Debate Rodeio Country, Não!  

Antônio Augusto Fagundes
jornal Zero Hora, 15/05/99, Segundo Caderno
gentileza de Luiz Adriano Araújo Ferreira

Já houve tentativas antes, mas agora a cousa vem com força total. O circuito de "rodeios country", que tem o seu epicentro, no Brasil, em Barretos, São Paulo (mas na realidade tem origem em Houston, Texas, EUA), está alcançando efetivamente o território gaúcho em Forqueta, Caxias do Sul. E são inteligentes, os seus corifeus: procuram uma acomodação com o gauchismo, contratando os nossos artistas nativistas para atuarem ao lado de seus artistas tradicionais de "rodeios", contratando nossos narradores e atraindo até mesmo os próprios ginetes gaúchos.

Os chamados "rodeios country" não são sertanejos, nem ao menos brasileiros. Da forma como se apresentam, são uma agressão cultural ao Brasil em geral e ao Rio Grande do Sul em particular. A cooptação que fazem de elementos nossos não mascara o espírito exclusivamente comercial dessas promoções.

Vamos por partes, como dizia Jack, o Estripador.

Quando um batedor do exército americano, eventual caçador de búfalos, mulherengo e beberrão, chamado Wiliam Frederick Cody, foi escolhido, talvez por Ned Buntline, inventor de heróis do Oeste, para ser o Buffalo Bill, logo se deu conta das imensas possibilidades histriônicas do seu novo papel.

E resolveu encarnar o herói, criando logo o seu Wild West Show, apropriando alguns mitos sobre o caubói e o faroeste e até mesmo inovando e francamente inventando alguns outros. Cody sentiu que o fim do século 19, com os Estados Unidos se modernizando rapidamente e o mundo com eles, trazia a nostalgia dos "bons e velhos tempos", do pioneirismo rude e bravo, tratou de explorar esse filão. Contratou "gunfigthers" autênticos, como Wild Bill Hicock e Calamity Jane, chefes indígenas prestigiosos, como Touro Sentado, e se arriscou a enfrentar em um duelo a arma branca o índio Mão Amarela, a quem matou, só para se exibir.

Dentro de pouco tempo, Cody quis mais: importou do sul "charros" mexicanos. Da África, trouxe beduínos, da Rússia cossacos e assim, com os maiores cavaleiros do mundo, ia enriquecendo o seu show. Soube que na Argentina havia grandes ginetes, "los gauchos de la pampa", e tratou de contratar alguns. E aí inventou a "maromba", número arrojado que até hoje alguns ginetes argentinos fazem, pendurando-se no travessão da porteira da mangueira, com o mango no pulso, enquanto alguém abre a porteira e espanta a potrada para fora. Aí o ginete se larga em cima dos bichos, de pernas abertas e no que cair sai dando-lhe pau como se o mundo fosse acabar! Parece uma farroma bem gaúcha, mas é invenção do Buffalo Bill, para deixar a gineteada mais dramática. E ele pegou a palavra usada no Texas (mas de origem mexicana) "rodeo" para designar toda essa festa.

Lá por 1952, Assis Chateaubriand resolveu mandar um ginete gaúcho ao rodeio de Houston, no Texas. O escolhido foi o vacariano Wenceslau Ferreira Filho, um típico gaúcho serrano, de quem eu vim a ser muito amigo, anos mais tarde. A façanha do gaúcho repercutiu em todo o Brasil, com a cobertura dos Diários Associados.

Mais tarde, sempre na Serra gaúcha, uns moços que gostavam de laçar inventaram um concurso e deram-lhe o nome de "rodeio", como os americanos faziam. Estava nascendo assim o hoje famoso Rodeio Internacional da Vacaria. Consta que entre os pioneiros estavam o próprio Lalau e Getulio Marcantônio. Acho que em 1961 o Jorge Karam e o Hipólito Ribeiro, gente nossa, descobriram Barretos, São Paulo. Os dois eram excelentes ginetes, foram lá e se apaixonaram com a beleza e autenticidade sertaneja da festa, que tinha abertura para o gauchismo. Havia moda de viola, comitiva de tropeiros, gineteada em "cotiano" e "solfete" etc. E nos levaram lá, nós do Conjunto de Folclore Internacional Os Gaúchos. Concorremos no concurso o Karam, o Carlinhos Castillos e eu, que levei um tombo que até hoje quando chove ainda me dói...

Com o tempo, a Festa do Peão de Boiadeiro, de Barretos, São Paulo, que nasceu para ser tipicamente sertaneja, americanizou-se, entrando para o circuito internacional de Houston e surgiu quem passasse a implantar o modelo americano no Brasil, sem qualquer respeito pelas tradições regionais brasileiras.

E agora essa brincadeira está aqui.

Fala-se em associação desses "rodeios country" com o próprio Rodeio de Vacaria!

A atração do dinheiro é muito grande e eu tenho medo que os serranos terminem sucumbindo à tentação. Essas festas não têm nada de sertanejas, a música que essas duplas românticas de chapéu Stetson cantam não é sertaneja, o cachê que se paga a essas duplas e a esses artistas é 10 ou mais vezes superior ao que se paga aos artistas nativistas. Enfim, estão usando a nossa gente para entrar aqui. Assim que firmarem as garras, vão mandar nossa gente bem longe.

Nós não precisamos macaquear os americanos. Temos as nossas próprios tradições, que nos explicam e nos justificam como povo.

Fora a ginteada em touro. Fora o chapéu Stetson, tão falso como uma nota de US$ 30. Fora a falsa música sertaneja. Fora o "rodeio country".

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