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Tchê Music, reflexões

Fonte
----- Original Message -----
From: Jorge Frederico Duarte Webber
To: roberto.cohen
Sent: Wednesday, May 31, 2006 10:21 AM
Subject: Sobre a Tchê Music 2

Abaralha que aí vai mais um, ermão... Pelamor di Deus, não carece agradecê!

Um abração e sempre azorde!!!

Jorgito.

Artigo de Prof. D. Jorge. F. Duarte Webber com colaboração de Gabriel & Elenir de Ávila

Aqueles que hoje vociferam contra a "Tchê Music" - um epíteto bastante feliz pelo imaginário que evoca -, antes de putear al pedo (porque se ela existe, é porque hai demanda, não nasceu do nada ou porque sim nomás), deveriam refletir sobre o inconsistente e paradoxal de seus protestos. A tchê music nasceu filha legítima do caldo de cultura criado pela Indústria Cultural, que fabrica em série grupos fandangueiros. O mercado de bens simbólicos é pródigo em criar modas e manias, visando, única e exclusivamente, ao lucro, sem respeitar tradições, porque investe na novidade.

Os grupos fandangueiros, de criollo mesmo, só têm o acordeom; o resto dos instrumentos, me desculpem os mal informados, não têm nada a ver com a tradição gaúcha. Apesar de não fazerem parte do folclore pampeano, a bateria e o contra-baixo até que ainda passam, obviamente por razões (questionáveis!) de ordem harmônica e rítmica relativizadas.

O contra-baixo sem arco, em pizzicatos, foi incluído por Ernesto Montiel já nos começos da arrancada chamamecera na Buenos Aires dos fins dos anos 1930 e os outros conjuntos logo passaram a adotá-lo, mas o baixo elétrico surgiu no chamamé apenas em 1981, no conjunto de Antônio Tarragó Ros. A bateria já aparecia em 1935, na orquestra do paraguaio Herminio Giménez, mas a tumbadora só surgiu com o "chamamé tropical", nos anos 80, levadas ao palco primeiro pelo conjunto Los Caú. O cajón peruano só chegou ao chamamé em 1996, com o Chango Spaciuk, mas, ao conquistar a província argentina de Santiago del Estero, em 1973, esse ritmo incorporou o bombo legüero (instrumento típico da Região Norte daquele país, o qual "senta como uma luva" para o compasso sincopado em 6 x 8), segundo as informações de Rubén Pérez Bugallo, antropólogo argentino, autor de um excelente estudo sobre a espécie musical supracitada, da qual trato no próximo tópico.

Mas é completamente inaceitável o uso da guitarra elétrica, em detrimento do bueno, velho e autêntico violão, que é, dos gaúchos, o instrumento mais típico! Ainda mais se levamos em conta o que certos virtuoses fazem com o instrumento: tipos como o Oscar "Bonitinho" Soares, com seus solos de guitarra elétrica, fariam corar de vergonha e inveja qualquer guitarrista das bandas de heavy metal. É inegável a sua virtuose, mas o que não podemos entender é o fato de ele insistir em querer tornar a guitarra elétrica em instrumento gaúcho (riograndense ela é, por adoção!).

Esses mesmos conjuntos fandangueiros vêm mesclando à nossa música regional influências de outras regiões e linguagens musicais. É possível ouvir hoje um vanerão com sotaque nordestino, sabendo a forró, algo entre baião ou xaxado, ou um chótis meio rock ou country, ou uma milonga com ares de jazz ou blues. Isso sem falarmos nos trajes, nos trejeitos e nessa mania boba de dançar igualito, para o mesmo lado, imitando os grupos de pagode, também frutos da cultura de massa. Parece que o patrimônio cultural gaúcho, para esses conjuntos fandangueiros, é tão pobre que precisam copiar dos de fora (e logo do que há de mais kitsch ou brega) bobagens que não pertencem à índole do gaúcho. Tudo isso somado a outros fatores é o que propiciou o surgimento dessa filha bastarda da nossa música regional.

Devo abrir um parêntesis para dizer que, de um ponto de vista puramente artístico, os hibridismos supracitados têm produzido algumas obras musicais de agradável sabor! Entretanto, no meu humilde modo de ver, não creio que devam ser tomadas como paradigma de uma estética nativista new wave ou de um regionalismo pós-moderno. "Cada macaco no seu galho", diz o velho ditado, e creio que não devemos fazer concessões (não há aqui nenhum preconceito ou etnocentrismo), mas, sim, voltar ao que há de mais nosso, fazendo uma releitura dos "clássicos" gaúchos, para não esquecer quem somos e não olvidarmos daqueles que dedicaram a sua vida à nossa arte mais típica! Nada contra ser artista e ganhar dinheiro, mas um tradicionalista/nativista deve conscientizar-se de suas responsabilidades, face à importância do papel social de sua arte.

É mais do que hora de os tradicionalistas verdadeiramente comprometidos com a autêntica cultura gaúcha assumirem sua parcela de culpa por este estado de coisas. É hora de dizer basta; é hora de os cetegês recusarem-se a fechar contrato com esses conjuntos que vêm há anos deturpando a autêntica música gaúcha. Isso sem falarmos nas letras vazias de conteúdo, poeticamente pobres, geralmente sem uma mensagem positiva ou construtiva - é só "simpleza"!, diria uma prima da minha esposa. Quem quiser ouvir guitarra elétrica que vá a um concerto de pop ou de rock.

Urge que os CTGs incentivem o retorno às fontes, às origens da música criolla; que fomentem o resgate dos nossos instrumentos mais antigos: a rabeca, a viola e a harpa missioneira. Só assim poderemos combater de forma eficiente a Tchê Music e a sua infeliz progenitora, a qual vem sendo tocada até a exaustão pelas rádios, saturando-nos com o que há de menos autêntico na música regional gaúcha, pois, de outra forma, não haveria consumidores, sem o que não há mercado para essa nova estética musical.

É hora de investirmos naqueles que vêm mantendo-se fiéis à nossa buena, velha e autêntica música criolla, a despeito de permanecerem outsiders, ignorados e/ou marginalizados pelo mercado de bens simbólicos, com baixa vendagem e tendo que, na maioria das vezes, pagar do seu próprio bolso a produção de seus discos. Nomes como Pedro Ortaça, Telmo de Lima Freitas e Luis Marenco, além dos saudosos Noel Guarany e Cenair Maicá, devem sempre ser lembrados e exaltados como exemplo de gaúchos autênticos que não se prostituiram ou se deixaram levar pelos acenos de sucesso fácil de um mercado corruptor. A esses heróis da resistência vai o meu saludo mais respeitoso e a minha admiração mais elevada. Para estes gaúchos, sim, eu tiro o chapéu!