Escritores Cyro Martins  

Jornal da Câmara Riograndense do Livro
Agosto/98

Cyro Martins

Cyro Martins, escritor e psiquiatra, criador da expressão "gaúcho a pé", completaria 90 anos em agosto. Sua importância no panorama da literatura vem tanto do texto apurado, como da visão profunda e original sobre as mudanças sociais e ecônomicas aoperadas no microcosmos do pampa do Rio Grande do Sul. Contribuiu para a criação de uma nova abordagem da temática regional, assim como para a recontextualização da figura mítica do gaúcho.

Nascido em Quaraí, em 05 de agosto de 1908, Cyro Martins começou a escrever aos 15 anos. Eram artigos políticos, oposicionistas, libertadores e contos regionalistas.

Formou-se em Medicina em 1933. No ano seguinte, publicou seu primeiro livro: "Campo Fora". Nesse livro, recolhi as experiências infantis e sobre elas trabalhei com a minha fantasia de escritor. Em Quaraí, o balcão da venda de seu Bilo (seu pai) foi o que ele chamou de o grande mirante de onde via desfilar a decadência do gaúcho. A fantasia de "Campo Fora" deixa lugar para a amarga realidade de uma gente sem estímulo. Cyro escreve, então, "Sem Rumo", sobre o gaúcho a pé, expressão que usou pela primeira vez em 1935 e que serviu para definir a trilogoia que se formou depois com "Porteira Fechada" e "Estrada Nova".

Cyro Martins disse certa vez que não ser um escritor de carreira. "Permaneço na condição de escritor bissexto, pois toda a minha literatura é feita no rabo das horas. O melhor das minhas possibilidades intelectuais foi consagrado à Medicina, em especial à Psiquiatria e à Psicanálise. mas esta afirmação não significa menos ternura pelo que realizei no plano da ficção literária."

Sobre a importância da literatura, disse que "afinou minha sensibildiade para a pesquisa da alma humana, sobretudo porque nunca fiz regionalismo no sentido pitoresco e sim para buscar o que havia de universal naquele homem singular que era o gaúcho a pé."


Ao lembrarmos da obra e vida de Cyro Martins, é quase impossível não pensar também em Dyonélio Machado. Também natural de Quaraí, Dyonélio soube trabalhar com maestria a relação entre a psiquiatria e a literatura, que são dois importantes motores para o profundo conhecimento da alma humana. Escritores e médicos, Cyro e Dyonélio, além de conterrâneos, foram dois expoentes da literatura gaúcha e brasileira.

A Editora Movimento relançou o livro "O Mundo em que Vivemos", de Cyro Martins. Carlos Appel diz que este livro é o texto básico das idéias científicas de Cyro Martins. Todo o trabalho de reedição e revisão da obra está sendo acompanhada pela filha do escritor, Maria Helena Martins.

Appel diz que esta obra contribui para fixar a importância de Cyro Martins, tanto no campo literário como científico. "Não é simplesmente uma reedição, é uma reavaliação de cunho crítico, com revisão ortográfica e sintática. Cyro Martins vai deixar de ser o escritor da trilogoia do gaúcho a pé para transformar-se em um escritor que falou sobre um gaúcho menos regional e mais universal".



"O ato de criação artística requer certa predisposição, que é a dimensão poética do espírito. Esse acesso às emoções que comandam sua vida interior põe o artista defronte ao outro si mesmo, assim como a associação livre do paciente e atenção flutuante do psicanalista, colaborando, produzem o insight na situação artística."

Minha literatua regionalista não é saudosista. Ela tem um sentido de protesto. Fala do gaúcho que foi uma figura de grande destaque histórico, mas marginalizado pela evolução natural dos fenômenos sociais, ecônomicos e políticos. Não houve cuidado em poupar esse homem quando ele perdeu o cavalo e perdeu a distância. Sem rumo, ele foi ficando à beira das cidadezinhas, morrendo de sífilis, de tuberculose, de cachaça, de peleias inúteis.

BIBLIOGRAFIA
• Campo Fora - 1934, Globo

• Sem Rumo - 1937, Ariel

• Enquanto as Águas Correm - 1939, Globo

• Mensagem Errante - 1942, Globo

• Porteira Fechada - 1944, Globo

• Estrada Nova - 1954, Brasiliense

• A Entrevista - 1968, Sulina

• Rodeio - Estampa e Perfis - 1976, Movimento

• Sombras na Correnteza - 1979, Movimento

• A Dama do Saladeiro - 1980, Movimento

• O Príncipe da Vila - 1982, LPM

• O Mundo em que Vivemos - 1983, Movimento

• Gaúchos no Obelisco - 1984, Movimento

• A Mulher na Sociedade Atual (ensaio) - 1984, Movimento

• Na Curva do Arco-Íris - 1985, Movimento

• O Professor - 1988, Movimento

• Para Início de Conversa (memórias) - 1990, Movimento

• Um Sorriso para o Destino - 1991, Movimento

• Páginas Soltas - 1994



Painel realista da sociedade sulina


Cyro Martins é um intelectual de imensa importãncia no cenário da cultura sul-riograndese, não só por sua obra ficcional como por sua dedicação à carreira de médico psiquiatra. Foi um dos pioneiros no estudo e na aplicação da teoria de Sigmund Freud em nosso estado, além de ter participado como fundador de diversas entidades ligadas aos estudos psicanalíticos.

Seus textos literários são sempre louvados pelo painel realista que pintam da sociedade sulina, especialmente em relação à trajetória do homem do campo. Iniciou sua carreira com o livro de contos Campo Fora, publicado em 1934, mas foi com o romance que se consagrou. Na trilogia do "gaúcho a pé" (termo cunhado por ele mesmo em 1935), composta pelos romances Sem Rumo, Porteira Fechada e Estrada Nova, Cyro Martins desenvolve a temática da lenta expulsão dos peões da estância e seu conseqüênte empobrecimento nos cinturões de miséria das cidades, colocando a nú os problemas sócio-econômicos que aparecem na campanha a partir de 1910. Nessa perspectiva, sua obra permanece atual, na medida em que tais problemas se avolumaram com o passar do tempo.

Seu grande valor reside no fato de ter recirado um mundo e uma época de intensas transformações sociais, as quais mudaram o modo de encarar o papel de peão dentro dessa nova estrutura social em que se formava. O modelo de gaúcho (o "gaúcho a cavalo") , que reinava até então, é substituído pela figura do "gaúcho a pé": sem rumo, marginalizado, já que sem serventia dentro do novo quadro que se apresenta; sem possibilidade de retorno, pois a porteira está fechada; e à procura de outras perspectivas, de uma vida autônoma, sem servilismo, de uma estrada nova rumo à urbanização e à profissionalização.

Márcia Ivana de Lima e Silva
Doutora em Teoria da Literatua - PUCRS;
Professora do Curso de Letras da UFRGS;
Coordenadora do Acervo Literário Érico Veríssimo