contribuição para a história cultural; passou a ser, também, a matriz do protótipo que Simões Lopes irá privilegiar em sua ficção e constitui sua legitimidade, isto é, o fundamento de sua origem popular e coletiva. Devemos agora observá-lo de perto.



NA CONVERGÊNCIA DO REGIONALISMO

Simões Lopes Neto manteve no universo imaginário de sua ficção, o protótipo deste gaúcho tradicional, idealizado no cancioneiro popular e por todos os escritores regionalistas que o precederam. Veja-se, por exemplo, um de seus guerreiros eleitos, no conto Juca Guerra: "Aquilo era para ficar na coxilha, picado de espada, rachado de lançaços, mas não pra morrer como foi, aperreado em cima da cama, o corpo besuntado de unturas e a garganta entupida de melados e pozinhos dos doutores! Moreno, alto, delgado; olho preto; nariz de homem mandador; mãos e pés de moça; tinha força como quatro; bailarino, alegre, campeiraço; e o coração devia ser-lhe mui grande, devia encher-lhe o peito todo, de bom que era!"

A primeira indagação que se deve formular é se a fidelidade ao meio constitui um imperativo da ficção simoniana. E a resposta é, sem qualquer dúvida, afirmativa. Os Contos gauchescos e as Lendas do Sul expressam claramente uma ideologia regionalista. Primeiro, porque em muitas passagens se faz intencionalmente a crônica da história sul-rio-grandense e o registro de seus episódios cruciais, como é o caso da Revolução Farroupilha em Duelo de Farrapos, da Guerra do Paraguai em Chasque do Imperador. Segundo, porque aí se lê uma minuciosa descrição de usos, costumes e hábitos que identificam uma região culturalmente demarcada da qual são paradigmas os textos de Correr eguada, Jogo do osso e Deve um queijo! A tipologia do gaúcho encontra aqui um cenário característico que se impõe por sua veracidade jornalística.

Deve-se acrescentar ainda, no âmbito da ideologia francamente regionalista, a inscrição de um código ético particularizado e inconfundível. São exemplos eloqüentes: "Fala ao teu cavalo como se fosse gente"; "Mulher, arma e cavalo do andar, nada de emprestar"; "Na guerra não há esse que nunca ouviu as esporas cantarem de grilo..."; e assim por diante.

A vigência desse código social tende a encerrar o espaço gaúcho dentro de suas próprias leis. É mais do que uma simples conduta, pois uma visão panorâmica constatará facilmente que, na divisão maniqueísta deste mundo regional, há os de dentro e os de fora, erguendo uma barreira intransponível entre o território privilegiado do pampa e tudo aquilo que fica além de suas fronteiras. Distingue-se o gaúcho de todos os outros, forasteiros ou inimigos.

Estes últimos sempre são mantidos na posição de elementos estranhos aos pagos e jamais assimilados por completo. Aparecem como o galego, "mui comedor de verduras", de Melancia-Coco Verde; noutro caso, são os homens da corte, verdadeira antítese do guasca, como o próprio D. Pedro II em Chasque do Imperador ou o desastrado General Barbacena de O anjo da vitória. Também podem ser os gringos, intrusos aproveitadores e desprezíveis, que se movimentam no pano de fundo de Jogo do osso e Correr eguada; ou, finalmente, o castelhano, sempre desonesto e sanguinário, o vilão que é ridicularizado em Deve um queijo! ou responsabilizado pela corrupção do pampa em Contrabandista.

Não é lícito, portanto, sonegar a literatura de Simões Lopes Neto à tradição do regionalismo. Essa tradição afirmou-se na própria formação de uma província insulada por muito tempo das grandes transformações ocorridas no centro do país durante o século 19 e envolvida quase sempre nas guerras em defesa da fronteira ou em revoluções internas que alcançaram o nosso século. Confirmou-se na produção literária, precedente à ficção simoniana, onde é possível localizar a herança de José de Alencar transmitida nas páginas d'O gaúcho para a geração romântica do Partenon Literário e mantida desde O vaqueano de Apolinário Porto Alegre até Ruínas vivas de Alcides Maya. Homem da cidade, portador de refinada cultura, o escritor pelotense conhecia muito bem estes antecedentes. A compilação do cancioneiro, em 1910, mergulhou-o, por outro lado, no folclore e na raiz popular. Vamos encontrá-lo agora na confluência destes fatores: ele é um caudatário do sentimento e da tradição instaurados pelo regionalismo.

Entende-se por que a página primeira dos Contos gauchescos abre com a apresentação do vaqueano Blau Nunes que o autor afirma ter sido seu guia numa longa viagem pelo interior do Rio Grande do Sul ao fim da qual os olhos ainda retêm "a impressão vivaz e maravilhosa da grandeza, da uberdade, da hospitalidade". Tais são as qualidades da raça gaúcha, uma entidade que Simões Lopes acredita existir efetivamente e da qual sua personagem vem a ser um verdadeiro somatório: "Genuíno tipo - crioulo - rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco".

É necessário, pois, reconhecer nos Contos gauchescos e nas Lendas do Sul uma característica documentária que vai da linguagem dialetal aí incorporada até a fixação de um código ético específico, passando pelo registro histórico e a fotografia duma tipologia social. Tudo isto concorre para a definição do texto dentro do regionalismo. Tal era a tendência predominante não só no Rio Grande do Sul, mas em grande parte da literatura brasileira neste período. O naturalismo de Euclides da Cunha, após a publicação de Os sertões, em 1902, abrira uma vertente onde se encontram também Hugo de Carvalho Ramos com Tropas e boiadas, Valdomiro Silveira com Os caboclos e Alberto Rangel com O inferno verde. Fosse a selva amazônica, o sertão goiano ou o espaço rural do caipira paulista, a literatura assumira programaticamente a documentação e a interpretação da realidade circundante. No caso de Simões Lopes Neto acrescentou-lhe ainda a ideologia que, desde o romantismo, propiciara ao gaúcho uma aura heróica. Na convergência desses elementos culturais surgiu Blau Nunes, o vaqueano, no pórtico dos Contos gauchescos.



BLAU, O VAQUEANO

Impõe-se entretanto uma questão: quem é Blau Nunes? Na página inaugural do pequeno volume o apresentador nos faz uma exortação ("Patrício, escuta-o") e passa-lhe diretamente a palavra. Daí fluem os casos por ele vividos ou testemunhados, compondo a narração. Ficasse apenas nisto e não teríamos muito mais do que a insistência na caricatura, por prodigiosa que seja a documentação de usos e costumes numa linguagem inusitada.

Ocorre que o eixo da personalidade do vaqueano revela-se menos na exterioridade dos predicados guascas e muito mais através de um atributo intransferível, esta memória de rara nitidez à qual seu companheiro faz menção em primeiro plano. Trata-se de um hábil recurso de Simões Lopes Neto e aí se instaura a ambigüidade da narrativa, estabelecendo o contraste entre o objetivo e o subjetivo, também o trânsito do regional para o universal.

A memória é certamente uma memória coletiva que restabelece o tempo histórico e, assim, os acontecimentos decisivos que traçam a crônica de uma determinada região, o pampa. Mas também é a recordação da experiência individual, a recuperação autobiográfica que justamente seleciona e interpreta tais episódios, oferecendo-nos urna versão peculiar, banhada na subjetividade. Ora, tudo o que sabemos nos é dado exclusivamente através da perspectiva de Blau Nunes, constituído em narrador privilegiado de todos os casos. Assim, não há por onde dissociar as duas coisas, memória e recordação, ambas estão fundidas na elocução em primeira pessoa e relativizam perinanentemente uma à outra.

Esta é a razão pela qual Antonio Candido chamou Blau Nunes de Marlowe gaúcho, observando que ele "se situa dentro da matéria narrada e não raro do próprio enredo", procedimento que, afinal, "atenua ao máximo o hiato entre criador e criatura, dissolvendo de certo modo o homem culto no narrador rústico". Efetivamente, a verossimilhança dos contos está na inteira dependência deste recurso narrativo. Por um lado o relato do vaqueano logra dinamizar paisagens, registros folclóricos, crônicas históricas (isto é, a matéria morta do regionalismo) ao integrá-los no universo da experiência individual. Por outro lado, confere uma impressionante unidade ao conjunto dos episódios, estendendo entre todos uma espécie de fio subterrâneo. Tanto podemos ler as aventuras de Blau Nunes, enquanto episódios autônomos, como podemos lê-los também à maneira de um romance psicológico - a revelação do homem que recorda e, ao fazê-lo, ingressa numa solitária epopéia em busca da própria identidade.

Darei um exemplo claro desta notável simbiose. Em Trezentas onças o vaqueano tem por missão transportar respeitável soma em onças de ouro; perde a preciosa carga e, antevendo a suspeita de roubo que lhe poderia ser assacada, considera a hipótese do suicídio. Eis o instante decisivo:

No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi as Três-Marias luzindo na água o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia perto dali, num ôco de pau! Patrício! não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tenção...

O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...

Eh-pucha! patrício, eu sou mui rude a gente vê caras, não vê corações ; pois o meu, dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...

E já no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.

Aí está a marca invariável da narrativa simoniana, logrando transportar os elementos localistas à categoria de metáforas; a mera representação do mundo propondo, simultaneamente uma visão do mundo, original e única. Tal acontece porque os traços do cenário, lugares, paisagens e animais, assumem - sob a ótica de Blau Nunes - a conotação simbólica que ultrapassa a superfície aparente. Por detrás da natureza existe o mito da natureza; além do tipo humano (o gaúcho) prevalece o indivíduo em sua humanidade.

Este processo simbólico que pode ser lido com notável transparência aqui em Trezentas onças é o mesmo atuante na totalidade dos Contos gauchescos e é também o que atribui uma inusitada força de convicção às Lendas do Sul. Há uma delas, A Salamanca do Jarau, cuja origem ibérica chega ao Rio Grande do Sul por importação cultural, como demonstrou Augusto Meyer num estudo definitivo. Reescreveu-a Simões Lopes Neto, terminando por criar um texto inteiramente novo. Ele obteve esta nova versão não só por via da linguagem literária e da sua inserção no cenário gaúcho mas, sobretudo, porque transformou Blau Nunes em seu protagonista.

Assim, na Salamanca do Jarau, enquanto se relê um motivo mítico já incrustado na tradição (o homem arrastado à perdição pela mulher metamorfoseada em animal demoníaco), há uma criação original que, paralelamente, revela-se no tema do gaúcho pobre que anda em busca da própria identidade perdida.

A figura de Blau Nunes ultrapassa o tipo regional a resumir num só paradigma as características essenciais do gaúcho. Sem prejuízo deste resultado preliminar, é uma invenção prodigiosa de Simões Lopes Neto e, sob o ponto de vista rigorosamente literário, constitui uma personagem.

Sua presença no tecido imaginário da ficção é o elemento fundamental que assegura a ultrapassagem da descrição regionalista para beirar o território da universalidade.

Direi ainda mais que, até surgir em 1949 O Continente de Erico Verissimo, ele constitui a única personagem oferecida pela ficção sul-rio-grandense ao contexto maior da literatura brasileira. Não há nenhum outro caso no qual a força da ficção tenha logrado impor à realidade a existência de uma criatura imaginária e sua visão do mundo. Embora nascido no pampa e jamais cruzando a sua fronteira, Blau Nunes, na dupla condição de narrador e protagonista dos Contos gauchescos, é cidadão de qualquer latitude.

Através da sua palavra é possível contemplar agora os temas preferenciais de Siinões Lopes Neto e esta visão do mundo a que me refiro. Os campos abertos pertencem já ao passado, só existem na memória de Blau: "as estâncias pegavam umas nas outras sem cerca nem tapumes; as divisas de cada uma estavam escritas nos papéis das sesmarias"... O mundo natural opõe-se ao mundo histórico; o passado contrasta o presente; a epifania da natureza é o contraponto necessário à crônica de guerras e violências que engolfaram o destino do gaúcho.

Entretanto, este limiar entre o regional e o universal só pôde ser tocado porque revelou-se na trilha existencial de Blau Nunes. Daí flui o discurso psicológico.



A ARTE DE NARRAR

Percy Lubock lançou a teoria do ponto de vista ao indicar as diversas maneiras de narrar: o leitor só conhece o que sabe o narrador intercalado na história ou a personagem que conta os eventos ou, ainda, a personagem principal que conta a história na primeira pessoa.

No universo imaginário dos Contos gauchescos tudo se desenvolve sob a perspectiva desta primeira pessoa, a narração de Blau Nunes. Como se viu, o apresentador dos contos intervém diretamente uma única vez na página inaugural do livro. A partir daí, só se escutará a voz do guia relatando os casos subseqüentes. Portanto, no desdobramento da viagem pelos pagos, o ponto de vista desloca-se do apresentador para o vaqueano, fazendo prevalecer sempre sua perspectiva individual.

Condicionada inteiramente ao ponto de vista do vaqueano, a narrativa pode ser relacionada ao tipo de discurso que Jean Pouillon denomina de visão com. Escolhe-se uma única personagem que será o centro da representação, devendo-se entender que é central não porque ocupe convencionalmente o centro dos acontecimentos, mas porque é a partir dela que vemos os outros. É com ela que nos aproximamos dos demais protagonistas e de todas as situações implicadas. Dirá Pouillon: "Para que seja possível adquirir uma consciência das coisas e das pessoas, idêntica à do herói da narrativa, é preciso que este pertença a um mundo mental semelhante ao meu; é preciso que aquilo que o cerca seja visto por ele tal como o posso ver eu mesmo ou, pelo menos, de maneira não demasiado diferente. Essas narrativas exigem uma espécie de entendimento entre autor e leitor".


Cabe indagar, pois, de que maneira se cumpre, nos Contos gauchescos, este pacto necessário entre o autor e o leitor, subjetivando e universalizando o documentário regionalista para garantir nossa participação no relato. Deve-se observar então que a figura do apresentador de Blau Nunes foi transferida para o segundo plano, mas não foi absolutamente eliminada. Ele passou à condição de interlocutor do seu guia, ouve-o atentamente e anota tudo o que pode do seu depoimento.


Sua presença constante vem denunciada na fala do próprio narrador: "Que foi? Ah! quebrou-se a ponta do lápis? Amanhã vancê escreve o resto; olhe que dá para encher um par de tarcas!"

Estas alusões, perguntas ou advertências repetem-se com insistência na maioria dos casos narrados por Blau Nunes. Por exemplo: "Vancê assustou bem no conto?" "Vancê anote na sua livreta..."; "Conte vancê as maldades que nós fazemos e diga se não é mesmo!"; e assim por diante. Não se trata de simples maneirismo ou ornamento retórico da fala empregada pelo vaqueano. Aí reside o núcleo da arte de narrar urdida por Simões Lopes Neto. Basta localizarmos a pluralidade de funções assumidas por este recurso narrativo.

É através da reiteração insistente do tratamento vancê, tomando onipresente o interlocutor de Blau, que a maior parte dos elementos puramente regionais logra dissolver-se no contexto global do discurso psicológico. Sua ocorrência passa a justificar-se dentro de uma necessidade por assim dizer "pedagógica" do vaqueano em relação ao seu jovem acompanhante. Assim vejamos: "Vancê não sabe o que é um ligar? Não é só, não senhor, o couro do terneirote pra fazer carona; é também uma tira de guasca, chata, assim duma meia braça, com um furo dum lado e uma meia ponta do outro".

Mais adiante nota-se que a recuperação do tempo passado, refluindo circulartnente ao presente, também depende da fimção narrativa exercida pelo interlocutor de Blau. Ele oferece o pretexto que ativa a recordação do guia e deflagra o encadeamento das associações: "Se vancê fosse daquele tempo, eu calava-me, porque não lhe contaria novidade, mas vancê é um guri, perto de mim que podia ser seu avô... Pois escuite...".

Ora, a veracidade do discurso psicológico depende em grande parte dos silêncios e pausas, levando o leitor a deduzir ficticiamente aquilo que ficou subentendido. Mas também isto se deve à presença muda do interlocutor diante do qual Blau Nunes busca a clareza, a precisão de uma linguagem obrigatoriamente imprecisa, a linguagem da memória. Por isto ele se corrige a si mesmo e, não obstante, as correções só fazem adensar o texto em níveis mais profundos: "Vancê compreende, não!"; "Esqueci de dizer a vancê que...... Essa insistência exaustiva logra, entretanto, dinamizar a fala e estabelece implicitamente um diálogo. Caso contrário, o monólogo do vaqueano escorregaria no vazio. Aqui, não restam dúvidas que ele responde perguntas ou apartes de seu acompanhante. Apenas ocorre que estas não estão explícitas no texto, acionando justamente as suposições a cargo do leitor. Foram inseridas sub-repticiamente nas entrelinhas.

Cabe então avaliar o peso desta interferência quase ininterrupta do interlocutor na estrutura global dos Contos gauchescos. Ela provoca invariavelmente a ruptura da seqüência cronológica do caso que está sendo relatado ou, numa outra variante, interrompe o próprio itinerário da viagem através dos pagos. Mas, por que ocorre assim? Porque é através de tal recurso que se instaura em sua plenitude o ponto de vista de Blau Nunes, personagem e narrador dos contos. A fórmula do vancê, ao estabelecer a figura deste interlocutor onipresente é o que leva a ver com e, mais do que isto, a imaginar com na resposta à exortação.

Estabeleceu-se um processo de imersão na fala de Blau Nunes por parte de quem o escuta ou... de quem agora lê o texto. A posição ocupada pelo interlocutor no transcurso da viagem fictícia não é outra senão a do leitor que ora percorre o discurso literário. Melhor dito: a fórmula do vancê termina por exigir uma participação direta na decifração da linguagem, nas palavras e nos silêncios, nas indagações e nas respostas incompletas. Assim, o leitor converte-se em protagonista da obra. E, com Simões Lopes Neto, estamos no umbral da literatura contemporânea.

Ele foi o maior dentre todos os regionalistas gaúchos, estabelecendo um divisor de águas entre o documentário e o literário. Na outra margem apareceriam, logo depois, o Erico Verissimo de O tempo e o vento e o Cyro Martins de Porteira fechada. Mas não só isto. Ele ofereceu ao regionalismo brasileiro a arte de narrar, garantindo-lhe a universalidade na luta pela expressão, na conquista de uma linguagem. Diga-o o João Guimarães Rosa de Grande sertão: veredas.