Transformou-se em senso-comum afirmar que a cultura rio-grandense é uma construção urbana, uma sobreposição citadina de conteúdo ruralista. Intelectuais de todos os matizes constatam essa evidência. Normalmente, diz-se que essa elaboração seria uma releitura feita sobre o campo. Caso significasse apenas isso, o problema seria fácil. Teria como pressuposto um universo rural, invariavelmente imutável. Toda polêmica giraria em torno da percepção mais fiel ao objeto de estudo. Entretanto, não existe uma "história" a ser descoberta, que poderia revelar-se diante dos melhores instrumentos de análise.
Neste texto, chamarei atenção sobre um aspecto desse problema. O método que trabalha com a idéia de que ainda seria possível encontrar um espaço social com desenvolvimento isolado, à margem da civlização, uma "arqui-sociedade-tradicional-ruralista", revela o predomínio de uma técnica folclorista que invadiu a ciência social.
A crise de identidade estaria solucionada no momento em que se encontrasse "historicamente" o fenômeno que desvinculou a sociedade contemporânea de sua matriz tradicional. O conservadorismo regionalista e o tradicionalismo, em particular, insistem na existência passadista desse padrão cultural, propondo sempre o eterno retorno. E retroagir para esse tempo perdido significa, inelutavelmente, revelar sua visão otimista do universo latifundiário como padronização da identidade rio-grandense.
A hegemonia tradicionalista esteia-se nessa patronagem: ela se mantém, teleologicamente, como a guardiã do passado heróico, no qual os indivíduos só podem ingressar e se redescobrir através da sua condução monopólica pelo elo perdido; exclusivamente ela conserva o segredo da chave. Estabeleceram-se inúmeros rituais cetegistas, que repõem no presente os valores passadistas.
A questão já seria complexa com esses elementos. Todavia, a construção inventiva dessa cultura adotada e recriada pelas multidões atinge outras nuances diante da constatação de que os indivíduos contemporâneos que elaboram o culto se impuseram como padrão standard do próprio homem rio-grandense. Ou seja, além de uma inversão com alguns elementos originários (indumentária, hábitos, costumes, instrumentos artísticos, etc.) dos séculos 18 e 19, construíram inventivamente padrões estéticos e de comportamento como se fossem resgates do primitivo.
Contudo, um primeiro conflito, apesar de geralmente imperceptível, desenvolveu-se no campo, a partir dos anos 60, acentuando-se nos 70, para, enfim, encontrar uma nova padronização nos 80. Na década de 60 ainda existiam fundões com grupos sociais isoladamente ruralistas. Possuíam certa identidade campeira diferenciada do padrão urbano cetegista, das massas pastichizadas pelo tradicionalismo. Um movimento a partir da cidade iria integrá-los ou revelar-se para uma adoção de influências; ou seja, transformá-los.
Em um curto período, o gauchismo conquistou a mídia através dos festivais, dos programas produzidos eletronicamente, atingindo uma "cobertura integral e sistemática" do território, onde o tipo inventado se impôs absolutamente. O campo inculto assistia a tudo. O homem campeiro que até então, de certa forma, era o fluxo real condutor ao passado e exemplo do indivíduo concreto, entrou em crise. Uma tragédia silenciosa. Frente à universalização daquela gauchada fulgurosa e pavoneante de roupagem colorida da televisão e das festas citadinas, ele era um impostor. Seu "senso histórico" dominado pelo conjuntural, porque se mantinha através do trabalho campeiro e da introjeção de trajes criollos, especialmente da bombacha - resto de fardamento militar difundido pelos pobres ex-combatentes, que a trouxeram da Guerra do Paraguai -, desmoronava diante do fenômeno avassalador da mídia e do êxtase cetegista.
Assim, o campeiro, que era o último resquício do homem tradicional criado pelo latifúndio pastoril, deixou de ser o fio condutor da história para uma compreensão aproximada do passado real da gauchada, que se diferenciava como "grupo social" não-proprietário em relação à classe latifundiária. A população rural da campanha (e, agora, também da roça), sempre constrangida pela sua marginalidade camponesa, triste e ironicamente, foi encontrar a sua identidade na adoção do gaúcho inventado nos centros urbanos. A forma mais evidente dessa integração se confirmou no abandono das roupas tradicionais, relativamente simples e discretas, pelas indumentárias tradicionalistas.
Esses figurinos foram produzidos por mentes impulsionadas por pretensa pesquisa histórica. Não raro, parecem manequins de museu, adornados pela quantidade de peças capazes de suportar.Essa cultura é um exemplo eficiente da condição do homem como criação histórica. Perpetrou um dos mais bombásticos sucessos da invenção humana, tendo como premissa a hipotética descoberta do homem tradicional; o que equivale a dizer, do homem natural.
Dessa forma, a problemática do elo perdido só existiu enquanto o tradicionalismo ainda não havia se estabelecido como nova unanimidade. A crença na proporção entre presente e passado foi recuperada pela cavalgada da universalidade gauchista. Em todas as áreas, do lazer ao conhecimento, da música às artes plásticas, o ser inventado se impôs como o ser da coerência histórica. O último resquício tradicional, representado pelos campeiros, devido à incultura, acabou por aderir ao padrão citadino de gaúcho. Em um movimento cultural que como tantos poderia ser apenas um embuste, os tradicionalistas foram além e criaram uma cultura em cujo epicentro se posicionaram como os herdeiros protótipos da identidade rio-grandense.
O argumento que faltava para alicerçar monoliticamente o edifício dessa construção arbitrária vem sendo dado, nos últimos anos, pelos trabalhos acadêmicos. Os professores universitários, invariavelmente distanciados do mundo concreto do povo (ou pesquisando ao estilo de bons turistas), qnando entraram no universo gauchesco para produzirem suas teses, tomaram como objeto de estudo o gaúcho inventado (que passou a ser o novo tipo concreto) e o justificaram academicamente como gaúcho histórico. Atribuíram-lhe uma presença histórica permanente, como se existisse um nexo fundamentado entre os primórdios do grupo social e o presente.
Em suma, tomaram a aparência contemporânea como invariável amplitude histórica. É cada vez mais rara a pergunta: quem eram os gaúchos? Apenas especialistas tratam do tema. No senso-comum, a indagação foi substituída pela normalidade equivocada de estes são os gaúchos, referindo-se aos tradicionalistas.
Desses barbarismos à ciência social, certa professora consumiu dez anos de Sorbonne acreditando ter encontrado o gaúcho primitivo nos versos da monarquia. Julgou-os como reflexo real. Adotou-os, pasmem, como produção daquele grupo social, sem questionar se, caso fossem realmente versos deles, seria possível uma auto-revelação do ser histórico numa manifestação poética primária. De qualquer forma, qualquer especulação não tem sentido, pois os versos de monarquia, como lembra Augusto Meyer e outros, são construções de autores da elite.
No máximo, são visões desses autores sobre o gaúcho primitivo. Há também aquela outra acadêmica que doutorou-se demonstrando que o gaúcho estaria fielmente representado no quilométrico poema "Eis o homem", de Marco Aurélio Campos - aquele que diz: "Sou maior que a hinstória grega/Sou gaúcho e me chega/pra ser feliz no Universo". Desses exemplos mais grotescos, chega-se a outros mais elaborados. Vou deixá-los de lado, para apontar a última e significante contribuição acadêmica ao tradicionalismo.
Recentemente, outra professora publicou uma avantajada obra "cronológica" sobre os tipos gaúchos de todos os tempos. Após reproduzir basicamente a historiografia uruguaia e argentina, procurou representar o gaúcho atual. Só que ela não fez qualquer tentativa de resgatá-lo entre alguns possíveis remanescentes nos fundões de campo, ou entre o nomadismo dos sem-terra (os gaudérios, os gaúchos, coerente e socialmente, contemporâneos).
Confortavelmente, apanhou-os na mídia, nos CTGS, nos Festivais, nas Cavalgadas Turísticas, com seus estandartes ufanistas, réplicas bizarras das Cruzadas. Ou seja, prosseguiu a introdução no mundo acadêmico (o que significa a apreensão desses modelos pelos alunos, que, mais tarde, como futuros docentes, em sua grande maioria vão reproduzi-las, etc., etc.) do tradicionalista com status de genuíno representante do gaúcho histórico.Esse suporte ideológico foi, igualmente, representado em imagens. A professora ilustrou seu livro com tradicionalistas contemporâneos para documentar todo o arco lnstórico da sociedade rio-grandense.
Ou seja, ao criar as ilustrações para representar todas as épocas dos "gaúchos", a autora utilizou modelos atuais. Por motivos evidentes, foi buscá-los entre os ideólogos, a patronagem, os comunicadores, os artistas e os militantes do tradicionalismo. Essas ilustrações também foram transformadas em cartazes. Tais estampas passaram a decorar as repartições públicas, entidades culturais, escolas, etc. Chegando aos educandários, a estupidez dos professores transformou-os em material didático.
Assim, alimentando o ciclo da ignorância, esses tipos deixaram de ser apenas os borboleteantes artistas dos palcos turísticos para revestirem-se no tipo padrão de todas as épocas. O público passou a conviver com produções gráficas com caráter de documento, onde, por exemplo, encontra no tipo reconstruído do século 19 o corpo e a cara dos comunicadores televisivos atuais. undiram-se nessas caricaturas os períodos dos diferentes seres antropológicos. Todavia, esses modelos, através dessa elaboração, emergem com a autoridade do passado munidos da força telúrica impressionante de que só esses rituais são capazes. Isso significa que aqueles que possuem um comprometimento integral com a construção do gauchismo extravasaram o seu tempo histórico, passaram a uma condição atemporal, que é a abstração necessária ao sucesso dos mitos. Com tal legitimidade, agora também arbitrada pelo academismo, os ideólogos, a patronagem e a peonada tradicionalista podem continuar mais impunemente a instrumentalização da história no cotidiano - que é a esfera onde o senso-comum se revigora. Afinal, neles passou a ser tipificada a genuína identidade rio-grandense. Legitimaram-se como réplicas do protótipo que inventaram tomando a si como modelo.
Esse processo demonstra, em sua complexidade, que não havia a probabilidade histórica de o gauchismo revelar um mundo escondido - apesar de o tema estar também integrado ao seu discurso -, o qual poderia ser encontrado numa existência dualista paralela com a civilização contemporânea. O latifúndio, que ainda mantém uma correspondência concreta com o passado, dadas as suas características reais perceptíveis de representante do atraso, da concentração da terra, da injustiça, da miséria da peonada, etc., naufragaria o projeto ufanista ao ser recolhido como reserva arqueológica escondida para servir de modelo revelado. Certamente, não serviria para estabelecer um nexo com a perdida idade de ouro.
Portanto, o método do mundo escondido deveria dar lugar ao de mundo perdido. Este poderia ser criado abstratamente e, ao mesmo tempo, se poderia atribuir-lhe uma historicidade, acrescentando a uma idéia de todo penduricalhos de hábitos e costumes, com algumas técnicas de trabalho na lida com o gado (o produto principal do latifúndio durante muito tempo). Feito isso, puderam encenar o ritual de que estariam recolocando, nesse exercício superestrutural, na dinâmica social dos rio-grandenses um mundo real existente no passado. Essa gigantesca obra do conservadorismo oprime o dever histórico em muitos aspectos e o condiciona ao espectro da tradição do passo de boi.

Publicado por Roberto Cohen em 28/05/2001.
Re-editado por Roberto Cohen em 14/01/2004.